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O fiasco do clone
Anúncio
do primeiro embrião
humano criado por clonagem
não tem valor científico
AP

Michael
West: mais preocupado com a notoriedade que com a ciência |
A produção
do primeiro clone humano é apenas uma questão de tempo,
admite a maioria dos cientistas. Na semana passada, esse momento parecia
ter chegado: uma pequena empresa de biotecnologia americana, chamada Advanced
Cell Technology (ACT), especializada em pesquisas veterinárias,
divulgou ter conseguido clonar um embrião humano. O anúncio,
feito com o alarido de um lançamento de Hollywood, pôs fogo
na discussão ética sobre a criação de vida
humana em laboratório. O Vaticano condenou, o Parlamento inglês
apressou-se em proibir experiências similares e o Congresso dos
Estados Unidos colocou na ordem do dia uma lei com esse mesmo objetivo.
Não demorou para se tornar público que, na verdade, ainda
se está longe de um clone. Tratou-se apenas de uma experiência
incipiente, transformada em autopromoção por um grupo de
cientistas mais preocupados com notoriedade que com ciência.
O objetivo
da ACT era produzir um embrião do qual pudessem ser retiradas as
chamadas células-tronco estruturas que dão origem
a outras células e, em tese, podem ser usadas para tratamento de
doenças complexas. Utilizando-se da mesma técnica que resultou
no nascimento de Dolly, o primeiro animal clonado, a equipe de pesquisadores
inseriu uma célula comum num óvulo esvaziado de seu conteúdo
genético. Estimulada com um banho químico, a célula
começou a se dividir até atingir um aglomerado de seis células,
quando então morreu. Isso é um clone? Ninguém pode
responder a essa questão com inteira segurança. "Este é
um estágio muito inicial", afirma Ian Wilmut, criador da ovelha
Dolly. "Para saber se a reprodução deu certo, seria preciso
ter pelo menos 200 células." Michael West, presidente da ACT, é
de opinião que, a seu modo, obteve sucesso. "Não queríamos
fazer seres humanos, mas sim produzir essas células", diz. Na verdade,
ele não fez uma coisa nem outra.
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| O
clone na capa de revistas: empresa preferiu divulgar sua pesquisa
fora dos jornais científicos |
Esse estágio
de reprodução celular pode ser obtido espontaneamente em
óvulos não fertilizados durante o processo de reprodução
in vitro. "É o chamado efeito partenogenético, que costuma
ocorrer com alguma freqüência nas clínicas", diz o médico
Roger Abdelmassih, de São Paulo, especialista em reprodução
artificial. Os pecados da clínica americana começam na forma
como anunciou o relatório de pesquisa. Manda a praxe que isso seja
feito em grandes publicações científicas, que submetem
os resultados à apreciação de especialistas antes
de divulgá-los. West preferiu uma revista de ciências para
leigos, um semanário de notícias e um jornal técnico
obscuro. Chamado para se explicar na Academia Nacional de Ciências
dos Estados Unidos, um dos autores da pesquisa, o veterinário argentino
José Cibelli, admitiu na terça-feira passada a pressa em
anunciar a clonagem de seres humanos antes de ter resultados concretos.
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