Esporte
A futebolha
A
crise financeira ameaça acabar com a gastança no futebol inglês,
cuja riqueza depende do crédito fácil e de milionários estrangeiros

Thomaz Favaro
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Alex Livesey/Getty Images  |
Quatro
dos dez times mais ricos do mundo disputam a Premier League, a primeira divisão
do campeonato inglês. Nenhuma outra competição de futebol
arrecada tanto dinheiro e paga salários tão altos em média,
75% acima dos pagos na Espanha. Com seu apelo global (partidas transmitidas para
200 países), a Premier League é uma vitrine de craques. O segredo
do sucesso do futebol inglês foi a cooptação de investimentos
de milionários do mundo todo. Nove das vinte equipes da primeira divisão
são controladas por estrangeiros, que despejam fortunas (não raro
de origem duvidosa) para reforçar as equipes. A maioria deles nem sequer
está atrás de lucro, mas apenas de notoriedade e diversão.
"São milionários que gastam fortunas nos times da mesma maneira
como torram dinheiro com seus iates", diz o inglês Wyn Grant, da Universidade
de Warwick, especialista na economia do futebol. O resultado foi a formação
de uma espécie de bolha, que inflou o valor do campeonato inglês
e que agora está ameaçada pelo estouro de outra bolha, a
dos mercados financeiros.
Na
última década, os ingleses aproveitaram-se do crédito fácil
para financiar a compra do que havia de melhor no mercado da bola. Atualmente,
dois terços dos jogadores da primeira divisão são estrangeiros.
A euforia na gastança eclipsou a preocupação com as contas,
e doze dos vinte times estão no vermelho. Juntas, as equipes devem mais
de 5 bilhões de dólares, o dobro do que arrecadaram no ano passado.
Boa parte do déficit tem sido financiada, sem juros, pelos ricaços
russos, americanos e franceses que controlam os clubes. Mas a crise mundial colocou
investidores e patrocinadores em apuros. O principal perdedor é o West
Ham. O patrocinador do time londrino faliu e seu dono, o banqueiro islandês
Bjorgolfur Gudmundsson, viu sua fortuna derreter junto com a economia de seu país.
A fortuna do russo Roman Abramovich, dono e mecenas do Chelsea, encolheu 20 bilhões
de dólares nos últimos meses. Por falta de crédito, o Liverpool
precisou adiar os planos de construir um novo estádio. No mês passado,
sua torcida saiu às ruas para protestar contra os investidores americanos
que controlam o clube.
Shaun Botterill/Getty
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A RAINHA DA BOLA Amanda
Staveley: a empresária ajudou a trazer Robinho e os petrodólares
para a Inglaterra |
Uma das raras equipes que podem se considerar a salvo é o Manchester City.
Pouco antes de seu dono, o ex-premiê tailandês Thaksin Shinawatra,
ser condenado à prisão por corrupção, o time foi vendido
em setembro para o xeque Mansur bin Zayed, da família real de Abu Dhabi,
cujo patrimônio é estimado em 850 bilhões de dólares.
Da noite para o dia, o "primo pobre" de Manchester, cujo último
título relevante data de 1976, tornou-se uma potência futebolística.
"É como ganhar na loteria e fazer aniversário no mesmo dia",
comemorou Mark Hughes, o treinador do clube. O negócio foi intermediado
por Amanda Staveley, 35 anos, chamada de "rainha do futebol inglês".
Ex-namorada do príncipe Andrew (de quem recusou o pedido de casamento),
ela controla um fundo de investimento especializado em atrair petrodólares
para os gramados ingleses. A compra do brasileiro Robinho por 52 milhões
de dólares, a transação mais cara da história do futebol
inglês, só foi concluída depois que ela entrou no negócio.
Ainda é difícil dimensionar o impacto da crise financeira no futuro
do campeonato inglês. As probabilidades de falência generalizada,
no entanto, são ínfimas. "A crise é má notícia
para os clubes, mas os torcedores podem ficar tranqüilos", disse a VEJA
o economista inglês Stefan Szymanski, da City University, em Londres. "Pouquíssimos
times desapareceram nos últimos 100 anos, o que faz do futebol uma das
economias mais estáveis do mundo." Só que, depois do estouro
da bolha, os clubes serão mais modestos.