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CAÇADORES DE VÍRUS
Cientistas
buscam no gelo o segredo da epidemia do século
Karina
Pastore
Um dos maiores
enigmas da medicina do século XX pode estar chegando ao
fim. Um grupo de cientistas espera encontrar num
cemitério norueguês, debaixo de uma camada de gelo nos
confins do ártico, os únicos exemplares preservados do
vírus da gripe espanhola, causador da mais terrível
pandemia da História. Entre setembro e novembro de 1918,
a gripe matou mais de 20 milhões de pessoas em todo o
mundo. Espalhou-se com rapidez espantosa, atingiu mais
jovens que velhos, e mais moradores de grandes cidades
que do campo. Nos Estados Unidos chegou a reduzir a
expectativa de vida da população em treze anos.
Morreram mais americanos com gripe espanhola do que na I
e II guerras mundiais, na guerra da Coréia e do Vietnã,
juntas. No Brasil, a gripe fez só no Rio de Janeiro, por
exemplo, cerca de 15000 vítimas em apenas um mês. Entre
elas, o presidente da República, Rodrigues Alves, que
acabara de ser reeleito. Estudar o vírus causador de
tanta destruição poderia ajudar a ciência a entender o
que faz um microrganismo ser tão perigoso e como
combater inimigos desse quilate. Na época da epidemia, a
ciência não tinha instrumentos para analisá-lo. Agora
que tem, resolveu recorrer às geleiras para fazer um
mergulho no passado.
Os cientistas,
chefiados pela geógrafa canadense Kirsty Duncan, 30
anos, chegaram no início do mês ao cemitério de
Longyearbyen, uma pequena ilha congelada. Ali estão
enterrados sete jovens mortos depois de contrair o vírus
da gripe. Parece ser o final de uma busca que já dura
quatro anos. Duncan sabe que a única chance de encontrar
o vírus é localizar corpos que, uma vez enterrados,
tenham sido completamente congelados. Tentou cemitérios
do Alasca, da Sibéria e da Islândia, regiões das mais
geladas do mundo, mas não teve sucesso. Chegou à
pequena Longyearbyen seguindo a dica de amigos alpinistas
que garantiram que ali o gelo jamais derretia. Sob a
tundra, os corpos se transformam em múmias de gelo e
podem permanecer preservados durante séculos. Munidos de
radares, os cientistas rastrearam o subsolo para
verificar a que profundidade estão os cadáveres. O
próximo passo, que deve ocorrer já no começo do ano
que vem, é desenterrá-los. Para isso, a equipe voltará
ao local protegida por roupas semelhantes às dos
astronautas, e fará ali mesmo a autópsia para ver se
localiza o vírus. Para evitar o contato direto com os
tecidos infectados, os cientistas irão extrair
fragmentos dos corpos com a ajuda de enormes tubos de
biópsia. Fragmentos de pulmões, garganta e cérebro
serão enviados para laboratórios de segurança máxima
na Inglaterra e nos Estados Unidos. "Não sabemos ao
certo se o vírus ainda pode estar ativo, mas todas as
precauções são necessárias", diz o médico
canadense Peter Lewin, consultor da expedição.
Cadáveres
na rua
A gripe espanhola, apesar do nome, não guarda
semelhança com as gripes que conhecemos hoje. Isso
porque o vírus da gripe é uma criatura extremamente
simples, constituída de uma membrana de proteína
recheada de material genético. Ele sofre mutações com
tanta facilidade que, quando o homem está imunizado
contra uma versão da doença, surge outra, totalmente
diferente. Há alguns anos os sintomas da gripe comum
eram dor de cabeça, de garganta e congestão nasal.
Agora, são principalmente diarréia e febre. Os sintomas
da versão de 1918 eram bem mais impressionantes. Os
pulmões ficavam tão congestionados e enrijecidos que
era impossível respirar. Os pacientes, sem oxigenação,
ficavam tão arroxeados que era difícil distinguir o
cadáver de um branco do de um negro. A doença
espalhou-se graças aos soldados que vieram de todos os
cantos do planeta para se engalfinhar nas trincheiras da
I Guerra Mundial. Pracinhas de todos os países, doentes,
eram mandados do front de volta para casa, onde
infectavam mais gente.
O primeiro registro
da gripe no Brasil é do final de setembro de 1918.
