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Edição 1 729 - 5 de dezembro de 2001
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Máquina de fraudes

Documentos indicam que cartola
lavava dinheiro
e usava recursos da CBF

Alexandre Oltramari


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OPERAÇÃO LIECHTENSTEIN
O presidente da CBF, Ricardo Teixeira, usou uma empresa de fachada, a R.L.J. Participações, com sede no Rio de Janeiro, para esquentar dinheiro ilícito vindo de um paraíso fiscal, o principado de Liechtenstein. A operação foi assim: em julho de 2000, a R.L.J. registrou em seu balanço uma dívida de 2,9 milhões de reais com a Sanud Etablissement, de Liechtenstein (no alto). Documento sigiloso do Banco Central de 1º de novembro passado, ao qual VEJA teve acesso, indica que, nos últimos seis anos, a R.L.J. não recebeu empréstimo da Sanud e, nesse mesmo período, não mandou um único centavo a Liechtenstein a título de pagamento. Além disso, no ano passado, a Sanud já não existia havia dezenove meses. Seu fechamento, que não poderia ocorrer sem a quitação de todos os seus créditos, inclusive os 2,9 milhões de reais de Ricardo Teixeira, está documentado em correspondência do Coaf, órgão brasileiro de fiscalização financeira (acima).


Ricardo Teixeira, o maior cartola do futebol brasileiro, é um homem visado. Dele, já se falou de tudo. Já se disse que teria amealhado um patrimônio pessoal considerável e que, entre outras peripécias, teria desviado para o próprio bolso dinheiro da entidade que preside há uma década, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), a mais alta entidade do futebol nacional. Também já se especulou que Ricardo Teixeira usaria suas empresas no Brasil para lavar dinheiro ilícito vindo de paraísos fiscais. Até agora, tudo isso tinha ficado no território da suspeita – ou, pior, da acusação sem provas. Nas últimas semanas, porém, VEJA teve acesso exclusivo a um conjunto de documentos cuja leitura indica que tudo o que se disse acima é verdade. Com um patrimônio pessoal declarado superior a 5 milhões de reais, Ricardo Teixeira tornou-se íntimo dos cofres da CBF. Usou dinheiro da entidade para pagar pelo menos 82.000 reais a dois advogados que defendiam suas causas pessoais, e não as da CBF. Por meio de uma empresa no Brasil, o cartola recebeu pelo menos 4,9 milhões de reais, de origem desconhecida. Mais da metade desse dinheiro saiu do principado de Liechtenstein, um dos mais fechados paraísos fiscais da Europa.

Ricardo Teixeira diz que nunca desviou um centavo da CBF nem lavou dinheiro sujo. Os documentos obtidos por VEJA contam uma história diferente. Em dezembro de 1992, a principal empresa de Ricardo Teixeira, a R.L.J. Participações, resolveu associar-se à Sanud Etablissement, uma firma com sede em Liechtenstein. Pelos termos do contrato, a Sanud deveria integralizar suas cotas, no valor de 850.000 reais, até julho de 1993. Desde então, em razão da tal sociedade, Teixeira recebeu vários repasses de dinheiro. Até o ano passado, as transferências somavam 2,9 milhões de reais. Mas era tudo fachada, descobriu-se agora. As cotas nunca foram integralizadas pela Sanud, de modo que a sociedade jamais se materializou. Se a sociedade não foi firmada, por que a Sanud mandava dinheiro a Ricardo Teixeira? Diz a contabilidade da R.L.J. que os valores decorriam de "empréstimos" tomados da Sanud. A empresa do cartola poderia ter feito empréstimos, mas há um problema: examinando-se os balanços da R.L.J, constata-se que nos últimos seis anos a empresa não pagou um centavo do "empréstimo", nem um tostãozinho de juro, e não foi cobrada por isso.


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NO PRÓPRIO BOLSO
Há suspeitas de que Ricardo Teixeira tenha desviado recursos da CBF para uso pessoal. Na correspondência acima, o advogado Leonardo Orsini de Castro Amarante pede ao diretor do departamento jurídico da CBF documentos sobre um inquérito
que apura denúncia de contrabando contra a empresa El Turf, de propriedade de Ricardo Teixeira. O rabisco manuscrito, na base do ofício, manda que o departamento financeiro da CBF faça o pagamento ao advogado, ainda que a causa fosse de interesse exclusivamente pessoal de Ricardo Teixeira. O pagamento, de 12 000 reais, foi feito pela CBF por meio do cheque número 027601, do Banco Real, no dia 29 de maio, seis dias depois da data da carta.


