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Uma usina de armações
Documentos
inéditos revelam que
a Pelé Sports & Marketing, empresa
do maior jogador de futebol de todos
os tempos, era uma fábrica de
confusões. Teve rombo, fraude
e até falsificação de assinatura

Marcelo Carneiro
e Ronaldo França
Fernando Lemos/Strana
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Sergio Dutti
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O
REI NO MEIO DA CONFUSÃO
Pelé diz que a culpa por todo o rolo da firma é
do antigo sócio |
O
EX-AMIGO DO REI
Hélio Viana: ciranda financeira entre várias empresas
registradas em seu nome e a Pelé Sports |
Em quase
cinqüenta anos de vida sob holofotes, Pelé conseguiu realizar
uma façanha rara entre personalidades de biografia encorpada: nunca
se meteu em confusões. Pelé vive agora um momento diferente.
Há duas semanas, veio a público a notícia de que
empresas ligadas a ele faturaram 700.000 dólares
em um evento do Unicef do qual o ex-jogador dizia estar participando sem
cobrar nenhum centavo. O evento nunca foi realizado e o dinheiro desapareceu,
como que por encanto. Mas isso foi só o começo.
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FRAUDE
EM PROCURAÇÃO
Em 1998, o advogado de Pelé, Sérgio Chermont de Britto,
pediu a um advogado de Nova York que criasse uma procuração
com data adulterada. Chermont diz que o pedido para a adulteração
foi de Hélio Viana. O documento serviu de defesa em uma ação
contra Pelé |
Na semana passada, Pelé anunciou o fim de uma parceria de dezoito
anos com Hélio Viana, seu sócio na Pelé Sports &
Marketing Ltda. (PSM). O ex-jogador, que já determinara a realização
de uma auditoria na empresa, diz que Viana é o responsável
por um rombo de 10 milhões de reais na PSM. Também atribui
a Viana a confusão em torno do evento do Unicef. Com a briga e
com a auditoria encomendada por Pelé, descerrou-se uma cortina
que encobria os negócios de ambos. É um mundo de empresas
de fachada, grandes quantias em paraísos fiscais, indícios
de sonegação e até documentos falsos. Pelé,
reconhecidamente uma pessoa incapaz de gerir negócios, já
levou prejuízos milionários com os dois sócios que
teve anteriormente. Agora, volta a ver rombo em sua conta depois da associação
com Hélio Viana. Segundo Pelé, Viana é o responsável
pelas irregularidades que estão vindo à tona. Viana rebate
que Pelé sempre soube de tudo o que se passava em sua empresa.
Quando as coisas chegam a esse ponto, elas acabam sempre no mesmo endereço,
a Justiça. Na sexta-feira 23, Pelé entrou com uma "notícia-crime"
no Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro. No pedido,
acusa Hélio Viana de crimes como apropriação indébita,
falsidade ideológica e estelionato.
Na semana
passada, os advogados de Pelé abriram a VEJA a contabilidade da
PSM nos últimos dois anos. Esse material, que teve sua autenticidade
comprovada por duas pessoas que trabalharam na empresa, tem sido a base
do levantamento que está sendo realizado pela equipe de auditores
contratada por Pelé e traz revelações assombrosas.
De outras fontes, VEJA obteve extratos de contas bancárias e mais
documentos de empresas ligadas à PSM. Todo esse conjunto de papéis
deixa evidente que uma das maiores empresas de marketing esportivo do
país, representante dos interesses do atleta do século,
era gerida como um botequim. Alguns exemplos:
A assinatura do jogador cujo autógrafo virou marca registrada em
todo o mundo foi falsificada para avalizar a renovação de
um empréstimo de 1 milhão de dólares. Pelé
soube na época, mas preferiu a discrição ao escândalo.
Hélio Viana montou, ao redor da PSM, um cinturão de empresas
em que figura como sócio. As firmas, algumas com o mesmo endereço
da PSM, movimentavam quantias de mais de 1 milhão de reais em transações
comerciais com a própria PSM ou com seus diretores. Uma delas,
a Famali Comercial, entregou a Viana três cheques que somavam quase
750.000 reais, em um intervalo de três
dias.
Em agosto deste ano, a PSM tinha uma dívida de mais de 10 milhões
de reais, contraída nas empresas em que Hélio Viana figura
como sócio. Esse é um meio eficiente de esquentar balanços,
rolar empréstimos e justificar retiradas. Três delas
Vinas Empreendimentos e Participações, Klavi Projetos Especiais
e Famali Comercial são credoras de mais de 90% da dívida.
