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Edição 1 729 - 5 de dezembro de 2001
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O fiasco do clone

Anúncio do primeiro embrião
humano criado por clonagem
não tem valor científico

 
AP

Michael West: mais preocupado com a notoriedade que com a ciência

A produção do primeiro clone humano é apenas uma questão de tempo, admite a maioria dos cientistas. Na semana passada, esse momento parecia ter chegado: uma pequena empresa de biotecnologia americana, chamada Advanced Cell Technology (ACT), especializada em pesquisas veterinárias, divulgou ter conseguido clonar um embrião humano. O anúncio, feito com o alarido de um lançamento de Hollywood, pôs fogo na discussão ética sobre a criação de vida humana em laboratório. O Vaticano condenou, o Parlamento inglês apressou-se em proibir experiências similares e o Congresso dos Estados Unidos colocou na ordem do dia uma lei com esse mesmo objetivo. Não demorou para se tornar público que, na verdade, ainda se está longe de um clone. Tratou-se apenas de uma experiência incipiente, transformada em autopromoção por um grupo de cientistas mais preocupados com notoriedade que com ciência.

O objetivo da ACT era produzir um embrião do qual pudessem ser retiradas as chamadas células-tronco – estruturas que dão origem a outras células e, em tese, podem ser usadas para tratamento de doenças complexas. Utilizando-se da mesma técnica que resultou no nascimento de Dolly, o primeiro animal clonado, a equipe de pesquisadores inseriu uma célula comum num óvulo esvaziado de seu conteúdo genético. Estimulada com um banho químico, a célula começou a se dividir até atingir um aglomerado de seis células, quando então morreu. Isso é um clone? Ninguém pode responder a essa questão com inteira segurança. "Este é um estágio muito inicial", afirma Ian Wilmut, criador da ovelha Dolly. "Para saber se a reprodução deu certo, seria preciso ter pelo menos 200 células." Michael West, presidente da ACT, é de opinião que, a seu modo, obteve sucesso. "Não queríamos fazer seres humanos, mas sim produzir essas células", diz. Na verdade, ele não fez uma coisa nem outra.

 
O clone na capa de revistas: empresa preferiu divulgar sua pesquisa fora dos jornais científicos

Esse estágio de reprodução celular pode ser obtido espontaneamente em óvulos não fertilizados durante o processo de reprodução in vitro. "É o chamado efeito partenogenético, que costuma ocorrer com alguma freqüência nas clínicas", diz o médico Roger Abdelmassih, de São Paulo, especialista em reprodução artificial. Os pecados da clínica americana começam na forma como anunciou o relatório de pesquisa. Manda a praxe que isso seja feito em grandes publicações científicas, que submetem os resultados à apreciação de especialistas antes de divulgá-los. West preferiu uma revista de ciências para leigos, um semanário de notícias e um jornal técnico obscuro. Chamado para se explicar na Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, um dos autores da pesquisa, o veterinário argentino José Cibelli, admitiu na terça-feira passada a pressa em anunciar a clonagem de seres humanos antes de ter resultados concretos.

   
 
   
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