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O desejo sobre
rodas
Com novos lançamentos, Volvo
e Fiat entram forte no
segmento
dos SUVs, veículos que têm robustez
de trator e conforto de carro de passeio

Murilo Ramos
Divulgação
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| XC90,
da Volvo, o primeiro SUV da empresa sueca: chega ao Brasil em 2003
a 200 000 reais |
Se
existe um lugar no mundo onde o automóvel é o maior ícone
de consumo, esse lugar chama-se Estados Unidos. Os carros são destaque
no cinema e estão nos sonhos de dez entre dez americanos. Adquirir
um exemplar extrapola a necessidade de se locomover, reflete a condição
social e o gosto do comprador. Nos últimos meses, o maior sonho
de consumo sobre rodas dos americanos, os veículos esportivos utilitários,
os SUVs, trouxe uma questão à tona: é patriótico
comprar um carro que gasta muito combustível e pressiona as importações
de petróleo do país? A situação é paradoxal.
De um lado está o governo desestimulando a compra de modelos que
consomem muito combustível. Do outro, estão as empresas
do setor que, sabendo da sua importância para o reaquecimento de
qualquer economia, estimulam a venda de seu produto com agressivas campanhas
publicitárias.
A queda-de-braço até agora está favorável
à indústria. Hoje já circulam pelo país 25
milhões de SUVs, e a febre pelos modelos 2002 ferve. Apenas nos
oito primeiros meses do ano foram vendidos 2 milhões de SUVs. Na
comparação entre setembro deste ano e o mesmo período
de 2000, as vendas aumentaram 42%. Nem mesmo o fato de o carro ser um
beberrão incontrolável desanima os americanos. Alguns modelos
percorrem apenas 5 quilômetros com 1 litro de gasolina, a terça
parte do desempenho de um automóvel comum. A explicação
é lógica: para movimentar um veículo com quase 2
toneladas, com motor grande, teto solar, tração nas quatro
rodas e uma série de outros itens são necessários
litros e litros de combustível.
Divulgação
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Doblò, da Fiat: carro
fabricado no Brasil tem características da SUV com preço
menor |
O
argumento começa a ser questionado pelos consumidores americanos,
mas o apelo do gigante de quatro rodas que é um símbolo
de status ainda é maior. Há dezesseis anos, quando chegou
ao mercado, veio para encarar estradas de terra ou trilhas de qualquer
natureza. Por isso são grandes e contam com suspensão reforçada.
Com o tempo, ganharam itens de conforto como ar-condicionado e direção
hidráulica e, aos poucos, caíram nas graças do público
urbano. Hoje, cerca de 90% dos proprietários estão nas grandes
cidades, mesmo que a maioria deles não necessite de um carro desse
tamanho. Outro ponto polêmico é a segurança do veículo.
Capotam com facilidade e, geralmente, provocam desastres com maior número
de vítimas. Não é difícil ver, também,
carros menores embaixo de um SUV. Outra agravante é que ninguém
se prepara para dirigir veículos desse porte. As pessoas acham
que o manejo dessa supermáquina é igual ao de carros convencionais.
Pouquíssimos são os Estados americanos que exigem treinamento
especial do condutor. Diante dos fatos, há vários processos
na Justiça movidos por vítimas de acidentes, solicitando
a suspensão da fabricação do carro.
Mesmo com tantos contratempos, as empresas automobilísticas não
abrem mão de avançar nesse mercado promissor e por isso
tentam se adequar às novas exigências. As questões
de segurança e redução do consumo de combustível
já estão na pauta de discussões da indústria.
A Volvo, que lança nos Estados Unidos, em janeiro, o seu primeiro
SUV, o XC90, está atenta. O novo modelo da empresa chegará
ao mercado com um sistema eficiente contra capotamento e contará
com recurso extra de visualização. Uma luz infravermelha
permitirá ao motorista enxergar à noite 50 metros além
do alcance da lanterna do carro. Para maior tranqüilidade dos pais,
o XC90 permitirá que a garotada se sente entre os bancos dianteiros,
em uma cadeirinha especial, de forma segura. Tanta tecnologia é
tentadora, mas os SUVs são para poucos. Um modelo de alto luxo
custa no mínimo 75.000 reais. O XC90 terá um público
ainda mais restrito: custará em torno de 200.000 reais.
No Brasil, o fenômeno dos SUVs ainda não é tão
forte quanto nos Estados Unidos. São importadas apenas cerca de
5.000 unidades ao ano. De olho nesse segmento, a Fiat lançou um
modelo que atende ao mesmo tempo ao desejo do consumidor brasileiro e
ao seu poder de compra. Este mês, a empresa começou a vender
no Brasil o Doblò, produzido em Minas Gerais. Ele é menos
luxuoso que seus concorrentes e tem motor de baixa potência, que
reduz o consumo de combustível. A empresa espera vender 1.300 unidades
por mês. O preço médio gira em torno de 28.000 reais.
O
curioso sobre os SUVs é que são sucesso praticamente em
todo o mundo. Nos países do Terceiro Mundo acrescente-se a suas
qualidades técnicas o fato de ser símbolo de status. Até
no combalido Afeganistão, os membros do Talibã adotaram
o veículo como meio de transporte e de demarcação
da hierarquia. Quanto mais alto o posto do mulá, mais caro e refinado
o SUV em que se locomove. Decisão acertada, levando-se em conta
que quase não existem estradas transitáveis no país.
O número de SUVs da Toyota na região é tão
grande que a empresa resolveu defender-se. Publicou nos jornais de grande
circulação nos Estados Unidos anúncios explicando
que não vende carros ao Afeganistão há vários
anos. Fez questão de ressaltar que os modelos vistos por lá
pertencem a organizações internacionais, como a das Nações
Unidas.
O embaraço provocado pelos SUVs nos Estados Unidos terá
novos capítulos pela frente. O governo americano vai forçar
as empresas automobilísticas a entrar em um rígido processo
de adequação às regras de segurança e exigirá
dos fabricantes a criação de mecanismos que possibilitem
a redução de consumo de combustível. Os fabricantes
alegam que precisam de ao menos cinco anos para cumprir tantas exigências.
Por enquanto, as empresas contam apenas com o apoio dos fiéis fregueses.
Mas até eles já começam a perceber e a cobrar mudanças.
Nessa briga, a palavra final, como sempre, será dos consumidores.
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