Quatro marinheiros mostraram os sintomas de uma
"estranha doença" num navio de guerra que
ancorara no porto de Dakar, na África. Eles voltaram
para o Brasil e foram internados no Recife. Em poucas
semanas, no Rio de Janeiro e São Paulo, bondes
circulavam pelas ruas abarrotados de cadáveres. Como o
remédio receitado pelos médicos da época era canja de
galinha, familiares de doentes invadiam e saqueavam
armazéns em busca de frangos. "As pessoas jogavam
os parentes mortos no meio da rua, por medo de contrair a
doença", conta a socióloga carioca Nara Azevedo,
que estudou a epidemia. Quando o presidente Rodrigues
Alves morreu, infectado pelo vírus, em janeiro de 1919,
a população já estava tão acostumada ao morticínio
que não se surpreendeu com a notícia.
Massa
sanguinolenta Pesquisadores como Duncan e Lewin
fazem parte de uma brigada especial de cientistas. Eles
são as sentinelas da humanidade na guerra contra seus
piores inimigos, os microrganismos. As batalhas são
travadas contra adversários de dois exércitos
diferentes. O primeiro é o das doenças desconhecidas,
chamadas de "emergentes". Desde 1973 foram
descobertos 29 micróbios letais, entre eles o HIV,
causador da Aids, e o Ebola, capaz de transformar as
entranhas de um ser humano numa pasta sanguinolenta em
questão de horas. O segundo é o das
"reemergentes", doenças que pareciam sob
controle mas, de repente, voltam com toda a força. As
bactérias, que pareciam controladas com a descoberta da
penicilina, agora voltam a representar ameaça
já existem quatro espécies delas que resistem a
qualquer antibiótico conhecido. E, na última década,
mais de vinte doenças tidas como controladas
ressurgiram, em formas mais virulentas. "Isolando o
vírus da gripe espanhola poderemos aprender a evitar
pandemias como a de 1918 e entender os mecanismos de
funcionamento dos vírus", prevê Lewin.
Vigiar os
microrganismos é mais importante hoje do que era no
tempo da gripe espanhola. Isso porque os germes podem ser
transportados muito mais rapidamente que no passado. Um
paciente infectado pode viajar de Tóquio a Nova York,
com escala em Londres, em apenas um dia, levando o vírus
a três continentes antes de manifestar os primeiros
sintomas da doença. Embora as condições de higiene
sejam bem melhores hoje em dia, em países pobres como os
africanos, a Índia e o Brasil elas continuam sofríveis.
Pior: como a população mundial é muito maior, o
contato físico entre as pessoas é mais freqüente. O
surgimento de uma bactéria especialmente contagiosa,
como a da peste negra, que matou cerca de 30 milhões de
pessoas no século XIV, seria uma ameaça incrível.
Passo de
bêbado Para obter informações sobre os
inimigos invisíveis vale tudo. Desenterrar cadáver
congelado é apenas um dos fronts da batalha. Mas há
postos avançados em qualquer lugar onde possa surgir uma
ameaça. Um deles é nas selvas, eterna fonte de
micróbios desconhecidos. O Centro para Controle de
Doenças, CDC, de Atlanta, ganhou notoriedade por
despachar pesquisadores para vários pontos do planeta
para estudar epidemias causadas por organismos
desconhecidos. No Brasil, o Instituto Adolfo Lutz já
identificou dois deles. O biólogo Luiz Eloy Pereira,
chefe da equipe de campo do instituto, enfia-se no mato
com sua equipe toda a semana em busca de animais que
possam ser portadores de doenças. "A cada viagem
trazemos em média 10.000 mosquitos", contabiliza.
Os insetos, atraídos por uma lâmpada, são capturados
por um mecanismo que lembra um aspirador de pó. Para
obter amostras de sangue contaminado, um dos métodos
usados é pendurar nas árvores ratos de laboratório
recém-nascidos e deixar que os mosquitos os mordam à
vontade. Os ratinhos, ainda sem defesa imunológica,
transformam-se em viveiros de microrganismos e os
cientistas analisam seu sangue em busca de germes.
