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É hora
da festa no interior
Empresas
aproveitam potencial de
pequenas e médias cidades, ignoram
a crise e crescem em ritmo veloz
Murilo Ramos
Raul Junior
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Magazine Luiza: empresa do interior paulista conquista
quatro Estados e é referência em vendas pela internet |
Vender
preferencialmente no interior pode parecer uma estratégia equivocada
num país onde quase 80% da renda está concentrada nas capitais.
Pois bem, apostando no interior, as duas redes caipiras brasileiras mais
bem-sucedidas, a paulista Magazine Luiza e as lojas Grazziotin, do Rio
Grande do Sul, cresceram neste ano num ritmo muito mais intenso que o
da economia brasileira, avaliada pela variação do PIB. A
cadeia de lojas de dona Luiza Trajano Rodrigues, de 70 anos, vai chegar
ao fim do ano com um faturamento 17% mais alto que em 2000. As vendas
do grupo gaúcho Grazziotin cresceram 12% no mesmo período.
O PIB brasileiro deve crescer cerca de 2%, ou pouco menos, neste ano.
Qual o segredo? A tentação de saltar para as explicações
ditadas pelo senso comum é grande. Claro, elas têm lá
seu peso. As duas empresas são dirigidas pelas famílias
proprietárias, cujos membros acordam cedo e vão para a cama
tarde. Em cada cargo de direção há um Rodrigues ou
um Grazziotin. Como diz o ditado muito familiar aos clientes das lojas
campeãs do interior, "o olho do dono engorda o gado". Mas isso
não explica o sucesso das duas redes de varejo, que parecem desconhecer
as flutuações da economia, especialmente suas ondas recessivas.
A vigilância familiar é apenas um componente do sucesso.
Os outros, talvez bem mais decisivos e, de certa forma, comuns às
duas redes, são aqueles que fazem avançar tanto uma padaria
de esquina quanto uma empresa gigante, como a General Electric. Eles incluem
a adoção de práticas modernas de administração,
sem que isso iniba o bom senso e a humildade dos diretores e funcionários.
Há também a remuneração variável, que
premia o mérito e decididamente aponta a porta da rua para os funcionários
acomodados. Além disso, ambas preservam suas raízes locais,
mesclam-se com a comunidade onde vivem e até se destacam como promotores
do bem-estar de seus empregados. O Magazine Luiza ficou em terceiro lugar
num ranking nacional da revista Exame, da Editora Abril, que listou
as melhores empresas para trabalhar. O grupo Luiza tem 111 lojas nos Estados
de São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Paraná.
O faturamento deve alcançar 600 milhões de reais em 2001.
"Ter humildade e conhecer muito bem a clientela são nossas armas",
diz Frederico Trajano Rodrigues, que toca a área de vendas via
internet da empresa da família. Talvez pela vocação
de enfrentar adversidades e vender onde poucos conseguem, o site do Magazine
Luiza é sucesso estrondoso quando comparado com os gigantes do
ramo. Eles vendem mais e com mais lucro que as versões para a internet
do Pão de Açúcar ou das Lojas Americanas. O objetivo
é conquistar clientes nas capitais, via internet, sem nunca ter
de abrir uma loja na cidade grande.
A Grazziotin foi criada no interior gaúcho, em 1949, como uma empresa
atacadista. Os quatro irmãos da família Grazziotin começaram
a vida comprando produtos agrícolas em pequenos lugarejos da Serra
Gaúcha para vendê-los em cidades maiores. As estradas enlameadas
e o frio da região, que desanimavam outros comerciantes ambulantes,
eram enfrentados com tranqüilidade pelos imigrantes italianos. Com
o tempo, os irmãos passaram a comercializar ainda eletrodomésticos
e roupas. Hoje são donos de186 lojas no Rio Grande do Sul, em Santa
Catarina e no Paraná. A Grazziotin deve engordar seu caixa em 175
milhões de reais em 2001, um volume 12% maior que o do ano passado.
O público da Grazziotin também é formado pelos moradores
de cidades pequenas e médias, gente de renda baixa mas ciosa do
crédito. A inadimplência e os atrasos nos carnês das
grandes lojas de varejo do interior brasileiro não constituem um
problema. Em média, o número de calotes não chega
à metade do que registram as grandes redes de venda ao público
das capitais. Para atendê-lo é preciso oferecer produtos
de qualidade com o menor preço possível. Como acontece com
muitas empresas bem-sucedidas de qualquer porte, o grupo gaúcho
tem reputação na praça de ser ainda melhor negociante
quando compra dos fornecedores do que quando fica com a barriga no balcão
de vendas.
