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Montagem sobre foto Luis Gomes
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Silvia Rogar
Ok, todo
mundo já sabe que não vamos encontrar tão cedo a
fonte da juventude em potinhos, na farmácia mais próxima.
A indústria de cosméticos, no entanto, não pára
de crescer. No ano passado, esse segmento faturou 2 bilhões de
dólares nos Estados Unidos só com produtos antienvelhecimento.
No Brasil, foram 136 milhões de reais, com crescimento previsto
de 21% até o fim de 2001. Apesar dos preços altos
nunca menos de 20 reais, podendo chegar a 700 reais um potinho importado
, é irresistível o apelo dos cremes rejuvenescedores
entre as legiões de mulheres (e agora homens também) tomadas
pelo desejo irreprimível de se cuidar e se fazer agrados. Dá
para acreditar no efeito anti-rugas que cada creme promete de maneira
tão arrebatadora? A resposta, em princípio, é: muito
pouco. Uma pesquisa mais séria dos ingredientes, seja do tubinho
comprado na farmácia da esquina, seja do pote adquirido em free
shop a peso de dólar, mostra que: 1) em uma semana, ou um mês,
nenhum deles ameniza sequer uma única ruga; 2) tampouco fazem mal
no mínimo, hidratam e abrandam os efeitos mais agressivos
dos agentes de devastação da pele.
No combate
aos danos somados da idade, da genética e do sol, a pujante indústria
dos cosméticos (veja quadro abaixo) contou nas últimas
décadas com o impulso das pesquisas sobre a atuação
das vitaminas. Os benefícios da vitamina A ficaram evidentes a
partir de 1985, com a descoberta do poder anti-rugas de um de seus derivados,
o ácido retinóico, até então usado para tratamento
de acne. Nos cosméticos, ele aparece na forma de derivados como
retinol e palmitato de retinol. Estudos sobre a vitamina C mostram que
ela pode amainar os danos do sol, atenuar manchas e dar mais luminosidade
à pele. A vitamina E, por sua vez, tem ação antioxidante
e é hidratante. Para funcionar, no entanto, é preciso haver
na fórmula uma concentração mínima das tais
vitaminas, que os fabricantes quase nunca oferecem, até por força
da lei: quando há risco de irritações e efeitos colaterais,
a regra é limitar sua presença nos cosméticos vendidos
livremente. Concentrações mais poderosas transportam o creminho
para a prateleira dos medicamentos.
A pedido
de VEJA, a divisão de Química Orgânica e Farmacêutica
do Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas
e Agrícolas da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp, testou,
num trabalho que durou 45 dias, sete cremes de marcas conhecidas. O objetivo
era medir a concentração de vitaminas nas apresentações
mais comuns nesse tipo de produto, por serem as mais estáveis:
palmitato de retinol (vitamina A), ascorbil fosfato de magnésio
(C) e acetato de tocoferol (E). O consenso vigente entre os especialistas
é que produtos destinados a efetivamente retardar ou disfarçar
o envelhecimento têm de ter em sua fórmula, no mínimo,
para essas substâncias 0,5% de vitamina A, entre 1% e 3% de vitamina
C e 1% de vitamina E. Todos os cosméticos tinham quantidades inferiores
ao que os especialistas apontam como o mínimo para o combate ao
envelhecimento e, portanto, efeito praticamente inócuo sobre as
rugas, pelo menos nos prazos prometidos na propaganda. "Ainda não
se sabe com certeza que efeito as concentrações baixas podem
fazer a longo prazo", diz Marcos Antônio Corrêa, professor
de cosmetologia da Unesp.
A Agência
Nacional de Vigilância Sanitária prevê que cremes com
concentrações altas de vitaminas só podem ser feitos
em farmácias de manipulação, com prescrição
médica. Nos consultórios, receita-se vitamina A na forma
de palmitato com 3% de concentração. A média da C
é de 15%, e alguns dermatologistas chegam a formular a substância
pura a 30%. A vitamina E varia entre 5% e 10%. O efeito é mais
rápido, mas a probabilidade de reações adversas é
maior daí a necessidade de acompanhamento médico.
