Cinema
Um
James Bond perigoso
007
Quantum of Solace não é
redondo como
Cassino Royale. Mas tem uma vantagem: deixa
Daniel
Craig livre para tornar o espião mais
agressivo, incontrolável
e sexy do que nunca

Isabela
Boscov
Fotos
divulgação
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ORELHAS
DE ABANO, SIM, E DAÍ? Craig com
a ucraniana Olga, no papel de uma agente que fica dispensada de apresentar credenciais:
este Bond é uma combinação irresistível de perfeição
e defeitos |
Em 007
Quantum of Solace (Inglaterra/Estados Unidos, 2008), em cartaz
a partir desta sexta-feira no país, James Bond não bebe martínis,
mal perde tempo com seus antes célebres trocadilhos, seduz uma só
mulher (e meio na correria) e dirige aquele magnífico Aston Martin sem
a menor fineza, deixando partes dele pelo caminho. Também não flerta
com a secretária Moneypenny nem ganha engenhocas do engenheiro Q, porque
os dois ficaram de fora do filme. Nem sequer diz "Meu nome é Bond
James Bond", a frase-assinatura que marcou todos os outros 21 filmes
da série. Os fãs históricos (que não são poucos)
argumentariam que, de tão mudado, ele nem merece dizê-la: se Bond
perdeu a suavidade, trocou o humor pela agressividade e não precisa de
licença para matar, porque mata mesmo (uma das melhores piadas recorrentes
de Quantum of Solace), então ele não é mais Bond.
Outros, a começar pelo estúdio MGM e a produtora Barbara Broccoli,
que herdou os direitos sobre a franquia de seu pai, Albert Broccoli, defenderiam
a idéia de que o espião está simplesmente se livrando do
excesso de bagagem que acumulara desde sua aventura inicial, em 1962. Os números
ratificam esse raciocínio: quanto mais Bond muda, mais vigoroso se torna
seu desempenho na bilheteria, numa curva ascendente que o levou de 352 milhões
de dólares de renda mundial com 007 contra GoldenEye, o primeiro
filme estrelado por Pierce Brosnan, a 594 milhões com Cassino Royale,
o primeiro com Daniel Craig. Entre essas duas teses, porém, fica a peça
que valida a ambas e faz o personagem funcionar tanto na sua antiga lógica,
de ícone do cool, quanto na nova, de uma platéia cada vez
mais jovem e impaciente: justamente Craig. Que, com todo o respeito devido a Sean
Connery, é o Bond mais perigoso que já houve.
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PARA
QUE LICENÇA, SE ELE MATA MESMO? Bond
numa sessão de tortura, e com sua indefectível pistola: tão
fora de controle que agora o próprio serviço secreto inglês
cogita eliminá-lo |
Quantum of Solace (título
que foi mantido no original porque a distribuidora não encontrou tradução
atraente para seu significado, "um módico de consolação")
traz 007 numa fúria gelada porque no filme anterior sua namorada,
Vesper, o traiu, e também porque a certa altura ela inesperadamente decidiu
se sacrificar por ele. M (Judi Dench), sua chefe no MI-6, o serviço secreto
britânico, já não consegue controlá-lo, e chega a expedir
uma ordem para sua prisão. Ou pior, caso ele resista. Seguindo a pista
da organização que matou Vesper, 007 vai cruzar o caminho de um
pretenso ambientalista que, na verdade, vive de derrubar e erguer ditaduras em
nações instáveis (papel de Mathieu Amalric, o ator francês
mais requisitado do momento); vai contrariar os interesses de um general boliviano;
e vai juntar forças com Camille (a ucraniana Olga Kurylenko), uma agente
de afiliação desconhecida, mas cujos atrativos a recomendam sem
reservas. Se Quantum não é redondo como o era Cassino
Royale, é porque esses elementos não dão liga (sem falar
que não existe nada mais cansativo que um vilão boliviano): eles
estão lá mais pelo seu potencial de proporcionar ação
violenta, radical e ininterrupta do que pela sua capacidade de impulsionar o enredo.
Mas é nessa falha que está também a grande vantagem de Quantum
o fato de que Craig fica aqui finalmente livre para tratar o personagem
nos seus próprios termos.
Isso
significa que 007 agora, além de agressivo, é dúbio, rancoroso
e, ainda assim, frio. Significa também que agora manifesta sem nenhum pudor
a natureza que se escondia sob a suavidade que foi descartada: em vez de ser o
homem que os homens querem ser, como nas versões anteriores, agora ele
é o homem que as mulheres querem. Até M, que não esconde
mais seu fraco pelo espião incontrolável. E como não: com
aquele físico que fica além de qualquer descrição
e o nariz de boxeador, aqueles olhos de azul intenso e as orelhas de abano, os
modos bruscos e aquele charme que desarma quando mais se está na defensiva,
Craig é uma combinação irresistível de perfeição
e defeitos. O que não faz dele menos Bond que seus antecessores. Torna-o,
isso sim, um Bond mais inteiro, e com muito mais sangue nas veias.