Antonio Milena

A
SEDE DA EMPRESA
O empresário Pelé em ação, no escritório
do Rio: ordem de auditoria após as denúncias
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As irregularidades
do time de Pelé começaram a se tornar públicas há
duas semanas, quando o jornal Folha de S.Paulo publicou uma reportagem
mostrando o sumiço do dinheiro destinado ao evento do Unicef. O
rumo desse dinheiro é uma das descobertas de VEJA. Depois de tomar
caminhos sinuosos, ele foi quase que inteiramente depositado no MTB Bank,
em Nova York. Foram parar no banco nada menos que 600.000
dólares. Essa é apenas uma parte dos muitos depósitos
feitos ali. A Pelé Sports e Marketing enviava regularmente vultosas
quantias para várias contas no MTB, entre elas uma em nome de uma
tal Slone Financial Corp (conta nº 71509) e outra para a Cond. Investments
Ltda. (conta nº 030101220). Nas anotações de contabilidade,
os registros dos depósitos feitos em reais são sempre acompanhados
da cotação do dólar. Há indícios de
que sejam contas abertas por doleiros no exterior. A equipe que assumiu
o comando da empresa depois do início da auditoria suspeita de
que a maior parte dos depósitos no MTB tenha como destino uma conta
particular de Viana, que nega a acusação.
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ASSINATURA
FALSIFICADA
Em 1996, ao renovar os termos de um empréstimo de 1 milhão
de dólares, a Pelé Sports & Marketing apresentou
ao Banco Itamarati, do empresário Olacyr de Moraes, uma assinatura
falsificada de Pelé. O exame grafotécnico de um perito
contratado pelos auditores da Pelé Sports constatou a grosseira
falsificação |
Entre os papéis obtidos por VEJA, figura uma carta do atual advogado
de Pelé, Sérgio Chermont de Britto, aos advogados encarregados
da empresa Pelé Sports & Marketing Incorporated, com sede nas
Ilhas Virgens Britânicas. Na carta, de 4 de dezembro de 1998, ele
pede que uma procuração seja dada à PSM brasileira
com data retroativa a 1º de fevereiro de 1993. O documento foi mais
tarde anexado numa ação trabalhista movida contra Pelé
por Roberto Seabra, um ex-diretor. "Fiz o pedido ao escritório
americano por ordem de Hélio Viana. Não o faria dentro de
meu próprio escritório", afirma Chermont de Britto. É
do punho do próprio Seabra que surge outra prova reveladora. Trata-se
de uma carta ao banco argentino Patricios ordenando que parte do dinheiro
destinado ao Unicef fosse depositado em contas no MTB e no Chase Manhattan
Bank.
Um terceiro
depósito seria feito na conta de Guillermo Bassignani, dono da
Global Entertainment, teoricamente a organizadora do evento. O que o documento
revela é que a empresa de Pelé e Viana, e não a Global,
se entendeu diretamente com o banco sobre o destino do dinheiro, apesar
de ser mera contratada. VEJA apresentou o conteúdo dos documentos
aos assessores de Pelé e de Hélio Viana e ao próprio
Seabra. "Pelé desconhecia totalmente o que acontecia na companhia,
que era gerida pelo Hélio. E mandou apurar o destino de cada centavo",
afirma Nélio Machado, advogado do atleta do século. Hélio
Viana confirma a autenticidade de quase todos os comprovantes, à
exceção de cartas em que ele faz remessas para o MTB Bank.
"São tão falsas quanto o amor de Pelé pelas criancinhas",
diz. Seabra, por seu lado, afirma que a correspondência ao Patricios
é falsa. "Vou pedir perícia e processar os responsáveis",
afirma.
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CONTROLE
NA EMPRESA
Um comunicado interno enviado aos funcionários por Pelé,
em julho deste ano, demonstra que, pelo menos nesse momento, o ex-jogador
assumiu funções executivas. Na atribuição
de tarefas feita por Pelé, coube a ele próprio estar
no comando de três projetos de suas empresas como coordenador.
Hélio Viana também recebe instruções através
do documento. O principal argumento da defesa de Pelé é
o fato de que o ex-jogador não se envolvia no dia-a-dia da
Pelé Sports & Marketing Ltda. Os advogados sustentam que
esse comunicado foi distribuído depois que Pelé passou
a desconfiar de irregularidades de seu sócio e tomou a frente
dos negócios |
A análise da contabilidade da firma mostra que, de fato, Pelé
tinha pouca participação nas decisões sobre investimentos.
Apesar de ser dono de 60% da Pelé Sports & Marketing Ltda.
os outros 40% pertencem a Hélio Viana , o jogador
não se sente muito à vontade para lidar com números
e balancetes. Isso não significa, porém, que Pelé
esteja isento de responsabilidade pelos atos da PSM. Tem responsabilidade
legal e não é crível que fosse tão desligado
a ponto de não saber o que estava acontecendo debaixo de seus olhos.
Em pelo menos um dos documentos a que VEJA teve acesso, um comunicado
interno da empresa Pelé Comércio e Empreendimentos, ele
aparece dando instruções a seus subordinados sobre a divisão
de tarefas na qual se atribui função executiva. Seus
advogados alegam que o fato ocorreu num momento em que o rei do futebol
já desconfiava de Viana.
