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Os óculos
ideológicos do PT
Olívio
Dutra não perde a oportunidade
de errar em temas que envolvem
os radicais do partido

Diogo Schelp
Tem dias
e assuntos em que o governo do PT no Rio Grande do Sul acerta e resolve
problemas. Foi assim, por exemplo, com a dívida estadual. O governador
Olívio Dutra herdou 1,4 bilhão de reais em dívidas.
Agora, com o sucesso no aumento da arrecadação de impostos,
deve metade disso. Também dá certo a iniciativa para tornar
o Rio Grande um pólo de tecnologia. Numa complexa articulação
com o governo federal, a iniciativa privada e universidades, conseguiu-se
iniciar a construção de um laboratório de chips eletrônicos
que será único na América Latina. Noutras áreas
da administração pública, como a da saúde,
também se vêem medidas bem-sucedidas. Se essa eficiência
contaminasse outros setores, seria uma maravilha.
Há
dias e temas nos quais o governo Olívio Dutra toma o rumo oposto
e se mete em problemas. A segurança pública é um
exemplo. A agricultura, outro. Um evento importante como o Fórum
Social Mundial, mais um. Celebrações diversas, como a dos
500 anos do Descobrimento, também. Enfim, para cada acerto do governo
há, para comparar, pelo menos um fiasco motivado pelos compromissos
ideológicos. Num caso acontecido há duas semanas, o governador
afastou do comando do policiamento da capital o coronel Tarso Antônio
Marcadella. Diante dos números da violência em Porto Alegre
os homicídios aumentaram 25% em um ano , até
que a decisão já era esperada.
Mas aí
aparece a raiz do problema. O coronel Marcadella não foi demitido
por seu insucesso na tentativa de reverter a criminalidade. Seu problema
foi colidir com os grupos radicais incrustados no governo gaúcho.
Quem pediu a cabeça dele foram dirigentes da CUT que tinham sido
impedidos pela polícia de invadir o novo aeroporto da cidade quando
o presidente Fernando Henrique Cardoso foi inaugurá-lo. O que fez
o governador tomar uma atitude foi uma questão ideológica
e, todas as vezes que esse tempero entra em discussão, a
receita do PT desanda. Na situação mais conhecida, todo
mundo vê que Olívio anda de braço dado com o Movimento
dos Sem-Terra, num casamento que só levou confusão para
o interior do Rio Grande do Sul. No passado, a Secretaria da Agricultura
incentivava a produção de todos os tipos de propriedade
rural e dava força para os exportadores. Hoje, está voltada
apenas para os pequenos produtores e estimula especialmente a agricultura
orgânica, que tem 13.000 hectares de
área plantada.
"A Emater
foi proibida de dar continuidade aos projetos de desenvolvimento para
produtores de médio e grande porte", diz Carlos Sperotto, presidente
da federação dos agricultores. "Nosso projeto é de
prioridade total aos excluídos", justifica o vice-governador Miguel
Rosseto. Por isso, 2,5 milhões de hectares dos incluídos
foram abandonados pelo órgão estadual de assessoria
agrícola. Por ter uma ligação estreita também
com o funcionalismo, Olívio assinou um aumento salarial que jogou
por terra o esforço feito para elevar a arrecadação.
No caso do Fórum Social, que poderia ter projetado o Rio Grande
por trazer à luz uma proposta para resolver problemas da globalização,
o que entrou para a história foi o vandalismo sobre uma plantação
de transgênicos impulsionado por um agitador internacional. Como,
além dos radicais, o PT também tem uma linha moderada, que
disputa espaço na administração, há quem ache
que esse debate se tornou mais importante que a procura pelos acertos
administrativos no governo Olívio. "Desse jeito, a discussão
ideológica é que vai acabar marcando a administração
Olívio Dutra", diz Decio Rosenfield, filósofo político
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
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