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Mulheres de aço
Recorde
de participantes no
rali humano da Amazônia
revela avanço feminino no
mundo dos esportes radicais

Amauri Segalla
AFP

Luta
estilo livre: a pancadaria já não é exclusivamente
masculina |
Cada vez
mais velozes, fortes e ágeis, as mulheres vêm quebrando sucessivas
barreiras nas pistas de competição. Poucas modalidades resistiram
ao avanço feminino nas últimas décadas. O mundo dos
esportes radicais, aquelas atividades que testam todos os limites do corpo
do atleta num curto espaço de tempo, era um dos últimos
territórios que permaneciam sob o domínio exclusivo dos
homens. A fronteira não existe mais. Exemplo disso é o rali
humano realizado na semana passada na Amazônia, em que quase metade
dos 200 competidores era do sexo feminino um recorde nos quatro
anos de existência da competição. Desde 1998, na estréia
do circuito no Brasil, a participação das atletas praticamente
dobrou. Trata-se de um crescimento expressivo, pois a tal corrida é
um extenuante teste físico. Os atletas precisam correr, nadar,
escalar, pedalar e remar ao longo de um percurso de 550 quilômetros.
Tudo ao ar livre, superando a geografia acidentada e os desconfortos e
perigos da selva. Durante os sete dias de competição, elas
dormiram ao relento, beberam água de chuva, improvisaram banheiros
no meio do mato e terminaram o circuito com bolhas imensas nos pés
iguaizinhas aos marmanjos.
O regulamento
de uma prova desse tipo exige que todos os times sejam mistos, mas não
fixa a cota de participação feminina. Na competição
da semana passada, quase 100 delas enfrentavam, ao lado dos homens, o
cansaço e o forte calor. "Para piorar, ainda havia os insetos e
carrapatos que grudam na nossa pele", conta a professora paulista Silvia
Pereira Guimarães, que se aventurou no rali. Nos esportes que exigem
alta dose de força física, as mulheres também estão
superando fronteiras. Nas próximas Olimpíadas de Atenas,
em 2004, ocorrerá a estréia da categoria feminina na luta
estilo livre, uma variação da tradicional luta greco-romana,
com golpes e choques físicos mais intensos que os do judô.
Antes dessa modalidade, elas passaram a competir regularmente nos ringues
de boxe e até nas arenas de sumô. As regras são as
mesmas para homens e mulheres, com pequenas adaptações nas
categorias de peso e equipamentos. No boxe, elas usam luvas maiores e
protetores de seios, para conter o impacto nos chamados "golpes altos",
digamos assim. No milenar sumô, a principal alteração
foi no uniforme. Em vez do mawashi, o nome que se dá àquela
exígua tanga que veste o corpo descomunal dos competidores, elas
passaram a usar maiô inteiriço. O mawashi é colocado
sobre a roupa, em respeito à tradição do esporte.
AP

Campeonato internacional de sumô: adaptações
nos pesos e na composição do uniforme
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O avanço das mulheres em todas essas modalidades acompanha a tendência
da sociedade de equiparar as atividades masculinas e femininas, seja no
trabalho, na vida social, seja no esporte. "Existe um componente psicológico
por trás disso, um desejo inconsciente de emancipação",
afirma Sandra Matsudo, diretora-geral do Centro de Estudos do Laboratório
de Aptidão Física de São Caetano do Sul. Outro motivo
que contribuiu para a maior participação foi a queda de
uma série de mitos sobre os limites da performance da mulher. Dizia-se,
por exemplo, que o frágil corpo feminino não era talhado
para competições de alto impacto. A proliferação
das atletas de aço demonstra o contrário. Outra falsa idéia
era que elas jamais seriam capazes de ter um rendimento esportivo próximo
ao dos homens. Nesse caso, os resultados obtidos pelas mulheres nos últimos
anos demonstraram que elas estão atingindo níveis inimagináveis
até pouco tempo atrás.
Na década
de 60, as grandes velocistas eram, em média, 15% mais lentas que
os homens. À medida que começaram a se dedicar seriamente
aos treinamentos, elas demonstraram que poderiam encostar nos recordes
masculinos. Nas Olimpíadas de Sydney, por exemplo, a americana
Marion Jones venceu os 100 metros rasos em 10s75, tempo apenas 10% maior
que o registrado pelo também americano Maurice Greene na mesma
prova. Ou seja, a evolução feminina foi notável em
quarenta anos. No salto em distância, elas ficavam mais de 2 metros
atrás dos homens. Hoje, a diferença é de 1,50 metro.
No tênis, imaginava-se que as jogadoras jamais conseguiriam sacar
a mais de 150 quilômetros por hora. Atualmente, a musculosa americana
Venus Williams é capaz de disparar torpedos a 200 quilômetros
por hora.
O incrível
salto de qualidade obtido pelas mulheres desperta uma pergunta inevitável
até que ponto elas podem evoluir? Para os especialistas,
as atletas devem continuar avançando em suas marcas, até
um certo limite. Existe entre os sexos uma diferença de biotipo
intransponível. As mulheres têm 15% menos hemoglobina, fator
que reduz sua resistência física. Acumulam uma taxa maior
de gordura corporal (18% em média, contra 12% nos homens). Com
essa composição, são talhadas para apresentar bom
rendimento em provas de longa duração, já que possuem
mais gordura para queimar. Por outro lado, levam uma desvantagem insuperável
em competições que exigem força de explosão.
"As mulheres estão chegando ao limite da evolução",
afirma Turibio Leite de Barros, da Escola Paulista de Medicina. "A partir
de agora, a tendência é a diferença de desempenho
entre os sexos estabilizar-se na faixa dos 10%", conclui o especialista.
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