Até esse ponto, pode parecer que Teixeira, usando sua experiência no mercado financeiro, no qual atuou antes de virar cartola do futebol, teve a astúcia de encontrar uma mamata financeira com uma empresa otária de Liechtenstein – que empresta dinheiro a rodo, não cobra juro nem exige pagamento do principal. Mas não. Há quatro meses, o Coaf, órgão do governo brasileiro de fiscalização financeira, interessou-se pelas transações. Investigando o assunto, o Coaf foi informado de que a Sanud se extinguiu em 8 de janeiro de 1999. "Isso não é possível. Eu nunca soube disso", espanta-se o sócio Ricardo Teixeira. Como uma empresa não pode fechar as portas sem antes acertar sua contabilidade, recebendo o que lhe devem e pagando o que deve a terceiros, fica difícil entender como a R.L.J de Teixeira declarou ter uma dívida com a Sanud em sua contabilidade de 2000, quase dois anos depois do fechamento da companhia européia. É mais um sinal de que o tal "empréstimo" tomado pela R.L.J. não passou de invenção contábil. Tem cara de ter sido um negócio feito com recursos do próprio Ricardo Teixeira. "Essa é a clássica forma de lavar dinheiro sujo do exterior, parecida com a Operação Uruguai, feita por Collor", afirma um alto funcionário do governo brasileiro especialista no assunto, que examinou os papéis obtidos por VEJA.

A Operação Liechtenstein de Ricardo Teixeira se repetiu em outra ocasião, só que no Brasil. Em seu balanço de dezembro de 1999, a R.L.J. informa ter tomado um empréstimo de 1,2 milhão de reais de uma tal Acoc Administração e Participação, com sede no Brasil. A transação tem as mesmas características de falcatrua para esquentar dinheiro ilícito. Na contabilidade da Acoc não aparece nenhuma menção ao negócio. No seu balanço de dezembro de 1999, a Acoc informa que tem apenas 200.000 reais de crédito para receber, e não 1,2 milhão. "Eu não tenho dados sobre isso", declara Ricardo Teixeira. Como a R.L.J. diz uma coisa e a Acoc informa outra, a conclusão é inevitável: uma das duas empresas fraudou o balanço. Ganha uma chuteira da Nike quem apostar que a fraude é da R.L.J., pois há outros descalabros contábeis da firma. Num deles, a R.L.J. registra que deve quase 800.000 reais a uma pessoa. O indivíduo em questão é o próprio Ricardo Teixeira. Porém, em sua declaração de imposto de renda não há nenhum vestígio do tal empréstimo.

Uma coisa é certa: no Brasil, em Liechtenstein ou no paraíso fiscal das Ilhas Cayman, Teixeira tem uma lábia tremenda para descolar um financiamento. Consegue crédito apesar de suas cinco empresas exibirem uma saúde financeira equivalente à de borracharia de deserto. É mais um indício de que os "empréstimos" são, na verdade, lavagem de dinheiro. Alguns exemplos tirados de negócios feitos por empresas pertencentes a Ricardo Teixeira:

Entre 1997 e 1999, a City Port Bar obteve dois empréstimos, no total de 900.000 dólares – um saiu do Brasil mesmo, outro das Ilhas Cayman. No mesmo período, a empresa amargou um prejuízo de 610.000 reais.

Em 1996, a El Turf Bar e Restaurante levantou 2,5 milhões de dólares no Banco Real. Desde 1995, no entanto, a El Turf não sai do vermelho. Em 1999, seu prejuízo acumulado chegava a 4 milhões de reais.

Nos últimos cinco anos, a R.L.J. acumulou prejuízos de 3,1 milhões de reais e sua receita operacional foi zero real. Repita-se: zero real. Mesmo assim, conseguiu os "empréstimos" de 2,9 milhões em Liechtenstein.

Até a Rio Port View One Bar tem crédito na praça. E, nos últimos três anos, sofreu prejuízo de 500.000 reais. Em 1998, faturou zero real. No ano seguinte, melhorou barbaramente: amealhou 38,95 reais. Deu quase 40 reais.