Para um cosmético poder ser vendido na drogaria da esquina, a vitamina
A não pode ultrapassar 1%. As vitaminas C e E não têm
limite pré-fixado, mas o fabricante precisa provar que não
está expondo seus consumidores ao risco de lesões ou irritações
de pele. A conseqüência prática de tal precaução,
difícil de ser conseguida num produto de uso generalizado, é
que nenhum creme antienvelhecimento fabricado em série contém
em sua fórmula quantidade suficiente de vitaminas para efetivamente
suavizar e retardar rugas em questão de semanas ou meses.
Nem a mais
desesperada consumidora compra um produto acreditando que, em duas semanas,
estará livre das rugas. A imensa maioria das mulheres sabe que
efeitos, se houver, só aparecerão muito tempo depois
e mesmo assim elas vão em frente, porque adoram novidades, a amiga
recomendou, a embalagem é linda, a sensação de estar
se cuidando é reconfortante e, afinal, mal não faz. A indústria,
por sua vez, tem consciência de como é importante mexer com
desejos arraigados, muito mais poderosos que as admoestações
da racionalidade. Por isso, continua a ancorar as campanhas publicitárias
nos resultados milagrosos. Às vezes, com tanto exagero que se expõe
a punições. Só neste ano, o órgão que
regula a propaganda na Inglaterra, o Advertising Standards Authority (ASA),
enquadrou duas gigantes do setor, Chanel e Christian Dior, por campanhas
exageradas. No caso da Dior, o novíssimo NoAge Essentiel propagava
quase uma manifestação da presença divina: pele mais
lisa para 95% das mulheres em apenas uma semana. A revista do Instituto
Nacional do Consumo da França, 60 Millions de Consommateurs,
comparou neste ano o efeito de doze produtos em 195 mulheres, calculando,
com um aparelho de leitura ótica, a profundidade das rugas no rosto
das voluntárias durante 28 dias de uso dos cremes. Nenhum fez milagre,
embora dois mostrassem alguma eficácia, sobretudo nos sulcos mais
superficiais Plénitude Revitalift, da L'Oréal, e
Retinol Actif Pur, da RoC.
Os egípcios,
na Antiguidade, já tratavam a pele com ervas e banhos de leite
de cabra, mas foi só no início do século XX que os
cosméticos saíram da cozinha para a linha de produção
das indústrias. Em 1902, a polonesa Helena Rubinstein usou pela
primeira vez os conceitos de pele seca, normal e oleosa, e iniciou a conquista
do mundo com singelas receitas de família. Nove anos depois, o
alemão Oskar Troplowitz descobriu como unir água e óleo
na mesma emulsão, criando um hidratante nos moldes de hoje
o clássico Nivea da latinha azul. Atualmente, calcula-se que as
americanas dediquem, em média, dezenove minutos por dia a cuidados
de beleza com o rosto. Na França, com sua paixão nacional
pela estética, 70% da população faz algum tipo de
tratamento facial, e os anti-rugas são 38% dos potinhos nas sortidíssimas
prateleiras das seções de cosméticos.
Até
a década de 70, acreditava-se que o ritmo do envelhecimento da
pele era ditado principalmente pela genética. Hoje, depois de tantas
e tão repetidas orientações dos especialistas, todas
as mulheres sabem que o processo pode ser notavelmente acelerado por agentes
externos, como poluição, cigarro e excesso de exposição
ao sol. Contra o fator principal, o cronológico, infelizmente,
não tem jeito: numa pele jovem, a reposição de células
mortas acontece a cada 28 dias, ao passo que aos 60 anos a renovação
se dá a cada cinqüenta dias, e não há creme
sobre a face da terra que mude esse fato. Resta, portanto, atuar sobre
os outros agentes, e aí a receita dos conhecedores é unânime
e requer, antes de tudo, prevenção: não se expor
muito ao sol, usar filtro solar, fazer limpeza e hidratação
diárias no rosto desde cedo. Quanto ao arsenal cosmético
disponível, são armas que, em geral, melhoram a textura
da pele mas os sulcos indesejáveis continuarão lá.
"Os cremes, mesmo os mais poderosos, não tiram as rugas mais profundas
e precisam, em média, de cerca de dois meses para começar
a fazer algum efeito sobre as superficiais", diz Luiz Gustavo Matheus,
vice-presidente da Associação Brasileira de Cosmetologia.
Algum, no caso, é quase sinônimo de invisibilidade. Bateu
uma depressão só de pensar nisso? Ok, pode experimentar
aquele creminho novo. Sonhar, mesmo o sonho impossível, pode não
tirar rugas, mas alivia o espírito.
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