| |
Palácio do Planalto
O homem-Interpol
Eduardo
Jorge sairá do Planalto e o governo
continuará olhando as dívidas dos parlamentares
Vladimir
Netto
 |
O
ministro, acumulando salário e aposentadoria:
"Sou a prova viva da necessidade de mudar a
Previdência" |
| Foto:
Ricardo Stuckert |
|
Secretário-geral
da Presidência da República, o cearense Eduardo Jorge
Caldas Pereira, de 55 anos, é figura poderosa. Com um
bem fornido acervo de informações sobre os bastidores
do governo e do Congresso, ele é temido tanto pelos
adversários como por amigos do presidente Fernando
Henrique Cardoso, com quem tem pelo menos dois encontros
diários, às 9 da manhã e às 5 da tarde.
"Homem-Interpol" é como o chamam no Palácio
do Planalto, apelido com o qual o presidente se diverte.
Por força de suas informações, Eduardo Jorge já se
meteu em rebuliço. Em dezembro passado, o ministro Luiz
Carlos Santos, da Coordenação Política, o acusou de
ter pedido a lista dos parlamentares do PPB endividados
com o Banco do Brasil para pressioná-los a votar pela
emenda da reeleição. Até hoje Eduardo Jorge jura que
não pediu a lista. De lá para cá, não se mexeu mais
no assunto, mas sabe-se agora de coisa muito pior que
acontece nessa área dentro do Planalto, como o
desrespeito total ao sigilo bancário: o governo mantém
registros das dívidas no BB de todos os parlamentares e
não só do PPB. "Isso porque a conta bancária pode
influir em certas posições dos parlamentares. Algum
pode ser levado, por exemplo, a votar o tabelamento dos
juros a 12%", explica um assessor. O Homem-Interpol,
agora, tomou uma decisão grave. Mesmo que o presidente
venha a ser reeleito, comenta, larga o governo no final
deste mandato.
"Eu não
estarei no próximo governo", declarou a VEJA, na
quarta-feira passada. A revelação espantou até sua
mulher, Lídice, com quem é casado há 21 anos.
"Você falou isso? Mas é para publicar?",
indagou ela ao próprio marido. "É", respondeu
Eduardo Jorge. "Quero consolidar esta
posição." Eduardo Jorge diz que está cansado da
rotina do Palácio do Planalto e que se retira por isso,
anuncia ainda que sairá para fazer a campanha de
reeleição de FHC e depois não volta. Quem conhece o
gosto dele pelo trabalho que realiza, e o apreço que
Fernando Henrique tem pelo assessor, tem dificuldade em
acreditar que não voltará. Ele não cuida de nenhuma
área específica, mas influi em muitas
em geral, investigando, investigando, investigando. É
sua atribuição conferir a "ficha" de todos
que são nomeados para cargos no governo, pedindo
informações à Receita Federal, aos tribunais de contas
e à polícia. Ele também é encarregado de articular o
apoio aos projetos de interesse do presidente no
Congresso. Por isso, em seu computador Pentium MMX 200
estão arquivados um mapa com todas as indicações para
cargos no governo e indicadores de fidelidade dos
parlamentares. Com esses dados, e a influência com os
ministros para liberar verbas, Eduardo Jorge é um dos
principais alvos de pedidos de políticos. "Ele é o
que o Luiz Carlos Santos pensa que é", cutuca o
senador Esperidião Amin, do PPB de Santa Catarina.
É ele, por
exemplo, o encarregado de articular o apoio da base do
governo a um projeto de emenda constitucional que
regulamente a edição de medidas provisórias pelo
presidente, sem limitar-lhe o poder. Na semana passada,
ligou para líderes do governo pedindo a aceleração da
tramitação da emenda. Eduardo Jorge também é o
responsável por fazer a ponte entre o governo e a
direção dos fundos de pensão das estatais, mastodontes
que movimentam bilhões de dólares e decidem qualquer
parada nas privatizações. "Não controlo fundo de
pensão nem dou orientação de investimento", diz.