Em 1974, durante
uma epidemia de meningite no litoral paulista, a equipe
do professor Arary da Cruz Tiriba, então do Hospital
Emílio Ribas, foi informada de alguns casos um tanto
anômalos no litoral sul de São Paulo. Os pacientes não
respondiam à medicação e 40% deles morriam. Os
sobreviventes ficavam com seqüelas motoras
caminhavam como se estivessem bêbados. "Resolvemos
investigar de perto", lembra o professor. No início
de 1975, Tiriba e um grupo de pesquisadores chegaram à
região onde ocorriam os casos estranhos. Trataram mais
de 300 vítimas da doença. Até que, do cadáver de um
morador do bairro do Rocio, os peritos do Instituto
Adolfo Lutz conseguiram isolar o vírus. Batizado de
rocio, ele é um dos dois "vírus emergentes"
detectados no país. O outro, chamado de sabiá, foi
localizado em 1990, depois de ter matado uma engenheira
agrônoma no interior de São Paulo.
Gripe no
chiqueiro Como vigias do alto de suas torres,
há cientistas observando o rastro dos novos vírus em
cada canto do planeta. No caso da gripe, por exemplo, a
maioria das novas variedades vem da China. Por isso, os
centros de prevenção mantêm dezenas de pesquisadores
naquele país, para que possam fornecer amostras das
mutações recentes a tempo de preparar as vacinas contra
a doença. Por causa da facilidade do vírus em sofrer
mutações, é preciso criar vacinas novas a cada ano. Em
Nova York, o virologista Jack Woodall chefia o ProMed,
uma rede de monitoramento de possíveis focos de novas
epidemias. Seus informes, em média trinta por dia, são
distribuídos para o mundo inteiro pela Internet. No ano
passado, por exemplo, um médico da Universidade de
Basel, na Suíça, o avisou que um turista havia morrido
de febre amarela quatro dias depois de ter visitado
Manaus. A mensagem, retransmitida para as autoridades do
Estado, permitiu que se fizesse uma vacinação
preventiva na população local, salvando várias vidas.
Como a equipe da
doutora Duncan, uma série de cientistas dedicou-se, nos
últimos anos, a estudar a gripe espanhola. Alguns
laboratórios já conseguiram recuperar seqüências de
material genético do vírus de 1918. Muito pequenas, no
entanto, para qualquer estudo mais ambicioso. Mas os
pesquisadores já descobriram que a doença não surgiu
na Espanha, como sempre se pensou, e sim nos Estados
Unidos. O primeiro caso registrado foi em Camp Funston,
no Kansas, em março de 1918. De onde veio, porém, o
vírus que atingiu o fazendeiro do Kansas? Ao que tudo
indica, de uma pocilga. Os vírus da gripe, geralmente,
estão presentes no corpo de aves como patos e galinhas.
As células do corpo humano não são infectadas por
eles. Mas há animais domésticos, como os porcos, que
são sujeitos à contaminação. Eles ficam doentes com a
gripe das aves e, dentro de seu organismo, os vírus
sofrem mutações. Passam, então, a ser transmitidas
para os humanos. Tudo indica que a pandemia de 1918
começou quando o fazendeiro pegou a gripe dos porcos de
seu chiqueiro. Que, por sua vez, a apanharam ao comer os
dejetos dos patos selvagens da região.
Há cientistas que
concentram sua atenção em assuntos ainda mais
distantes. A partir de textos históricos, pesquisadores
americanos publicaram recentemente um artigo afirmando
que a peste de Atenas, que matou milhares de pessoas na
Grécia durante o século V a.C., pode ter sido causada
por um antepassado do vírus Ebola, trazido por
mercadores oriundos da Etiópia. Ela causava hemorragias,
febre intensa e levava a óbito em menos de um dia.
Toda a informação
de que dispõe a ciência sobre os germes, por enquanto,
serviu para que o homem se defendesse deles como podia. A
medicina, porém, só conseguiu vencer completamente uma
única espécie de vírus. Em 1977, o microrganismo
causador da varíola foi considerado erradicado de seu
último reduto, a Somália. Um ano depois, entretanto,
ele ainda faria uma vítima. Amostras do vírus mantidas
no laboratório de uma universidade inglesa vazaram e
contaminaram a pesquisadora Janet Parker, que morreu dias
depois. Culpando-se pela morte de Parker, o
microbiologista responsável pelas pesquisas, o francês
Henry Benson, cometeu suicídio. Em 1980, os
pesquisadores passaram a ter dúvidas sobre o destino do
único adversário mantido em cárcere. As reservas do
vírus da varíola, guardadas em laboratórios de
segurança máxima nos Estados Unidos e na Rússia,
deveriam ou não ser destruídas? Chegou-se a marcar a
data do extermínio para 1993, mas ela foi adiada. A
próxima data está determinada para 30 de junho de 1999.

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