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Edição 1 729 - 5 de dezembro de 2001
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Os óculos ideológicos do PT

Olívio Dutra não perde a oportunidade
de errar em temas que envolvem
os radicais do partido

Diogo Schelp

Tem dias e assuntos em que o governo do PT no Rio Grande do Sul acerta e resolve problemas. Foi assim, por exemplo, com a dívida estadual. O governador Olívio Dutra herdou 1,4 bilhão de reais em dívidas. Agora, com o sucesso no aumento da arrecadação de impostos, deve metade disso. Também dá certo a iniciativa para tornar o Rio Grande um pólo de tecnologia. Numa complexa articulação com o governo federal, a iniciativa privada e universidades, conseguiu-se iniciar a construção de um laboratório de chips eletrônicos que será único na América Latina. Noutras áreas da administração pública, como a da saúde, também se vêem medidas bem-sucedidas. Se essa eficiência contaminasse outros setores, seria uma maravilha.

Há dias e temas nos quais o governo Olívio Dutra toma o rumo oposto e se mete em problemas. A segurança pública é um exemplo. A agricultura, outro. Um evento importante como o Fórum Social Mundial, mais um. Celebrações diversas, como a dos 500 anos do Descobrimento, também. Enfim, para cada acerto do governo há, para comparar, pelo menos um fiasco motivado pelos compromissos ideológicos. Num caso acontecido há duas semanas, o governador afastou do comando do policiamento da capital o coronel Tarso Antônio Marcadella. Diante dos números da violência em Porto Alegre – os homicídios aumentaram 25% em um ano –, até que a decisão já era esperada.

Mas aí aparece a raiz do problema. O coronel Marcadella não foi demitido por seu insucesso na tentativa de reverter a criminalidade. Seu problema foi colidir com os grupos radicais incrustados no governo gaúcho. Quem pediu a cabeça dele foram dirigentes da CUT que tinham sido impedidos pela polícia de invadir o novo aeroporto da cidade quando o presidente Fernando Henrique Cardoso foi inaugurá-lo. O que fez o governador tomar uma atitude foi uma questão ideológica – e, todas as vezes que esse tempero entra em discussão, a receita do PT desanda. Na situação mais conhecida, todo mundo vê que Olívio anda de braço dado com o Movimento dos Sem-Terra, num casamento que só levou confusão para o interior do Rio Grande do Sul. No passado, a Secretaria da Agricultura incentivava a produção de todos os tipos de propriedade rural e dava força para os exportadores. Hoje, está voltada apenas para os pequenos produtores e estimula especialmente a agricultura orgânica, que tem 13.000 hectares de área plantada.

"A Emater foi proibida de dar continuidade aos projetos de desenvolvimento para produtores de médio e grande porte", diz Carlos Sperotto, presidente da federação dos agricultores. "Nosso projeto é de prioridade total aos excluídos", justifica o vice-governador Miguel Rosseto. Por isso, 2,5 milhões de hectares – dos incluídos – foram abandonados pelo órgão estadual de assessoria agrícola. Por ter uma ligação estreita também com o funcionalismo, Olívio assinou um aumento salarial que jogou por terra o esforço feito para elevar a arrecadação. No caso do Fórum Social, que poderia ter projetado o Rio Grande por trazer à luz uma proposta para resolver problemas da globalização, o que entrou para a história foi o vandalismo sobre uma plantação de transgênicos impulsionado por um agitador internacional. Como, além dos radicais, o PT também tem uma linha moderada, que disputa espaço na administração, há quem ache que esse debate se tornou mais importante que a procura pelos acertos administrativos no governo Olívio. "Desse jeito, a discussão ideológica é que vai acabar marcando a administração Olívio Dutra", diz Decio Rosenfield, filósofo político da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

 
 

   
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