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Edição 1 729 - 5 de dezembro de 2001
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Uma usina de armações

Documentos inéditos revelam que
a Pelé Sports & Marketing, empresa
do maior jogador de futebol de todos
os tempos, era uma fábrica de
confusões. Teve rombo, fraude
e até falsificação de assinatura

Marcelo Carneiro e Ronaldo França

Fernando Lemos/Strana
Sergio Dutti
O REI NO MEIO DA CONFUSÃO
Pelé diz que a culpa por todo o rolo da firma é do antigo sócio
O EX-AMIGO DO REI
Hélio Viana: ciranda financeira entre várias empresas registradas em seu nome e a Pelé Sports

Em quase cinqüenta anos de vida sob holofotes, Pelé conseguiu realizar uma façanha rara entre personalidades de biografia encorpada: nunca se meteu em confusões. Pelé vive agora um momento diferente. Há duas semanas, veio a público a notícia de que empresas ligadas a ele faturaram 700.000 dólares em um evento do Unicef do qual o ex-jogador dizia estar participando sem cobrar nenhum centavo. O evento nunca foi realizado e o dinheiro desapareceu, como que por encanto. Mas isso foi só o começo.


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FRAUDE EM PROCURAÇÃO
Em 1998, o advogado de Pelé, Sérgio Chermont de Britto, pediu a um advogado de Nova York que criasse uma procuração com data adulterada. Chermont diz que o pedido para a adulteração foi de Hélio Viana. O documento serviu de defesa em uma ação contra Pelé



Na semana passada, Pelé anunciou o fim de uma parceria de dezoito anos com Hélio Viana, seu sócio na Pelé Sports & Marketing Ltda. (PSM). O ex-jogador, que já determinara a realização de uma auditoria na empresa, diz que Viana é o responsável por um rombo de 10 milhões de reais na PSM. Também atribui a Viana a confusão em torno do evento do Unicef. Com a briga e com a auditoria encomendada por Pelé, descerrou-se uma cortina que encobria os negócios de ambos. É um mundo de empresas de fachada, grandes quantias em paraísos fiscais, indícios de sonegação e até documentos falsos. Pelé, reconhecidamente uma pessoa incapaz de gerir negócios, já levou prejuízos milionários com os dois sócios que teve anteriormente. Agora, volta a ver rombo em sua conta depois da associação com Hélio Viana. Segundo Pelé, Viana é o responsável pelas irregularidades que estão vindo à tona. Viana rebate que Pelé sempre soube de tudo o que se passava em sua empresa. Quando as coisas chegam a esse ponto, elas acabam sempre no mesmo endereço, a Justiça. Na sexta-feira 23, Pelé entrou com uma "notícia-crime" no Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro. No pedido, acusa Hélio Viana de crimes como apropriação indébita, falsidade ideológica e estelionato.

Na semana passada, os advogados de Pelé abriram a VEJA a contabilidade da PSM nos últimos dois anos. Esse material, que teve sua autenticidade comprovada por duas pessoas que trabalharam na empresa, tem sido a base do levantamento que está sendo realizado pela equipe de auditores contratada por Pelé e traz revelações assombrosas. De outras fontes, VEJA obteve extratos de contas bancárias e mais documentos de empresas ligadas à PSM. Todo esse conjunto de papéis deixa evidente que uma das maiores empresas de marketing esportivo do país, representante dos interesses do atleta do século, era gerida como um botequim. Alguns exemplos:

A assinatura do jogador cujo autógrafo virou marca registrada em todo o mundo foi falsificada para avalizar a renovação de um empréstimo de 1 milhão de dólares. Pelé soube na época, mas preferiu a discrição ao escândalo.

Hélio Viana montou, ao redor da PSM, um cinturão de empresas em que figura como sócio. As firmas, algumas com o mesmo endereço da PSM, movimentavam quantias de mais de 1 milhão de reais em transações comerciais com a própria PSM ou com seus diretores. Uma delas, a Famali Comercial, entregou a Viana três cheques que somavam quase 750.000 reais, em um intervalo de três dias.

Em agosto deste ano, a PSM tinha uma dívida de mais de 10 milhões de reais, contraída nas empresas em que Hélio Viana figura como sócio. Esse é um meio eficiente de esquentar balanços, rolar empréstimos e justificar retiradas. Três delas – Vinas Empreendimentos e Participações, Klavi Projetos Especiais e Famali Comercial – são credoras de mais de 90% da dívida.

