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O rock em luto

Morre George Harrison, o mais
discreto dos beatles. Fica uma
marca profunda na música

Sérgio Martins

AP

Harrison com a mulher, Olivia, em uma de suas últimas fotos, pouco antes de receber a notícia de que estava com câncer no cérebro


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John Lennon era o gênio rebelde. Paul McCartney, o gênio bem-comportado. Ringo Starr era um sujeito engraçado. E George Harrison? Ele sempre foi o beatle mais difícil de definir. Na falta de melhor palavra, ainda nos anos 60, a imprensa o rotulou como "o discreto" – aquele rapaz sisudo ali no fundo do palco, concentrado em sua guitarra, enquanto os companheiros disputavam a luz dos holofotes. Nem por isso Harrison deixou de imprimir uma marca pessoal na história do rock. Uma marca considerável. Melhor instrumentista entre os quatro Beatles, ele influenciou de maneira decisiva a sonoridade da banda – seu feito mais célebre foi introduzir a cítara indiana e as melodias orientais no rock inglês. Também compôs canções clássicas, como Something e Here Comes the Sun. Além disso, sabia provocar. Pego no momento certo, era capaz de tiradas ácidas. "Não sei se fumamos maconha no Palácio de Buckingham. Estava muito doido para me lembrar", disse certa vez a um repórter. Harrison foi quem mais questionou o significado do culto em torno dos Beatles. Incomodado com os frutos do sucesso, que considerava sem lastro espiritual, buscou respostas para suas angústias no misticismo. Em outras palavras, foi um homem discreto, mas de maneira nenhuma medíocre, que morreu no último dia 29, aos 58 anos, vítima de câncer no cérebro. Ele estava na casa de um amigo em Los Angeles, ao lado da mulher, Olivia Arias, e do filho, Dhani.

Harrison enfrentava graves problemas de saúde já fazia algum tempo. Fumante inveterado, em 1998 retirou um tumor maligno da garganta. Em 1999, foi esfaqueado por um maluco que invadiu sua casa, nos arredores de Londres. Em maio deste ano, extirpou um tumor no pulmão. Em julho, recebeu a notícia de que estava com câncer no cérebro. O músico se internou em novembro no Hospital Universitário Staten Island, Nova York, para submeter-se a um tratamento experimental. Ringo Starr e Paul McCartney chegaram a visitá-lo no hospital. "Ele era o meu irmão mais novo", disse McCartney, ao ser informado da morte do ex-parceiro.

O guitarrista George Harrison entrou para a banda The Quarry Men, núcleo dos Beatles, quando tinha apenas 15 anos. Era o mais jovem dos "quatro rapazes de Liverpool" e o único a ter uma família bem estruturada. Paul McCartney era órfão de mãe, Ringo Starr foi abandonado pelo pai e John Lennon foi criado por uma tia. Em seu primeiro contato com Harrison, em 1958, Lennon o considerou mimado e relutou em aceitá-lo como membro da The Quarry Men, que já contava com Paul McCartney em sua formação. Mudou de idéia ao certificar-se de que ele era um guitarrista acima da média. O seu extraordinário talento musical era evidente, mas demorou para que ele se revelasse como compositor. Sua primeira canção a emplacar em um disco dos Beatles foi Don't Bother Me, de 1963, que o próprio Harrison considerava "tolinha". Foi só a partir do álbum Rubber Soul, de 1965, que Harrison criou um número considerável de pérolas do quarteto.

Para ter suas músicas gravadas nos discos dos Beatles, ele precisou enfrentar pesadas discussões com Lennon e McCartney. Esse clima de tensão ficou registrado numa cena antológica do documentário Let It Be, de 1970, em que Harrison abandona uma gravação. "Sim, eu só tocarei o que você quiser", diz ele, contrariado, a McCartney. Harrison sempre nutriu uma ponta de ressentimento em relação aos Beatles – tanto que freqüentemente se recusava a autografar álbuns da banda que os fãs lhe estendiam. Quando o sonho acabou, em 1970, foi o que mais rápido reencontrou o rumo. No mesmo ano, lançou o álbum triplo All Things Must Pass, recheado de composições que havia tentado gravar com os Beatles. All Things Must Pass foi um sucesso estrondoso, mas as promessas dessa estréia-solo não se confirmaram posteriormente. O músico amargou diversos fracassos de crítica e vendas. Seu último álbum de estúdio, no entanto, é uma gema deliciosa: Cloud Nine (1987). Depois de uma turnê em 1991, Harrison passou a tocar cada vez menos em público. "Embora eu tenha um monte de guitarras à minha volta e apanhe uma ocasionalmente para compor e gravar, não me vejo mais realmente como um músico", afirmou. Os últimos registros oficiais de sua guitarra estão na versão em inglês do sucesso do grupo carioca Los Hermanos, Anna Júlia, e no disco-solo do pianista e apresentador de TV Jools Holland, lançado no mês passado.

   
 
   
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