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O
ritmo ainda é lento
O americano especialista em economias emergentes diz
que o Brasil é um país notável, mas precisa tornar-se
mais eficiente
Cláudia Granadeiro
Sem alarde, a empresa americana de consultoria Monitor Group, que tem
entre seus sócios o guru Michael Porter, um dos mais requisitados
em todo o mundo, instalou, recentemente, uma filial em São Paulo.
Especializada em economias emergentes, com mais de 700 consultores espalhados
por trinta cidades no globo, a Monitor enxerga boas oportunidades no Brasil.
Formado em engenharia mecânica e aeroespacial pela Universidade
Princeton, Porter doutorou-se em economia empresarial na Harvard Business
School, onde passou a dar aulas em 1973. Fez fama e fortuna com seus livros,
entre eles Estratégia Competitiva e A Vantagem Competitiva
das Nações, best-sellers estudados no mundo todo. Assessorou
multinacionais, como a Shell e a Procter & Gamble, e os governos do
Canadá, Nova Zelândia, Índia, Irlanda, Taiwan e Portugal.
O ex-presidente Ronald Reagan nomeou-o para a comissão empresarial
em questões de competitividade industrial. Ao lado do economista
Jeffrey Sachs, coordena o Relatório Global de Competitividade.
Atualmente, Porter dirige um instituto criado neste ano em Harvard para
cuidar de temas ligados a sua especialidade, que tem entre as tarefas
traçar o perfil da concorrência em sessenta países.
Muito requisitado para palestras, ele só aceita até uma
dezena de convites por ano, a um preço estimado de 80 000 dólares
cada. Uma delas foi em novembro, em São Paulo. A seguir, a entrevista
que concedeu a VEJA.
Veja Quando o senhor pensa no Brasil, o que lhe vem à
mente?
Porter
É um país grande, diversificado e visto como uma promessa
que parece nunca se realizar. O potencial existe, mas há algo bloqueando
o Brasil. Acho que é uma combinação de fatores como
o sistema político e o modo de trabalhar do cidadão, pouco
engajado nos problemas da sociedade. É muito freqüente o brasileiro
eleger políticos por seu nível de popularidade, sem avaliar
seus programas e ações. É um país muito importante
para a economia mundial, mas somos sempre decepcionados. É um desafio
delicado entender por que as coisas não acontecem rapidamente no
Brasil, por que o sistema político não passa por reformas
e por que o governo vive apagando incêndios.
Veja O senhor disse, certa vez, que o empresariado brasileiro
tinha mentalidade negativa. Como isso entrava o desenvolvimento?
Porter
Quando
falo em mentalidade negativa, isso significa simplesmente a falta de confiança
em competir. Muitos tentam buscar outras maneiras para sobreviver e isso
envolve subsídios, desvalorização da moeda, proteção
do governo. A confiança na competição é que
dá coragem para investir e fazer o negócio crescer. O Brasil
sempre enfrentou algum tipo de crise, boom ou fase de instabilidade e
os dirigentes sempre tiveram de focar o imediato. Para obter sucesso,
é preciso pensar a longo prazo.
Veja Apesar dos esforços em diversificar, o Brasil
ainda é muito dependente de exportação de produtos
primários. Como escapar disso?
Porter
Isso requer mudanças estruturais, e o sucesso depende da qualidade
da força de trabalho e de seu treinamento educacional, que precisa
ser melhorado no Brasil. Depende de transparência e de abertura
de mercados. A competitividade surge com a construção de
bases técnicas e científicas, nas quais universidades fazem
boas pesquisas que caem nas mãos do setor privado. Nesse ponto,
o país está bem atrás em termos de tecnologia e de
criação de patentes. A competitividade depende de uma administração
bastante eficiente, o custo de fazer negócios entre as empresas
precisa ser baixo. O Brasil avançou nas reformas macroeconômicas,
implantou o Plano Real, tem cumprido os acordos com o Fundo Monetário
Internacional (FMI), mas não há uma sistemática para
aumentar a produtividade e tornar o país mais transparente e aberto.
Enquanto isso não acontecer, o Brasil vai continuar exportando
recursos naturais, isso é muito fácil. Não requer
inovação ou esforço de produtividade. Você
vende mesmo se não for eficiente.
Veja O senhor sempre defendeu a descentralização
industrial. Como o Brasil, um país de dimensões continentais,
pode seguir esse processo?
Porter
É absolutamente essencial que o Brasil absorva a noção
de descentralização econômica. É impossível
para um país de grandes dimensões ter sucesso de outra forma.