Ricardo Teixeira tem crédito inclusive junto aos cofres da CBF, apesar de ter empurrado a entidade para o vermelho. Condenado a seis anos de prisão por sonegação de impostos, sentença da qual está recorrendo em liberdade, Ricardo Teixeira já contratou advogados para se defender em causas pessoais – mas a conta é espetada na CBF, o que pode valer-lhe a acusação de apropriação indébita. O advogado Leonardo Amarante, por exemplo, recebeu pelo menos 62.000 reais da CBF, por meio de quatro cheques, a título de serviços jurídicos desde 1995. Amarante trabalhou em três processos, mas em nenhum o cliente é a CBF. É sempre Ricardo Teixeira. A advogada Márcia Parente, do Rio de Janeiro, ingressou com um pedido de habeas-corpus em favor de Ricardo Teixeira para evitar que ele fosse preso sob a acusação de sonegar imposto. O processo não tinha nada a ver com a CBF, mas, de novo, quem pagou a conta foi a confederação. Nesse caso, 20.000 reais. "Nunca trabalhei para a CBF. Sempre defendi Ricardo Teixeira", diz a advogada.


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DESTINO DESCONHECIDO
Sob o comando de Ricardo Teixeira na CBF, houve o sumiço de pelo menos 400 000 dólares. O dinheiro foi comprado pela entidade no Banco Rural, em fevereiro de 1998. Em seguida, foi transferido para uma instituição (a IBJ Schroder) e depois para outra (a Northern), ambas nos Estados Unidos. A transferência, curiosamente, foi comunicada, como mostra o extrato acima, para Renato Tiraboschi, amigo e sócio de Teixeira em vários empreendimentos. Tiraboschi não possui nenhum cargo na CBF e, em tese, não teria razão para ser informado sobre a movimentação financeira da entidade. No mesmo dia em que Tiraboschi é avisado da mudança de endereço dos 400 000 dólares, o dinheiro foi remetido para um banco em Montevidéu, no Uruguai. E sumiu. Na contabilidade da CBF, não há registro da movimentação dos recursos nem informação sobre seu destino final.


Com práticas assim, a CBF vem apresentando sucessivos prejuízos nos últimos anos – mas Ricardo Teixeira e seus amigos estão sempre no lucro. Em 1995, a entidade fechou contrato com uma corretora de câmbio do Rio, a Swap. A corretora, na época, pertencia a dois empresários que, por coincidência, também eram sócios de Teixeira na El Turf. Foi uma festa. Quando a CBF comprava dólares, a Swap vendia-os por cotação superior à do mercado. Quando a CBF precisava vendê-los, a corretora aplicava uma cotação inferior à do mercado. Fazendo-se as contas, descobre-se que o prejuízo da CBF (e o lucro da Swap) chegou a 2,2 milhões de reais até o ano passado, quando o contrato foi rompido. O interessante é que a corretora só era um lobo mau em negócios com a CBF. Quando Ricardo Teixeira fazia transações pessoais, a Swap virava um cordeirinho manso – e brindava o cartola com descontos de até 20% na cotação do dia. Será que, para merecer tal deferência, Teixeira era um cliente mais graúdo que a CBF? Era o contrário: as operações da entidade somaram 127 milhões de reais. As de Ricardo Teixeira não chegaram a 170.000 reais.

O presidente da CBF pode ter tido outros lucros com a Swap. Em 1996, enquanto enchia as burras com operações de câmbio, o empresário Octávio Koeler, um dos donos da corretora e ex-sócio de Teixeira, vendeu uma mansão em Búzios, no litoral do Rio, para uma tal Ameritech Holding, empresa com sede nas Ilhas Virgens Britânicas, outro paraíso fiscal na história. Vendeu, não. Deu de presente, pois cobrou só 14.500 reais por um casarão num terreno de 1.400 metros quadrados, em ponto nobre do balneário. Um ano depois, a Ameritech vendeu a mansão a Ricardo Teixeira por 500.000 dólares. Durante as transações, a Ameritech foi representada por dois procuradores – um era advogado de Teixeira, o outro era sócio dele. A suspeita, óbvia, é uma só: que a Ameritech seja, na verdade, propriedade de Ricardo Teixeira. Ele jura que não. "Não tenho empresas no exterior", diz. Mas é engraçado: dois anos depois de vender a mansão, a Ameritech descobriu que tinha uma dívida de 18.000 reais em impostos da casa. Sem chiar, Teixeira pagou o débito.

