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Gustavo
Franco
O jornalismo econômico
"Sete
anos e meio depois do fim da
hiperinflação, parece evidente que
o jornalismo econômico se transformou,
como seu próprio objeto"
Ilustração Ale Setti
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A partir de meados dos anos 1980 o Brasil viveu uma hiperinflação,
uma das mais graves e monumentais patologias econômicas que se conhecem,
uma insensatez comparável, em virulência e em vítimas
inocentes, a uma epidemia ou a uma guerra civil. Mas, independentemente
das responsabilidades, jamais apuradas em CPI, pelo Ministério
Público ou pelo Tribunal de Contas, deve ser óbvio que a
híper foi, como não poderia deixar de ser, a maior de todas
as notícias neste país durante os oito anos (1986-1994)
em que vigorou. Nada teria tamanha importância ou afetaria tanto
a cada um de nós em todos os planos da existência, do aluguel
ao supermercado, passando pelo domínio da ética na política.
Se um país inteiro se vê entregue a essa forma terminal de
"alcoolismo monetário", o jornalismo econômico não
poderia mesmo tratar de outra coisa.
Assim sendo,
a cobertura desse monstruoso fenômeno transbordou para o noticiário
geral, roubando a cena dos crimes hediondos, das celebridades, dos grandes
rituais e movimentos da política. Todo dia, em poucas horas, a
voragem da inflação poderia destruir fortunas, poupanças
de uma vida inteira, sem falar na enorme ferida simbólica representada
pelo cotidiano aviltamento da moeda, um símbolo nacional como a
bandeira e o hino.
A híper
passou, então, a dominar o noticiário, como se fosse um
crime cotidiano, inesgotável em seus detalhes, superlativo em seu
desenrolar. Eram dezenas de índices, quase todos publicados semanalmente,
cada qual ocupando nunca menos de meia página, com seus heróis
e vilões, o chuchu, a batata-inglesa, o corte de cabelo ou o lingote
de aço. O léxico da mídia pareceu se ajustar ao que
se passava de forma natural, prestando o serviço de tornar inteligível
um fenômeno de outra maneira impossível de apreender. Toda
grandeza econômica com sinal negativo, como as contas do governo,
passava a ser um "rombo" ou "buraco", diante do qual nada era capaz de
simplesmente subir, mas sempre "disparar", "estourar" ou "explodir", como
ocorria com a base monetária todo santo mês. Em contrapartida,
nada simplesmente sofria uma queda, mas "despencava" ou "desabava". É
verdade que essa terminologia vinha caindo em desuso, mas, depois das
crises da Ásia e da Rússia e do regime de flutuação
cambial, o velho dicionário foi redescoberto, esperemos que apenas
temporariamente.
A esta altura,
a vida econômica já deveria estar livre de sustos, as políticas
públicas não mereceriam a designação de "pacotes"
e também deveríamos estar livres de iniciativas descritas
como "tunga" ou "confisco". Ou, pelo menos, assim esperamos.
O otimismo,
por sua vez, apenas cabia dentro de vocábulos como "enxurrada"
ou "farra", pois nunca podia ser pequeno, mas sempre era fugaz, tendo
em vista, em bom economês, sua inevitável insustentabilidade.
A híper tornou a melancolia e o ressentimento embocaduras naturais
para a imprensa, e nesse contexto era evidente o desassombro nas "crises",
"corridas" ou "pânicos". A beira do precipício era a regra.
As coisas complexas da economia, com espantosa facilidade, eram pejorativamente
tratadas como "negociatas", como se nada que não fosse simples
pudesse ser honesto e sempre estivéssemos a um passo do "escândalo".
Mesmo estatísticas inocentes, quando envolviam alguma explicação
ou revisão, entravam no terreno do "expurgo" ou da "maquiagem".
A linguagem era cruel e presunçosa, mas não há como
negar que a própria híper era um insulto e merecia esse
palavreado.
O problema
era que, com esse vocabulário superlativo e reducionista, ficava
difícil explicar o Brasil pós-1994. Sete anos e meio depois
do fim da híper, parece evidente que o jornalismo econômico
se transformou, como seu próprio objeto. A cobertura ficou mais
técnica e analítica, mas jornalistas não devem virar
economistas. Basta que ouçam, de preferência, os dois lados,
quando forem apenas dois, uma vez que, como aprendi recentemente com um
experiente jornalista, a verdade dos fatos nada mais é que um equilíbrio
entre versões.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com
- www.gfranco.com.br)
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