Veja os EUA, com sua enorme diversificação. Cada Estado
possui sua estratégia, seu plano econômico, especializações
e lideranças fortes. Há um comércio interno intenso,
e isso cria pressões competitivas entre os Estados. Empresas de
um Estado têm de competir com as de outro. A descentralização
é necessária para lidar com a complexidade de economias
grandes. Muitos dos ativos competitivos são locais, como as próprias
universidades. O Brasil tem tendência de atuar no campo macroeconômico,
mas ignora a potencialidade da economia. Fazer a descentralização
será fundamental para o país. Ele deve mirar-se no exemplo
da China em Xangai, que está fazendo isso bem, com uma competição
interna acirrada.
Veja Em discurso recente na França, o presidente Fernando
Henrique Cardoso citou os Estados Unidos como um dos países mais
protecionistas na área agrícola, o que prejudica o Brasil.
O senhor concorda?
Porter
Não. Os Estados Unidos têm um déficit comercial de
centenas de bilhões de dólares. Somos os mais importantes
compradores de produtos brasileiros e o país mais aberto do mundo.
Não obteremos progressos se o presidente do Brasil ou de qualquer
outra nação fizer pronunciamentos acusando os Estados Unidos
de protecionismo. Isso é simplista e mostra falta de sofisticação
para entender a realidade das circunstâncias.
Veja Mas essas dificuldades que o Brasil encontra são
reais, não?
Porter
Isso
é desculpa. Barreiras existem em todas as partes e em todos os
países. É preciso reduzi-las, mas o Brasil reclama demais.
A maior parte dos problemas brasileiros é interna. As empresas
não são eficientes o suficiente. As eleições
se aproximam e, quando isso ocorre, a impressão é que tudo
pára, não há continuidade de projetos. É hora
de deixar de reclamar e crescer e fabricar produtos superiores, com valor
diferenciado.
Veja Quais as dificuldades que o Brasil enfrenta para se
adaptar à globalização?
Porter
O Brasil é um país notável em vários aspectos
é impressionante a qualidade de alguns presidentes de empresa,
por exemplo. O principal problema brasileiro é não saber
lidar com as reformas microeconômicas internas para tornar mais
eficiente todo o processo de competição. O Brasil ainda
possui um sistema tributário complexo e em cascata e muita burocracia.
Apesar de seu esforço memorável em fazer as reformas estruturais
do ponto de vista macroeconômico, ainda possui enormes desafios.
É muito complicado fazer negócios no país. As exportações
não estão crescendo rapidamente como deveriam porque as
companhias não são eficientes o suficiente. Esse é
um dos próximos desafios.
Veja Com tantas dificuldades, como as empresas podem vencer
a guerra da competição?
Porter
Elas confundem eficácia operacional, que é a aplicação
de boas práticas administrativas, com posicionamento estratégico,
que é criar uma posição competitiva sustentável.
Elas investem em eficácia operacional, procurando fazer o mesmo
que o concorrente, mas melhor. É quase impossível vencer
assim. Você pode ser melhor, mais produtivo, mas não irá
lucrar mais. É uma competição destrutiva. O caminho
viável é conseguir vantagem competitiva, porque você
concorre de uma maneira diferente, oferecendo um valor real ao cliente.
Veja Quais são os principais erros estratégicos
das empresas?
Porter
Existe uma infinidade de erros, que vêm do próprio conceito
de estratégia. Defino estratégia como a criação
de uma posição exclusiva e valiosa. Ter uma visão
não é estratégia. Alguns empresários acham
que estratégia é algo poético. Isso é perigoso.
A estratégia deve ser concreta, palpável. Estratégia
não é agilidade. Não adianta ser ágil mas
não ter direção. Estratégia também
não é flexibilidade, como todos pensam. Você precisa
ser flexível até certo ponto. As empresas tendem a atender
a todas as necessidades específicas de cada cliente. É aí
que não se consegue lucro. É preciso fazer escolhas. Outro
grande senso comum é apostar em alianças e parcerias. Digo
que elas precisam ser avaliadas com cuidado. Só faça alianças
se elas forem realmente completar uma peça de seu quebra-cabeça.
Veja Como transmitir o conceito de estratégia para
toda a organização?
Porter
A
palavra estratégia assusta, parece estar ligada a assuntos como
guerra e restrita a poucas cabeças pensantes. Isso é errado.
A empresa inteira precisa saber em que direção está
indo. Os melhores presidentes que conheço são aqueles que
repetem a estratégia, no mínimo duas vezes ao dia, a funcionários
de diversos departamentos.
Veja Como fugir da imitação em produtos e serviços?
