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Assassino, ladrões e
traficantes. Todos livres

Fuga de 101 detentos do Carandiru,
em São Paulo, devolve às ruas aquilo
que o
mundo do crime já produziu de pior

Ricardo Mendonça

Em uma primeira fase, a maioria das pessoas acreditava que os defeitos do sistema prisional brasileiro, entre eles a superlotação, eram um assunto interno que prejudicava apenas os próprios presos. Em algumas delegacias, onde a falta de espaço é mais grave, dividindo-se a área da carceragem pelo total de presos, cada um tem direito a 30 centímetros quadrados. Pesquisas de opinião pública sobre esse tema mostram que o brasileiro não se importa com isso. Nesses levantamentos, os entrevistados dizem que esse é um problema deles e fazem a pergunta clássica: "Quem mandou cair no crime?" Essa indiferença em relação aos presos não mudou muito com o aparecimento de um segundo defeito grave no sistema, as rebeliões em série, que ocorrem ao ritmo de uma a cada sete dias. Especialistas já alertaram para o fato de que a sociedade acabaria sofrendo as conseqüências do que acontece atrás das grades. O Brasil está conhecendo de uns tempos para cá um estágio mais alarmante desse processo. É a fuga em massa de presidiários.

No Complexo do Carandiru, em São Paulo, 101 presos escapuliram na semana passada por um túnel que liga o chão da cadeia à rede de esgotos da cidade. Até a noite de sexta-feira, apenas 33 haviam sido recapturados. O presídio viveu uma fuga semelhante alguns meses atrás, quando 106 desapareceram da mesma forma, por um túnel. Uma inspeção feita no local após o episódio detectou a existência de mais de duas dezenas de buracos em diferentes estágios de "construção". Claro que nenhum dos funcionários consegue explicar como esses túneis são abertos sem que ninguém perceba.

Milhares de presos escapam das cadeias todos os anos. Só no Estado de São Paulo ocorreram 2 400 fugas neste ano. Isso significa que o mundo do crime recebe de volta um bandido a cada três horas e meia. É normal ouvir histórias de fugas envolvendo dez, quinze, vinte presos. Quando a conta chega à centena, a coisa está claramente escapando ao controle das autoridades. Um dado crucial nessa discussão é saber quem são os presos que estão fugindo da cadeia ao ritmo de um a cada três horas e meia. VEJA teve acesso aos prontuários dos foragidos do Carandiru na semana passada e descobriu que o problema é muito mais sério do que parece. A papelada trata da folha corrida de setenta dos bandidos. Em média, cada um desses setenta homens está condenado a uma pena de trinta anos. Juntos, eles praticaram nada menos que 44 homicídios e 202 assaltos. Foram responsáveis também por estupros, tráfico de drogas, atentados ao pudor e estelionato. Isso apenas no universo dos crimes já julgados, pois uma relação quase interminável de acusações paira sobre a cabeça deles.

Os fugitivos que estão à solta formam um grupo da pesada. Um exemplo é o gaúcho Flávio Garcia Porto, o "Flavinho", de 38 anos. Embora a legislação impeça que alguém permaneça preso por mais de trinta anos, a Justiça dá as sentenças somando as penas dos vários crimes cometidos. Flavinho está condenado a 223 anos de cadeia. Sua especialidade são os roubos a residências.


Mauricio Lima/AFP

Os presos do Carandiru recapturados na tubulação de esgoto: só uma minoria


Segundo as estatísticas, em geral tenta escapar da cadeia quem não tem nada a perder com isso. Os que receberam pena curta ou estão prestes a terminar o cumprimento da sua não são entusiasmados por fugas. O fujão típico é o sujeito com prontuário quilométrico e pena longa. Para esse, vale o risco de ser recapturado ou morto durante a tentativa de fuga. Quando esses marginais pesos pesados voltam às ruas, invariavelmente retornam ao mundo do crime. Os estudiosos dizem que as taxas de criminalidade são o resultado de uma conta que mistura a ação de um número elevado de grupos desorganizados que respondem por uma parcela menor dos crimes mais violentos com a de um reduzido grupo organizado que realmente faz a diferença. Ou seja, também na marginalidade pode-se falar em produtividade. Há alguns meses, a polícia paulista prendeu uma quadrilha extremamente produtiva. Ela havia realizado mais de sessenta seqüestros relâmpagos na Zona Sul da cidade. A prisão reduziu, e muito, as estatísticas desse crime.

Para se ter uma idéia precisa do nível de banalização a que chegamos nesse campo, é bom observar o que acontece nos Estados Unidos, que conseguem combinar a maior população carcerária do planeta com um sistema de segurança muito eficiente. Quase ninguém foge das cadeias americanas. De tão raras, as fugas provocam comoção nacional quando ocorrem. Exemplo disso foi o caso dos sete criminosos que escaparam das grades de uma penitenciária no Estado do Texas no fim do ano passado. Dias depois da fuga, seis deles foram recapturados. O último dos bandidos suicidou-se. Que não se espere nada parecido da polícia de São Paulo. Na semana passada, o secretário da Administração Penitenciária do Estado, Nagashi Furukawa, já avisou que vai ser quase impossível recapturar os fugitivos. A não ser por sorte. Vamos realmente precisar dela.

 
Alguns dos que escaparam

Juntos, os fugitivos do Carandiru praticaram 44 homicídios e 202 assaltos. Há onze envolvidos com tráfico de drogas. Somadas, as penas a que estão condenados chegam a 1 900 anos. O quadro apresenta alguns dos marginais

Nome: Flávio Garcia Porto, 38 anos
Pena: 223 anos
Quanto tempo esteve preso: 17 anos
Principais crimes: 29 assaltos, 1 latrocínio, 1 furto e porte de drogas
Nome: Lauro Carlos Gabriel, 39 anos
Pena: 65 anos
Quanto tempo esteve preso: 9 anos
Principais crimes: 4 homicídios
Nome: Aguinaldo Rodrigues Silva, 39 anos
Pena: 59 anos
Quanto tempo esteve preso: 17 anos
Principais crimes: 8 assaltos, 1 estupro e porte de drogas
Nome: Emerson Henrique da Silva, 23 anos
Pena: 42 anos
Quanto tempo esteve preso: 4 anos
Principais crimes: 5 assaltos, 1 furto e 1 seqüestro
Nome: Claudinei Valentim, 26 anos
Pena: 41 anos
Quanto tempo esteve preso: 5 anos
Principais crimes: 3 roubos, 2 seqüestros, 1 estupro e 1 estelionato

Fotos reprodução

 

   
 
   
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