O preço foi 1,2 bi

O Bradesco faz uma proposta irrecusável e arremata
o BCN de Pedro Conde, que se aposenta biliardário

David Friedlander

Conde: banqueiro de primeira e jogador inveterado, evitou ao máximo a venda do banco
Foto: Regis Filho  
Lázaro Brandão: o Bradesco ficou muito maior do que os concorrentes e se protegeu para a chegada dos estrangeiros
  Foto: Egberto Nogueira

No último dia 10 de outubro, dois diretores do Bradesco procuraram o banqueiro Pedro Conde, dono do BCN, levando uma proposta irrecusável. Disseram que Lázaro Brandão, o presidente do Bradesco, maior banco privado do país, queria o BCN e estava disposto a pagar bem. Em duas semanas, o Bradesco fechou um negócio que já parecia impossível. Afinal, como aquelas garotas bonitas e disputadas num baile de 15 anos, Pedro Conde passou os últimos doze meses dançando com todos os pretendentes mas sem aceitar proposta séria de nenhum. Desfez um negócio com o BBA de Fernão Bracher na hora H e também não se acertou com os espanhóis do Bilbao Vizcaya, a segunda maior casa bancária da Espanha, depois de até Gustavo Franco, o presidente do Banco Central, já ter anunciado o casamento como coisa certa. Luiz Cesar Fernandes, do Pactual, também fez um lance e não levou. Lázaro Brandão ganhou a parada oferecendo 1,2 bilhão de reais pelo controle do banco. Com a aquisição, o Bradesco deixou seus concorrentes comendo poeira e fortaleceu a couraça de proteção para encarar o desembarque dos grandes bancos estrangeiros no Brasil.

A compra do BCN é o maior negócio já realizado na praça bancária brasileira e desta vez não entrou dinheiro do Proer. O Bradesco pagou 20% à vista, e o resto será quitado em cinco meses. Ficou acertado que, se a auditoria encomendada por Brandão detectar créditos de difícil recebimento, haverá um desconto equivalente no valor da operação. O acerto pegou até banqueiros bem informados de surpresa, já que o Bradesco parecia adormecido em berço esplêndido enquanto os concorrentes passaram os últimos meses numa festa de compra, venda e fusão. O Unibanco incorporou o Nacional, o britânico HSBC levou o Bamerindus e o espanhol Santander comprou o Noroeste e o banco Geral do Comércio, do grupo Camargo Corrêa. O Itaú, da família Setúbal, maior concorrente do Bradesco, comprou o Banerj e ia chegando perto.

Com a incorporação, o Bradesco, em volume de empréstimos e aplicações, os chamados ativos, torna-se quase duas vezes maior que o Itaú. Em patrimônio, supera o Banco do Brasil, que é a maior instituição financeira do país. "A concorrência está ficando apertada e a operação foi um jeito de o banco crescer rapidamente", diz Lázaro Brandão. O BCN pode não vir sozinho. Para poder entrar em negociações com Pedro Conde, o Bradesco aceitou uma condição imposta pelo Banco Central. No mês que vem, quando o Meridional for a leilão, o Bradesco estará na bolsa para fazer um lance mínimo de 210 milhões de reais se ninguém fizer oferta maior, desembolsará essa quantia e ficará com esse outro banco também. Sócio de mais de quarenta empresas, que fabricam de aço a cerveja, o Bradesco, antes de arrematar o BCN, deu seu último lance ao montar um conglomerado de empresas para emplacar um trem-bala no Rio de Janeiro, ligando a Barra da Tijuca ao centro da cidade. O banco associou-se a um grupo japonês que ganhou a concessão para operar o serviço e já está organizando o pacote. É um projeto estimado em 1 bilhão de dólares. "O banco tem muito caixa, é preciso investir esse dinheiro", declara um diretor do Bradesco

A venda do BCN acaba com um drama pessoal na vida de Pedro Conde, considerado um negociador duríssimo e um dos mais competentes banqueiros do país. Aos 75 anos, dono de uma simpatia contagiante, Conde é apaixonado pelo banco fundado por seu pai, que abriu o estabelecimento em 1929, o ano do crash da Bolsa de Nova York, mas não tinha para quem deixar a instituição. Seus herdeiros naturais seriam os filhos Francisco e Pedro (ele ainda tem uma filha), que ocuparam postos importantes no BCN. Mas pai e filhos acabaram se desentendendo e hoje levam vida empresarial independente. Pedro Conde, há quase cinqüenta anos no banco, dirigia-o com auxílio de executivos profissionais, enquanto os filhos saíam para tocar seus próprios negócios. Francisco tem um escritório que promove associações entre empresas e Pedro, a franquia de uma rede americana de fast food no Brasil. "Saí do banco para preservar o relacionamento com meu pai", diz Pedro Conde Filho, enigmático.

Pedro Conde deixou a marca de uma personalidade curiosa no mundo bancário. Comandava um banco de perfil conservador, mas ele próprio é um jogador inveterado. Adora especular na bolsa de valores, é um craque no carteado e conhece os melhores cassinos do mundo como a palma de sua mão. Foi um dos primeiros a divulgar as maravilhas de Aruba entre os ricaços brasileiros, muito antes de a ilha do Caribe ficar conhecida no país. Conde não ia a Aruba pelo sol, pelo mar e pela areia, mas pela roleta e pelo carteado. "Naquela época não tinha vôo charter. Eu descia em Caracas e tomava outro avião para Aruba", recorda Conde.

Nos seus bons tempos, conta o banqueiro, virava noites jogando pôquer. Quando Matias Machline, o dono do grupo Sharp, era vivo, Pedro Conde e um grupo de amigos promovia um churrasco toda terça-feira à noite na cocheira que Machline tinha no Jockey de São Paulo. Depois, iam todos jogar pôquer na casa de um deles. "Tem certas pessoas que deveriam ser jovens para sempre e o Pedro é uma delas. É uma pena o Pedro ter envelhecido", comenta o consultor Nei Figueiredo, ex-assessor da Febraban, a Federação Brasileira dos Bancos.

Pedro Conde é uma pessoa alegre, até debochada quando está à vontade, e por isso tem um círculo imenso de amigos. No campo dos negócios, a história é outra. Olacyr de Moraes, que no ano passado vendeu seu banco Itamarati a Conde, saiu magoado esperava que o dono do BCN compreendesse suas dificuldades e não avançasse com tanto apetite sobre suas empresas. Naji Nahas, o especulador condenado a 24 anos de cadeia por causa da quebra das bolsas oito anos atrás, é outro que odeia Pedro Conde. Os dois eram amigos e apostaram muitas vezes de braços dados. Antes de passar o cheque sem fundo que quebrou as bolsas em 1989, Nahas pediu dinheiro a Conde para cobrir o rombo, não conseguiu o empréstimo e acusou o dono do BCN de malandramente ter-se aproveitado da situação para ganhar dinheiro com ações. Nunca se provou nada contra Conde.

Pedro Conde parte para uma aposentadoria folgada e, quando quiser ocupar a mente, tem fazenda e criação de gado para se distrair além de muito dinheiro para aplicar. Seu irmão Armando deixou o BCN oito anos atrás, levando cerca de 200 milhões de dólares no bolso. Casado com a socialite Linda Conde, Armando não sente falta da tensão de uma mesa de operações seu maior passatempo é caçar ursos no Alasca, pois as emoções de um safári na África já se tornaram muito previsíveis para ele. Os amigos de Pedro Conde duvidam que ele siga o mesmo caminho do irmão apostam que o grande jogador, em breve, estará em atividade no mercado financeiro.




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