Porter
Estude a história das empresas. Tente descobrir quais de seus clientes
são realmente felizes, em qual linha de produto você pode
ganhar mais dinheiro. Faça um mapa segmentado de seu setor e procure
saber os serviços diferentes oferecidos para descobrir se existe
alguma brecha em que possa atuar. Veja o exemplo da Enterprise Rent a
Car, a maior locadora de automóveis nos Estados Unidos. Ela percebeu
que nem todo mundo gostaria de alugar um carro para viajar e passou a
oferecer locação para o motorista cujo veículo estava
sendo consertado ou que precisava de outro para oferecer a algum parente
em caso de visita. O preço é 30% menor que o cobrado em
aeroportos e os modelos são mais antigos.
Veja Quais são os aspectos positivos e negativos que
o senhor enumeraria ao avaliar o Brasil?
Porter
O mercado financeiro é bastante eficiente. Vejo também um
gerenciamento muito profissional das empresas, com pouca administração
familiar. De negativo, pouca capacidade das companhias para inovar, pouco
investimento em pesquisa, infra-estrutura falha, custo alto para fazer
negócios. A verdade é que o Brasil não se abriu o
suficiente.
Veja Em um de seus artigos, o senhor afirma que os anos 90
foram uma década ruim para a estratégia. Por quê?
Porter
Muitas
organizações foram ludibriadas por idéias e noções
de estratégia que provaram não ser fundamentalmente corretas.
O melhor exemplo é a internet. Todas as estratégias empresariais
em relação à internet foram um fracasso. A maioria
perdeu muito dinheiro. Grande parte das companhias de internet formadas
nessa época está hoje fora do mercado, e acredito que isso
ocorreu simplesmente porque elas não possuíam uma estratégia.
Elas seguiam uma tendência, um modismo.
Veja Por que o senhor acredita ser extremamente perigoso
apostar na incompetência do concorrente?
Porter
Na economia atual, em todas as partes do mundo (e isso certamente ocorre
no Brasil), as empresas estão mais expostas do que nunca à
competição. Existem poucos mercados protegidos ou indústrias
subsidiadas. A competição é tão intensa que
os competidores têm cada vez menos fatias do mercado e os fracos
sumiram ou foram comprados ou fundidos com outros parceiros. Apenas melhorar
as práticas de administração e assumir que seu concorrente
não será capaz de enfrentá-lo é perigoso porque
todas as companhias estão tentando melhorar, sofrem pressão
por resultados, investem em qualidade e treinamento.
Veja O que mudou na economia mundial após os ataques
terroristas de 11 de setembro?
Porter
Há um consenso entre os líderes empresariais de que estamos
a caminho da recessão. Mas os recentes eventos não são
a causa, eles somente aceleraram o processo. A recessão iria ocorrer
de qualquer maneira. Neste panorama pós-ataque, há realmente
um clima enorme de incerteza, e com isso as pessoas tendem a se retrair.
A retração, contudo, não é decorrente de mudanças
estruturais nos fundamentos da economia. Simplesmente, as pessoas estão
esperando antes de ter a certeza da decisão a tomar.
Veja Qual o conselho que o senhor vem dando aos empresários
americanos?
Porter
Não é preciso contratar psicólogos ou psiquiatras.
O clima de incerteza está começando lentamente a se dissipar.
Junto com o economista Jeffrey Sachs, acabamos de fazer uma pesquisa com
100 presidentes de empresas de todo o mundo que nos surpreendeu, mostrando
que os ataques terão pouco impacto ou influência na estrutura
dos negócios. Para esses dirigentes, o nível de investimentos
não será afetado. A demanda cairá moderadamente.
Então, o conselho que dou é não entrar em pânico.
Aproveite este período de baixa nos negócios para redirecionar
sua estratégia. Quando a economia realmente voltar aos níveis
anteriores, você estará mais bem preparado. É simplesmente
uma questão de tempo. As coisas voltarão à normalidade,
e a melhor forma de enfrentar o clima de incerteza é ter uma agenda
clara e positiva. Tire proveito deste momento e coloque todos para fazer
algo construtivo, melhore sua linha de produtos, invista na equipe de
vendas. Se você conseguir deixar as pessoas focadas no futuro, aperfeiçoando
departamentos, será a melhor maneira de lutar contra as incertezas.
Torne os funcionários orgulhosos do que podem conquistar.
Veja Como o senhor avalia a ação do presidente
George W. Bush contra o terrorismo?
Porter
Estou bastante impressionado. Ele mostra seriedade em suas propostas e
demonstra confiança. Obviamente, enfrenta dificuldades internas
com a questão da segurança, principalmente com os casos
de contaminação por anthrax, algo novo para nós.
Bush foi meu aluno em Harvard, temos a mesma idade e o conheço
há trinta anos. É um líder que aprende muito rápido
e estou confiante em que saberá lidar também com esses problemas
internos.
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