Mas que fundo de pensão passa por ele, passa. Foi assim
antes da privatização da Companhia Vale do Rio Doce,
quando ele entrou em campo para evitar que os fundos
formassem um cartel. Coube a Eduardo Jorge puxar o freio
dos fundos. Às vezes Eduardo Jorge solta as rédeas.
Quando o senador José Eduardo Andrade Vieira,
ex-Bamerindus, brigava com Benjamin Steinbruch, da
Vicunha, pelo controle da Companhia Siderúrgica
Nacional, a CSN, o secretário-geral mobilizou
sindicalistas amigos do Planalto para entrar na parada
ao lado do senador.
Prova viva
Formado em economia pela Universidade de Brasília, o
Homem-Interpol trabalhou 27 anos no Congresso, até se
aposentar em 1990. Com mestrado e doutorado nos Estados
Unidos, foi convidado pelo então senador Fernando
Henrique para trabalhar em seu gabinete em 1983.
Aposentado pelo Senado quando tinha apenas 48 anos,
Eduardo Jorge ganha 8.500 reais por mês. Soma a isso o
contracheque de ministro, de 8.000. "Eu sou a prova
viva da necessidade de uma reforma da Previdência, é um
absurdo que eu possa acumular dois rendimentos desta
maneira", declara ele, aparentando seriedade.
"Tenho lutado para acabar com isso", salienta,
ainda sério. Mas durante as negociações em torno da
reforma da Previdência foi dele a idéia de acatar a
sugestão vinda do Congresso para a criação do
polêmico extrateto salarial. "A idéia original era
que quem estivesse ocupando função temporária e fosse
aposentado poderia acumular até um determinado valor.
Achei que era legítimo", afirma. Melhor seria dizer
"oportuno", já que o próprio Eduardo Jorge
seria beneficiado pelo extrateto. Sem o emprego no
governo, diz, pretende se dedicar a prestar consultoria
na área política e legislativa. E avisa: seus torpedos
continuarão a serviço de Fernando Henrique.
A
quantas anda o ministério
A
cotação dos ministros no Palácio do Planalto:
Gustavo Krause,
do Meio Ambiente É o mais inoperante
da Esplanada. Borbulhante nas conversas,
não consegue sair do falatório.
Resultado: o governo não faz nada na
área ambiental. |
|
Iris Rezende,
da Justiça A pior surpresa. Não
se imaginava que, sendo um político
matreiro, com passagem por outros
governos, tivesse idéias tão malucas
como incentivar fazendeiros a se armar
contra os sem-terra. |
Eliseu Padilha,
dos Transportes Tem causado boa
impressão pelo empenho em tocar obras.
Mas como o governo não sabe por que ele
gosta tanto de obras e empreiteiros,
continua sob observação. |
 |
| Foto: Orlando Brito |
|
Carlos Albuquerque,
da Saúde É considerado um bom
técnico, mas já ganhou o título de o
mais inexperiente de todos. Como não
sabe domar a máquina, está até hoje
patinando. |
 |
Raul Jungmann,
da Reforma Agrária É o mais carente.
Recorre sempre ao presidente para a
solução de seus problemas. Em
contrapartida, não provoca desastres. |
Paulo Renato,
da Educação É o melhor ministro
da área social. Atuante, sabe usar o
peso de ser amigo do presidente para
brigar com a área econômica por
recursos para a Educação. |
 |
| Foto: Ana Araujo |
|
Sergio Motta,
das Comunicações É o que mais cria
problemas para o presidente. Na mesma
proporção, é o que mais apresenta
soluções e quebra-galhos. Seu programa
de privatização é tido como um primor.
|
 |
| Foto: Ana Araujo |
|
Bresser Pereira,
da Administração É o ministro que,
apesar de todas as tentativas, não tem
mais jeito. É o que é, e ponto final.
Segue no governo por um respaldo único:
é amigo do presidente. |
 |
| Foto: Roberto Jayme |
|
Reinhold Stephanes,
da Previdência Germânico, é o mais
organizado. Não vive pedindo audiências
e, mesmo sem aprovar a reforma, conseguiu
gerenciar a Previdência no curto prazo. |
 |
| Foto: Sergio Dutti |
|
|

|
|