No período
em que Pelé comandou o Ministério dos Esportes, entre 1995
e 1998, as empresas criadas por Hélio Viana, à margem da
PSM, firmaram contratos milionários. VEJA obteve um desses documentos
firmados nessa época, quando Pelé foi obrigado, por lei,
a afastar-se da gestão da PSM. O contrato rendeu cerca de 5 milhões
de dólares à Klavi Projetos Especiais, registrada em nome
de Viana e Creso Rocha, diretor financeiro da PSM. A Klavi (que tem o
mesmo endereço da PSM) vendeu à TV Globo os direitos de
transmissão das partidas do Vasco na Copa Libertadores da América,
em 1998. O curioso é que, apesar de impedido de participar de negociações
em nome de qualquer empresa enquanto fosse ministro, Pelé assinou
esse documento como fiador do negócio e representante da PSM. O
uso de outra companhia tinha mais uma justificativa, além do impedimento
devido ao cargo público. Segundo um dos participantes da negociação,
o acerto com o Vasco teria sido feito pela Klavi para que Eurico Miranda,
cartola do clube e desafeto de Pelé, não desconfiasse que
lhe estava entregando um contrato vantajoso.
Oscar Cabral

A
CASA DE VIANA
Mansão de novela em endereço chique do Rio de Janeiro,
comprada com os lucros da rentável parceria de dezoito anos
com Pelé |
A passagem
de Pelé pelo Ministério dos Esportes também foi marcada
pela presença da turma da PSM. Hélio Viana não tinha
cargo no ministério, mas ocupou assento no conselho do Instituto
Nacional de Desenvolvimento do Desporto (Indesp), autarquia criada por
Pelé. Pouco mais de um ano após sua criação,
a direção da entidade foi acusada de firmar convênios
sem licitação, no valor de 500.000
reais, com uma fundação da cidade de Ouro Preto, em Minas
Gerais. Em seguida, surgiram denúncias de que funcionários
faziam uso indevido do auxílio-moradia. Pelé, então,
pediu ao presidente Fernando Henrique uma auditoria no Indesp, ao fim
da qual doze funcionários foram demitidos. Entre eles, Vagner Barcelos,
assessor de projetos da autarquia.
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O
DINHEIRO DO UNICEF
Um documento emitido pela Pelé Sports & Marketing Ltda.,
em junho de 1995, demonstra que a firma de Pelé foi responsável
por definir as ordens de pagamento ao banco argentino Patricios, financiador
do evento do Unicef que nunca aconteceu. Assinado pelo então
diretor Roberto Seabra, é a prova de que a PSM era mais que
mera contratada dos organizadores. Seabra diz que o documento é
falso e afirma que realizará uma perícia para comprovar
sua versão |
O assessor não ficou desamparado. Passou a dar expediente na sede
da Pelé Sports & Marketing, na Zona Sul do Rio, aonde comparecia
regularmente até um mês atrás. Nunca teve carteira
assinada, mas era uma espécie de faz-tudo de Hélio Viana,
seu grande amigo. Pois Barcelos é o principal suspeito de ter falsificado
a assinatura de Pelé na renovação de um contrato
de financiamento entre a PSM e o então banco Itamarati, do empresário
Olacyr de Moraes, em fevereiro de 1996. Um exame grafotécnico encomendado
pelos advogados de Pelé constatou, na semana passada, a falsificação
grosseira, por sinal. No laudo, o perito Mauro Ricart informa ter
encontrado "elementos que permitem sugerir" que a farsa tenha partido
do punho de Barcelos.
É
difícil definir com exatidão o trabalho desempenhado por
Barcelos para Viana. Entre os documentos encontrados pela auditoria aparecem
ordens de pagamento assinadas por ele, em nome de Hélio Viana,
para várias pessoas. Barcelos também aparece como sócio
de Viana na Vinas Empreendimentos e Participações Ltda.
Suas atribuições incluem ainda ser o motorista de um belíssimo
Jaguar mais uma pérola no patrimônio de Viana, que
também é dono da mansão que era de Reynaldo Gianecchini
na novela Laços de Família, da TV Globo.
Pelé
e Viana conheceram-se em meados da década de 80. Pelé era
um astro. E Viana, de 44 anos, era um assessor sem muita expressão
das lideranças políticas do PDT no Rio. As duas experiências
empresariais anteriores do rei do futebol haviam sido um desastre. Na
década de 60, viu praticamente todo o seu patrimônio virar
pó nas mãos do empresário José Osores, o lendário
"Pepe Gordo". Nos anos 70, novo empresário, "Pepito", e mais prejuízo:
quase 6 milhões de dólares. Surgiu, então, Hélio
Viana, que deu novo fôlego à carreira do astro, negociando
contratos milionários com empresas como MasterCard e Umbro. Tudo
parecia correr às mil maravilhas. Por trás da cortina, no
entanto, havia uma tempestade se armando.
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