A receita para o sucesso no interior tem outros ingredientes. O primeiro
é o baixo custo operacional. Comprar ou alugar uma loja no interior
custa um quinto, e em alguns casos um décimo, do que os comerciantes
pagam em áreas centrais de São Paulo ou do Rio de Janeiro.
Pode equivaler a um centésimo quando se compara com o preço
das áreas em shopping centers urbanos consagrados. Além
disso, o público do interior é mais homogêneo e menos
exigente no quesito novidade. Outro ponto decisivo é o fato de
a concorrência ser pequena. A clientela do interior geralmente é
disputada por apenas duas grandes empresas. Ao contrário das grandes
capitais, onde é imprescindível gastar rios de dinheiro
para veicular anúncios, a propaganda mais eficiente no interior
vem da tradição e das dicas passadas naturalmente nas conversas
na pracinha ou nos bares. Esse desprezo pelos modernos instrumentos de
marketing é marca registrada das duas redes vitoriosas em São
Paulo e no Rio Grande do Sul. O Magazine Luiza leva tão a sério
essa convicção que não gastou dinheiro nem quando
lançou seu ponto-de-venda na internet.
No interior, a arma para conquistar a fidelidade do cliente é o
atendimento caloroso. Com o freguês do interior vale muito mais
o contato pessoal que a técnica. Pela experiência do Magazine
Luiza em cidades de até 200.000 habitantes, os vendedores e os
gerentes das lojas conseguem guardar na memória o nome de quase
todos os clientes. A intimidade é a chave do negócio. "Isso
faz parte da cultura do local. Quem percebe essas peculiaridades leva
vantagem", diz Alberto Serrentino, da consultoria empresarial Gouvêa
de Souza & MD, especialista em varejo. À frente dos negócios
há dez anos, Luiza Helena Rodrigues, sobrinha dos fundadores do
Magazine Luiza, criado em 1957, lembra que no interior a velha caderneta
do fim do mês vale muito. "É claro que não anotamos
a lápis, como se fazia quarenta anos atrás, mas nosso serviço
de crédito é muito simplificado, barato e eficiente", diz
Luiza Helena. Não se pode falar de lojas de varejo sem lembrar
que boa parte do sucesso está em simplesmente copiar descaradamente
as boas experiências dos concorrentes. Prática, aliás,
levada ao extremo pelo lendário americano Sam Walton, que fez do
Wal-Mart uma empresa multibilionária. O velho Sam, falecido há
nove anos, chegou a ser detido por seguranças do supermercado Pão
de Açúcar em São Paulo quando fotografava avidamente
as gôndolas de uma das lojas da rede (veja
quadro abaixo).
"Temos de buscar o que há de bom lá fora para modernizar
nosso negócio. Se valer a pena, copiamos as boas idéias",
concorda Gilson Grazziotin, vice-presidente do grupo gaúcho.
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A
RECEITA DO
TIO SAM
Carlos Goldrub
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Wal-Mart: maior rede varejista dos EUA teve
como ponto de
partida as pacatas cidades do interior |
Uma
das maiores empresas de varejo do mundo, a Wal-Mart começou
no interior dos Estados Unidos. Seu fundador, Sam Walton, inicialmente
montou seu império em pequenas cidades. Depois avançou
para os grandes centros e só então entrou na disputa
do mercado internacional. Hoje tem 4.000 lojas espalhadas pelo mundo.
O grande segredo do empresário foi descobrir a fórmula
do sucesso: vender barato e muito. Para isso, comprava grandes volumes,
conseguia um bom desconto do fornecedor e podia vender mais barato
ao cliente. Morreu há nove anos e deixou no caixa da empresa
25 bilhões de dólares, a maior fortuna dos Estados
Unidos na época. O filho mais velho de Walton, Robson, repetiu
a façanha neste ano ao acumular 65 bilhões de dólares
e desbancar o magnata Bill Gates, dono da Microsoft.
Walton veio de uma família pobre do interior de Oklahoma,
nos Estados Unidos. Para concluir o curso de economia, na Universidade
de Missouri, servia mesas em troca de comida, trabalhava como salva-vidas
na piscina da escola e distribuía jornais pela vizinhança.
Nunca foi o aluno mais inteligente da classe, mas não media
esforços para fazer o melhor. O sacrifício valeu a
pena. Sem perceber, Walton já estava montando uma clientela
fiel. Quando inaugurou a primeira loja no interior, costumava tratar
cada comprador de forma especial, chamando-o pelo nome e sobrenome.
O negócio cresceu, mas Walton não perdeu o jeitão
caipira, o que o aproximou ainda mais de sua freguesia.
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