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Edição 1 729 - 5 de dezembro de 2001
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Frisson cerebral

A beleza feminina causa, sim,
reações primitivas nos homens

Karina Pastore


Antonio Milena

Gisele Bündchen: perfeita também do ponto de vista evolucionário


Ao ser indagado por que os homens cultuam a beleza física, Aristóteles abandonou momentaneamente a retórica e mostrou o seu lado borracheiro – houvesse, é claro, borracheiros na Antiguidade. "Só um cego faria essa pergunta", disse ele. Basta uma olhadela na foto de Gisele Bündchen aí ao lado para perceber a conexão entre filosofia grega e borracharia brasileira. E – aqui está a novidade – entre filosofia grega, borracharia brasileira e ciência americana. Não se acanhe, prezado leitor, em devorar com os olhos a modelo gaúcha. Essa sua compulsão é pura química cerebral. Pesquisadores da Universidade Harvard mapearam a atividade do sistema nervoso central de homens heterossexuais, de 21 a 35 anos, e descobriram que a visão de uma mulher atraente causa frisson em algumas das áreas mais primitivas do cérebro. Principalmente no núcleo acumbens e na amígdala, responsáveis por funções como a manutenção da temperatura do corpo e da pressão arterial e por determinadas sensações de prazer. Do ponto de vista cerebral (masculino heterossexual, enfatize-se), uma mulher bonita causa as mesmas reações da cocaína em cocainômanos e da aposta em dinheiro em jogadores inveterados. Enfim, a beleza tem efeito parecido ao do vício, com a vantagem de não fazer mal.

Publicado na revista americana Neuron, uma das mais importantes no campo da neurologia, o estudo de Harvard também analisou a resposta do cérebro de homens heterossexuais a mulheres feias e homens bonitos. Em ambos os casos, a região que se manifestou mais intensamente foi a ligada aos sentimentos de aversão. A explicação é que as feiosas não têm atributos evolucionários suficientes e que os bonitões, nas profundezas cerebrais mais recônditas, representam uma ameaça na disputa por uma parceira ideal – é melhor tê-los longe do que perto. Por atributos evolucionários, que Gisele Bündchen tem de sobra, entenda-se características como o maxilar delicado, o queixo pequeno, os olhos grandes em relação ao comprimento do rosto, os lábios carnudos e as maçãs da face salientes. Tudo isso indica que o organismo da mulher tem baixos níveis de hormônios masculinos e abundância de estrógenos, os hormônios sexuais femininos. Gisele, portanto, é bonita porque exibe as qualidades de uma boa reprodutora.

A diferença de medidas entre cintura e quadris também é um dado importante para uma boa avaliação por parte do macho reprodutor. O melhor é que a cintura da mulher tenha, em média, de seis a oito décimos do tamanho dos quadris. Essa proporção, segundo a psicóloga americana Nancy Etcoff, pesquisadora de Harvard e autora do livro A Lei do Mais Belo, é apreciada no mundo todo, independentemente dos padrões deste ou daquele país. Motivo biológico: sinaliza boa saúde e fertilidade. Ah, sim, Gisele tem 59 centímetros de cintura e 89 de quadris. Proporção de 0,66.

O estudo americano é interessante porque prova que a beleza é uma categoria que está longe de ser definida apenas culturalmente. Nesse aspecto, ele bate de frente em certas teorias conspiratórias. Uma delas é que o belo não passa de uma invenção dos manda-chuvas da indústria de cosméticos, da moda, do cinema e da televisão. Dessa maneira, eles imporiam um rodízio de padrões estéticos, para faturar cada vez mais alto. As feministas mais coléricas chegam a dizer até que a beleza é uma forma encontrada pelos homens para subjugar as mulheres. "A beleza é um sistema monetário, assim como o ouro. É o último e o melhor sistema de crenças que mantém a dominação masculina intacta", lê-se em O Mito da Beleza, da americana Naomi Wolf. É impressionante a capacidade de fantasiar dessas pessoas que acham que feiúra, sim, é fundamental. Ciência americana, borracharia brasileira e filosofia grega nelas.

   
 
   
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