 
Antonio Milena

A SEDE DA EMPRESA
O empresário Pelé em ação, no escritório do Rio: ordem de auditoria após as denúncias

As irregularidades do time de Pelé começaram a se tornar públicas há duas semanas, quando o jornal Folha de S.Paulo publicou uma reportagem mostrando o sumiço do dinheiro destinado ao evento do Unicef. O rumo desse dinheiro é uma das descobertas de VEJA. Depois de tomar caminhos sinuosos, ele foi quase que inteiramente depositado no MTB Bank, em Nova York. Foram parar no banco nada menos que 600.000 dólares. Essa é apenas uma parte dos muitos depósitos feitos ali. A Pelé Sports e Marketing enviava regularmente vultosas quantias para várias contas no MTB, entre elas uma em nome de uma tal Slone Financial Corp (conta nº 71509) e outra para a Cond. Investments Ltda. (conta nº 030101220). Nas anotações de contabilidade, os registros dos depósitos feitos em reais são sempre acompanhados da cotação do dólar. Há indícios de que sejam contas abertas por doleiros no exterior. A equipe que assumiu o comando da empresa depois do início da auditoria suspeita de que a maior parte dos depósitos no MTB tenha como destino uma conta particular de Viana, que nega a acusação.

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ASSINATURA FALSIFICADA
Em 1996, ao renovar os termos de um empréstimo de 1 milhão de dólares, a Pelé Sports & Marketing apresentou ao Banco Itamarati, do empresário Olacyr de Moraes, uma assinatura falsificada de Pelé. O exame grafotécnico de um perito contratado pelos auditores da Pelé Sports constatou a grosseira falsificação



Entre os papéis obtidos por VEJA, figura uma carta do atual advogado de Pelé, Sérgio Chermont de Britto, aos advogados encarregados da empresa Pelé Sports & Marketing Incorporated, com sede nas Ilhas Virgens Britânicas. Na carta, de 4 de dezembro de 1998, ele pede que uma procuração seja dada à PSM brasileira com data retroativa a 1º de fevereiro de 1993. O documento foi mais tarde anexado numa ação trabalhista movida contra Pelé por Roberto Seabra, um ex-diretor. "Fiz o pedido ao escritório americano por ordem de Hélio Viana. Não o faria dentro de meu próprio escritório", afirma Chermont de Britto. É do punho do próprio Seabra que surge outra prova reveladora. Trata-se de uma carta ao banco argentino Patricios ordenando que parte do dinheiro destinado ao Unicef fosse depositado em contas no MTB e no Chase Manhattan Bank.

Um terceiro depósito seria feito na conta de Guillermo Bassignani, dono da Global Entertainment, teoricamente a organizadora do evento. O que o documento revela é que a empresa de Pelé e Viana, e não a Global, se entendeu diretamente com o banco sobre o destino do dinheiro, apesar de ser mera contratada. VEJA apresentou o conteúdo dos documentos aos assessores de Pelé e de Hélio Viana e ao próprio Seabra. "Pelé desconhecia totalmente o que acontecia na companhia, que era gerida pelo Hélio. E mandou apurar o destino de cada centavo", afirma Nélio Machado, advogado do atleta do século. Hélio Viana confirma a autenticidade de quase todos os comprovantes, à exceção de cartas em que ele faz remessas para o MTB Bank. "São tão falsas quanto o amor de Pelé pelas criancinhas", diz. Seabra, por seu lado, afirma que a correspondência ao Patricios é falsa. "Vou pedir perícia e processar os responsáveis", afirma.

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CONTROLE NA EMPRESA
Um comunicado interno enviado aos funcionários por Pelé, em julho deste ano, demonstra que, pelo menos nesse momento, o ex-jogador assumiu funções executivas. Na atribuição de tarefas feita por Pelé, coube a ele próprio estar no comando de três projetos de suas empresas como coordenador. Hélio Viana também recebe instruções através do documento. O principal argumento da defesa de Pelé é o fato de que o ex-jogador não se envolvia no dia-a-dia da Pelé Sports & Marketing Ltda. Os advogados sustentam que esse comunicado foi distribuído depois que Pelé passou a desconfiar de irregularidades de seu sócio e tomou a frente dos negócios



A análise da contabilidade da firma mostra que, de fato, Pelé tinha pouca participação nas decisões sobre investimentos. Apesar de ser dono de 60% da Pelé Sports & Marketing Ltda. – os outros 40% pertencem a Hélio Viana –, o jogador não se sente muito à vontade para lidar com números e balancetes. Isso não significa, porém, que Pelé esteja isento de responsabilidade pelos atos da PSM. Tem responsabilidade legal e não é crível que fosse tão desligado a ponto de não saber o que estava acontecendo debaixo de seus olhos. Em pelo menos um dos documentos a que VEJA teve acesso, um comunicado interno da empresa Pelé Comércio e Empreendimentos, ele aparece dando instruções a seus subordinados sobre a divisão de tarefas – na qual se atribui função executiva. Seus advogados alegam que o fato ocorreu num momento em que o rei do futebol já desconfiava de Viana.