Os amigos de Ricardo Teixeira, mesmo aqueles que não têm nada a ver com a CBF, costumam exibir uma notável intimidade com os negócios da confederação. É o caso do empresário Renato Tiraboschi, que também foi dono da Swap durante a farra dos dólares e sócio do cartola. Em fevereiro de 1998, a CBF despachou 400.000 dólares para os Estados Unidos. O dinheiro caiu na conta de uma instituição financeira, o IBJ Schroder, em Miami. Em tese, seria usado para custear despesas da Seleção Brasileira de Futebol, que estava nos Estados Unidos disputando um torneio, a Copa Ouro. No mesmo dia, sabe-se lá por quê, a CBF decidiu transferir a bolada para outra instituição americana e, dali, para um banco no Uruguai, onde não havia competição nenhuma. Por alguma razão, o IBJ Schroder comunica a transferência a Renato Tiraboschi, que nunca ocupou cargo algum na CBF. "Foram gastos 60.000 dólares, e 340.000 voltaram para o Brasil", garante Ricardo Teixeira, que diz desconhecer que o dinheiro passeou pelo Uruguai. Ocorre que não há registro na contabilidade da CBF sobre o destino final do dinheiro depois da escala uruguaia. "Não sei por que meu nome aparece no extrato", observa Tiraboschi. "Mas, se a transação não está na contabilidade da CBF, aí é estranho mesmo", completa.

Com suspeitas de lavagem de dinheiro e apropriação indébita, além das intrincadas conexões com empresas em paraísos fiscais, Ricardo Teixeira está no olho do furacão. Nesta semana, o Senado deve votar o relatório final da CPI do Futebol, que, atiçada pelo milionário contrato de patrocínio firmado entre a CBF e a Nike, investigou os maiores cartolas brasileiros. O relator da CPI, senador Geraldo Althoff, do PFL de Santa Catarina, dá pistas de que seu relatório, guardado a sete chaves, será duro com Ricardo Teixeira, mas não comenta detalhes. Na semana passada, Althoff limitou-se a dizer que tem recebido muitas pressões, inclusive algumas sibilinas ofertas de suborno, para amenizar o texto do relatório. Na tribuna, o senador Álvaro Dias, presidente da CPI, fez a mesma acusação, mas também não deu detalhes sobre as descobertas da investigação parlamentar. Se a CPI não chegou aos documentos a que VEJA teve acesso, mostrando a folia financeira de Ricardo Teixeira, seu trabalho terá sido de mentirinha. Se chegou, a vida de Ricardo Teixeira nunca mais será igual ao que era até a semana passada.

 
André Penner
André Sant'Anna
Fotos Oscar Cabral
Ff
UM PATRIMÔNIO CONSIDERÁVEL
Entre seus bens, o cartola tem uma casa em Miami (no alto à esq.), outra no Rio de Janeiro (no alto à dir.) e uma terceira em Búzios (acima, à esq.), além de lancha: fortuna de mais de 5 milhões de reais

 

OS MOVIMENTOS DA MALA PRETA


DENÚNCIA À PF
O relator da CPI, Geraldo Althoff: tentativa de suborno

Às vésperas da votação do relatório final da CPI do Futebol, os homens da mala parecem ter-se mobilizado. O relator da CPI, o senador catarinense Geraldo Althoff, foi procurado por um suposto enviado da CBF quando estava na cidade de Tubarão, no interior de Santa Catarina. Foi no domingo passado. Althoff não quis recebê-lo. Em seu lugar, o senador despachou um assessor, que, mais tarde, relatou a proposta que ouviu: que o tal enviado dos cartolas tinha à disposição alguns milhões de reais que poderiam ser generosamente distribuídos entre os senadores da CPI, e Althoff em particular, para ajudar no financiamento da campanha eleitoral do ano que vem. Em suma, uma proposta escancarada de suborno para que o senador amenizasse o conteúdo do relatório da CPI. Indignado, Althoff denunciou o caso à Polícia Federal. São recorrentes as denúncias de que parlamentares são assediados com dinheiro para mudar seu voto. Desta vez, porém, o caso motivou a abertura de investigação pela Polícia Federal.

Até sexta-feira passada, os policiais estavam empenhados em descobrir se o emissário da mala realmente tinha mandado da CBF para fazer seu périplo. Não se tem notícia, até agora, de nenhum senador que tenha sido seduzido pelo balaio financeiro da cartolagem para alterar seu voto. Mas é certo que o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, não está de braços cruzados. Na semana passada, o cartola esteve em Brasília, onde despachou na sede da confederação até quinta-feira, quando embarcou de volta para o Rio de Janeiro. "Liguei para uns três senadores apenas, para dar minha versão dos fatos", explica o dirigente. O curioso é que Ricardo Teixeira está de licença médica. Por causa disso, não depôs na CPI do Futebol, porque afinal estava doente e não podia deslocar-se a Brasília e até se afastou do comando da confederação de futebol. Ao que parece, Teixeira já se recuperou plenamente de seus problemas de saúde.


 
 
   
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