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Santos Dumont:
o gênio além do avião
Fotografias
restauradas mostram
como o brasileiro ajudou a
desenvolver a aviação

Daniel Hessel Teich

AVIÃO
AQUÁTICO
Santos Dumont e a estrutura do Número 18, um flutuador
com motor de avião de 1907, projetado para deslizar sobre o
Rio Sena: uma idéia que não vingou |

Veja também |
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Um aniversário
memorável passou praticamente sem comemoração: os
100 anos do primeiro vôo controlado de um balão dirigível,
o Número 6, realizado por Alberto Santos Dumont em outubro
de 1901. É um marco na história da aviação,
pois só então se mostrou possível dirigir uma aeronave
por uma rota preestabelecida e ainda controlar sua velocidade. Santos
Dumont o descrevia como um dos dois momentos mais emocionantes de sua
vida. O outro foi o vôo do 14 Bis, em 1906, aquele que o
Brasil considera a verdadeira invenção do avião.
Se o restante do planeta prefere conceder esse mérito aos americanos
Orville e Wilbur Wright, não é tanto por eles terem voado
a motor três anos antes mas porque o brasileiro não
teve o cuidado de registrar patentes de suas invenções nem
de produzi-las em escala comercial, como fizeram os espertos irmãos
americanos. Herdeiro do que na época era a maior fazenda de café
no Brasil, Santos Dumont achava de mau gosto ganhar dinheiro com as invenções.
Para piorar a questão, numa crise depressiva, destruiu seus arquivos
e projetos.
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A
CARROÇA VOADORA
O dirigível Número 9, de 1903, foi apelidado
de charrete aérea, pois era usado como meio de transporte.
Na foto, aguarda por Santos Dumont diante de um restaurante
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O
HANGAR
Em 1900, o aviador construiu o primeiro abrigo para aeronaves, nos
arredores de Paris. Tinha 11 metros de altura, 7 de largura e outros
30 de extensão |
Restaram
apenas pequenos desenhos publicados nos livros que ele escreveu e centenas
de fotografias, hoje bastante esmaecidas e em precaríssimo estado
de conservação. Estas são, por sorte, preciosas fontes
de informação. Analisadas por pesquisadores da Universidade
de São Paulo (USP), cerca de 800 imagens produzidas entre 1898
e 1910 e reunidas em três coleções na Fundação
Santos Dumont e no Museu Paulista, em São Paulo, e na Fundação
Casa de Cabangu, na cidade de Santos Dumont, Minas Gerais revelaram-se
um verdadeiro arquivo das idéias originais do inventor brasileiro.
Desse total, 110 foram restauradas digitalmente e publicadas no livro
Alberto Santos Dumont: eu Naveguei pelo Ar, que chega às livrarias
na próxima semana. Impressiona ver os registros fotográficos
da engenhosidade tecnológica que fizeram de Santos Dumont um personagem
mítico na história da aviação. Se esse mineiro
não inventou o avião, ele foi responsável por alguns
avanços fundamentais nos passos iniciais da aviação.
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O
CARONA E O SALVA-VIDAS
Os aviões Demoiselle pesavam pouco mais de 50 quilos,
eram facilmente desmontáveis e podiam ser transportados por
um automóvel (à esq.). Santos Dumont carregava
uma bicicleta a bordo dos balões para conseguir regressar de
pousos em regiões ermas (à dir.)
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Alguns exemplos:
Santos Dumont foi o primeiro a instalar trem de pouso em aviões.
Também desenvolveu o uso de estabilizadores de vôo, espécie
de flap rudimentar. Inovou no uso de materiais pouco conhecidos, como
o alumínio, para produzir hélices e componentes. Ousou colocar
motores a gasolina em dirigíveis, que utilizavam gases altamente
inflamáveis nos balões. Também teve a idéia
do hangar, para estacionar e consertar aeronaves. Acima de tudo
e isso ninguém contesta , Santos Dumont foi o inventor do
ultraleve. O tratamento digital das imagens antigas permitiu aos pesquisadores
João Luiz Musa, da Escola de Comunicação e Artes
da USP, e o engenheiro Marcelo Breda Mourão, da Escola Politécnica,
ampliar as fotografias centenas de vezes e enxergar detalhes antes imperceptíveis.
Num original de 1899 da Fundação Casa de Cabangu descobriu-se
uma bicicleta presa às cordas do balão América,
o segundo do tipo esférico projetado por Santos Dumont. Ele
a usava quando o balão pousava em lugares ermos. Santos Dumont
pedalava à procura de alguém com uma carroça que
o ajudasse a rebocar o artefato até Paris. A restauração
das fotografias permitiu também desfazer alguns equívocos
envolvendo os dirigíveis 5 e 6. Ambos foram construídos
em 1901, para demonstrar que era possível a viagem de dirigível
com rota e duração predeterminadas. Enquanto o Número
6 conseguiu dar a volta na Torre Eiffel, o 5 explodiu ao colidir
com o Hotel Trocadero, num dos mais sérios acidentes sofridos pelo
inventor.
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TESTES
DE CAMPO
O 14 Bis foi testado como um apêndice do dirigível
Número 14. O motor era tão potente que ameaçava
rasgar o balão durante o vôo. O motor do modelo Número
4 (abaixo) foi regulado no hangar num dia frio. O vento
produzido pela hélice era tão gelado que Santos Dumont
caiu de cama, com pneumonia |
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Os dois eram
muito parecidos e em algumas fotografias tiradas de uma distância
maior era praticamente impossível identificá-los com exatidão.
Em ambos, Santos Dumont usou grande variedade de lemes, de diversos formatos
e tamanhos. Digitalizadas e ampliadas as fotos, foi possível observar
pela primeira vez o sistema de refrigeração a água
do Número 6. O modelo anterior usava um mais simples, a
ar. São detalhes importantes do ponto de vista histórico,
pois cada equipamento significava uma experiência pioneira. "Demoiselle,
o mais famoso dos aparelhos de Santos Dumont, tinha todas as características
tecnológicas de um ultraleve moderno", diz o professor Musa.
No início
do século XX, a construção e pilotagem de engenhocas
aéreas em Paris era vista sobretudo como uma atividade esportiva.
Os homens que arriscavam a vida nos vôos precários eram populares
como hoje são os atletas de elite. Foi para ganhar prêmios
oferecidos por milionários que Santos Dumont voou em 1901 e 1906.
Nobres o convidavam para visitar castelos. Os fotógrafos de jornais
parisienses acompanhavam de perto cada teste feito pelo brasileiro. Multidões
acorriam aos parques para observar a decolagem e o pouso das aeronaves.
Santos Dumont gostava de alimentar esse mito com sua ousadia. Era comum
vê-lo abandonar o pequeno cesto dos dirigíveis em pleno vôo
e escalar o cordame dos balões para resolver um ou outro problema
técnico. É famoso o incidente em que apagou um incêndio
no motor do Número 9 com o chapéu panamá,
que, desbeiçado e chamuscado, se tornou sua marca registrada.
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