No período em que Pelé comandou o Ministério dos Esportes, entre 1995 e 1998, as empresas criadas por Hélio Viana, à margem da PSM, firmaram contratos milionários. VEJA obteve um desses documentos firmados nessa época, quando Pelé foi obrigado, por lei, a afastar-se da gestão da PSM. O contrato rendeu cerca de 5 milhões de dólares à Klavi Projetos Especiais, registrada em nome de Viana e Creso Rocha, diretor financeiro da PSM. A Klavi (que tem o mesmo endereço da PSM) vendeu à TV Globo os direitos de transmissão das partidas do Vasco na Copa Libertadores da América, em 1998. O curioso é que, apesar de impedido de participar de negociações em nome de qualquer empresa enquanto fosse ministro, Pelé assinou esse documento como fiador do negócio e representante da PSM. O uso de outra companhia tinha mais uma justificativa, além do impedimento devido ao cargo público. Segundo um dos participantes da negociação, o acerto com o Vasco teria sido feito pela Klavi para que Eurico Miranda, cartola do clube e desafeto de Pelé, não desconfiasse que lhe estava entregando um contrato vantajoso.

 
Oscar Cabral

A CASA DE VIANA
Mansão de novela em endereço chique do Rio de Janeiro, comprada com os lucros da rentável parceria de dezoito anos com Pelé

A passagem de Pelé pelo Ministério dos Esportes também foi marcada pela presença da turma da PSM. Hélio Viana não tinha cargo no ministério, mas ocupou assento no conselho do Instituto Nacional de Desenvolvimento do Desporto (Indesp), autarquia criada por Pelé. Pouco mais de um ano após sua criação, a direção da entidade foi acusada de firmar convênios sem licitação, no valor de 500.000 reais, com uma fundação da cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais. Em seguida, surgiram denúncias de que funcionários faziam uso indevido do auxílio-moradia. Pelé, então, pediu ao presidente Fernando Henrique uma auditoria no Indesp, ao fim da qual doze funcionários foram demitidos. Entre eles, Vagner Barcelos, assessor de projetos da autarquia.

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O DINHEIRO DO UNICEF
Um documento emitido pela Pelé Sports & Marketing Ltda., em junho de 1995, demonstra que a firma de Pelé foi responsável por definir as ordens de pagamento ao banco argentino Patricios, financiador do evento do Unicef que nunca aconteceu. Assinado pelo então diretor Roberto Seabra, é a prova de que a PSM era mais que mera contratada dos organizadores. Seabra diz que o documento é falso e afirma que realizará uma perícia para comprovar sua versão



O assessor não ficou desamparado. Passou a dar expediente na sede da Pelé Sports & Marketing, na Zona Sul do Rio, aonde comparecia regularmente até um mês atrás. Nunca teve carteira assinada, mas era uma espécie de faz-tudo de Hélio Viana, seu grande amigo. Pois Barcelos é o principal suspeito de ter falsificado a assinatura de Pelé na renovação de um contrato de financiamento entre a PSM e o então banco Itamarati, do empresário Olacyr de Moraes, em fevereiro de 1996. Um exame grafotécnico encomendado pelos advogados de Pelé constatou, na semana passada, a falsificação – grosseira, por sinal. No laudo, o perito Mauro Ricart informa ter encontrado "elementos que permitem sugerir" que a farsa tenha partido do punho de Barcelos.

É difícil definir com exatidão o trabalho desempenhado por Barcelos para Viana. Entre os documentos encontrados pela auditoria aparecem ordens de pagamento assinadas por ele, em nome de Hélio Viana, para várias pessoas. Barcelos também aparece como sócio de Viana na Vinas Empreendimentos e Participações Ltda. Suas atribuições incluem ainda ser o motorista de um belíssimo Jaguar – mais uma pérola no patrimônio de Viana, que também é dono da mansão que era de Reynaldo Gianecchini na novela Laços de Família, da TV Globo.

Pelé e Viana conheceram-se em meados da década de 80. Pelé era um astro. E Viana, de 44 anos, era um assessor sem muita expressão das lideranças políticas do PDT no Rio. As duas experiências empresariais anteriores do rei do futebol haviam sido um desastre. Na década de 60, viu praticamente todo o seu patrimônio virar pó nas mãos do empresário José Osores, o lendário "Pepe Gordo". Nos anos 70, novo empresário, "Pepito", e mais prejuízo: quase 6 milhões de dólares. Surgiu, então, Hélio Viana, que deu novo fôlego à carreira do astro, negociando contratos milionários com empresas como MasterCard e Umbro. Tudo parecia correr às mil maravilhas. Por trás da cortina, no entanto, havia uma tempestade se armando.

 


 
 
   
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