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Edição 1 729 - 5 de dezembro de 2001
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Não vale um safári

"Fui visitar a favela da Rocinha. Ela
é igual
a Copacabana ou Ipanema"

A favela da Rocinha é igual a Copacabana ou Ipanema. Eu já conhecia Copacabana e Ipanema. Agora fiquei conhecendo a favela da Rocinha, num passeio organizado pela "Jeep Tour". Duas horas e meia de passeio por 75 reais. O jipe pegou-me na frente do Hotel Caesar Park, um dos mais caros do Rio de Janeiro. Era um desses jipes de safári. O motorista, Renato, trajava boné e bermuda de safári. Tudo indicava que aquilo era um safári para ver os pobres em sua reserva natural. Só faltava o fuzil com tranqüilizantes.

Além de mim, no jipe havia um casal de turistas alemães e um casal de turistas franceses. Na Gávea, o guia José Carlos informou que iríamos ver o lado positivo da Rocinha, não a miséria ou o tráfico de drogas. Os franceses protestaram. Acharam que estivéssemos sendo levados a uma favela de mentirinha, cenográfica, construída pelo governo apenas para impressionar os turistas, como as fazendas-modelo dos países da Cortina de Ferro. Os franceses queriam uma favela de verdade, com pobres de verdade. Era uma reivindicação legítima. Ninguém aceita fazer um passeio desses se ele não propicia observações autênticas de cunho antropológico.

No final das contas, os franceses ficaram satisfeitos com a Rocinha. Surpreenderam-se com a grande quantidade de cabeleireiros e lojas de cosméticos espalhados pela favela, acrescentando que, se morassem ali, no meio daquela imundície, deixariam imediatamente de se lavar, pentear e escovar os dentes. É notório que os franceses aproveitam qualquer pretexto para descuidar da higiene, mas o fato é que a Rocinha não me pareceu tão imunda assim. Não tem cheiro de esgoto. Não tem muito lixo no chão. As ruas são asfaltadas. As ladeiras, pavimentadas. Não há casas de madeira: são todas de tijolos, com quatro ou cinco andares. Custam caro. Li o anúncio de um quarto-e-sala com duas caixas-d'água e revestido com lajotas de cerâmica à venda por 15.000 reais.

No ginásio esportivo, o guia fez questão de nos mostrar uma caricatura de Osama bin Laden, feita por um grafiteiro local. À noite, no próprio ginásio esportivo, aconteceria a festa de aniversário da filha do dono do restaurante Pizza Lit, cujos cartazes de propaganda recobriam todos os muros da favela. O tema da festa seria "A Bela e a Fera". Quem cuidava da decoração era Neide, que também decorou a festa de aniversário da filha de Xuxa. Depois o guia nos levou a uma rua em que a Globo costuma ambientar suas novelas. Também fomos a uma feira. Um epilético caiu à minha frente. Ninguém deu a menor bola para ele.

O melhor aspecto da Rocinha é a vista. De um lado, o Corcovado, a Lagoa Rodrigo de Freitas, o Pão de Açúcar. Do outro, o Morro Dois Irmãos, a Pedra da Gávea, São Conrado. O resto, como eu já disse, é igual a Copacabana e Ipanema: muitos bares, um excesso de farmácias, ruas congestionadas, má arquitetura, prédios com esquadrias de alumínio, esgotos a céu aberto, águas impróprias para o banho e falsa cozinha italiana. A população da Rocinha é, em geral, mais obesa que a de Copacabana ou Ipanema. Quanto aos pobres, são os mesmos que vendem tapioca e biscoito de polvilho na praia. Ou seja, nada muito exótico. Os pobres, no Brasil, não vivem segregados numa reserva natural. E pobres e ricos têm os mesmos gostos, as mesmas idéias. Esse é o lado mais positivo da Rocinha: ela não merece uma visita, não merece um safári.

 
 
   
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