Como os brasileiros
estão reagindo à crise
externa e à ameaça de um ano difícil
em 2009
Lucila Soares
Oscar
Cabral
Alexandre
Malheiros Profissão:
vendedor de automóveis Cidade:
Rio de Janeiro Perspectiva
para o Natal: a queda nas vendas provocou
uma diminuição de 30% no seu salário,
que depende de comissões. Com isso, os
gastos para o Natal foram replanejados. "Meu
filho, que tem 8 anos, pediu um helicóptero
de controle remoto. Mas desta vez terá
de se contentar com um presente mais barato",
diz. Perspectiva
para 2009: "Espero que a especulação
e o medo do consumidor diminuam e as vendas voltem
a crescer".
Setor automotivo:
a retração na demanda já foi
sentida nas concessionárias e também
nas montadoras. A venda de carros em outubro caiu
3,5% em relação ao mesmo período
do ano anterior. O mês foi particularmente
ruim para a indústria automobilística,
que diminuiu em 12% suas vendas na comparação
com setembro. Um susto para o mercado, que dobrou
de tamanho nos últimos cinco anos. As empresas
decidiram reduzir a produção. A GM
deu dez dias de férias coletivas a mais de
7 000 funcionários em outubro. A Fiat
fez o mesmo para 12% de seu efetivo, e, neste mês,
a Volkswagen vai diminuir o ritmo de produção
na sua unidade de São José dos Pinhais,
no Paraná, por vinte dias, dando férias
coletivas a metade dos funcionários. Conseqüentemente,
as fornecedoras de peças da VW na cidade
darão férias pelo mesmo período.
Para 2009, tudo depende da normalização
do crédito.
Um mês e meio depois da fatídica segunda-feira
em que o Tesouro americano deixou o Lehman Brothers quebrar,
o mundo começou a respirar a esperança de que
o pior já passou. Os mercados reagiram com altas expressivas
ao corte de juros nos Estados Unidos e à expectativa
de que o banco central europeu faça o mesmo na semana
que vem. No Brasil, o Banco Central continuou tomando medidas
adequadas para normalizar a oferta de crédito e segurar
a cotação do dólar. Na quarta-feira,
seu Comitê de Política Monetária (Copom)
interrompeu o movimento de alta nos juros, mantendo a taxa
básica em 13,75%. No meio da semana, veio dos EUA um
sinal também positivo. O Brasil foi incluído
pelo Fed, o banco central dos Estados Unidos, entre os quatro
países emergentes (os outros são Cingapura,
Coréia do Sul e México) que terão acesso
a operações de troca de moeda local por dólares
(swap, em inglês). Ela é uma linha de crédito
sem precondições de 30 bilhões de dólares.
Para o economista Carlos Langoni, do Centro de Economia Mundial
da Fundação Getulio Vargas, essa é uma
chancela até mais significativa do que o grau de investimento,
conquistado em abril. Diz Langoni: "Ninguém vai
fazer um swap sem garantias e condicionalidades, a não
ser com países em que se confia inteiramente".
Estão, portanto,
todos aí os sinais de que a fase de pânico da
crise chegou, se não ao fim, pelo menos ao começo
do fim. A questão agora é saber qual será
o poder amenizador das medidas tomadas pelos governos sobre
o que costuma ser o desfecho natural das hecatombes de crédito:
a recessão. Esse fenômeno é o arrefecimento
da atividade econômica, que se traduz para as pessoas
na forma de diminuição de renda, de qualidade
de vida e, no limite, de desemprego. A questão pode
ser resumida assim: as crises são globais, mas os problemas
que elas trazem são pessoais. Eles serão sentidos
em 2009. Felizmente, desta vez, os brasileiros têm boas
chances de ser os últimos a sofrer e os primeiros a
sair do inferno astral. No Brasil, nem os mais pessimistas
falam abertamente em recessão. É consenso que
2009 será um ano mais difícil do que 2008, com
um crescimento do PIB de 2,5% a 3%. Para quem sonhava de olhos
abertos com crescimento acima de 5%, é uma pisada no
freio. Ela já começa a ser sentida. O setor
automobilístico e alguns fabricantes de eletrônicos
deram férias coletivas a seus empregados para reduzir
a produção e não entrar em 2009 com estoques
muito elevados.
Na sexta-feira,
a Vale anunciou um corte imediato de 10% ou 30 milhões
de toneladas na produção de minério de
ferro. A decisão da Vale, que é a maior do mundo
nesse setor, tem razões logísticas, como a falta
de espaço para estocagem do minério não
imediatamente comercializado. Tem também motivações
de preço um pouco parecidas com as dos produtores de
petróleo que recomendam não inundar o
mercado em períodos de escassez de demanda para preservar
o preço futuro. Mas é inegável que a
empresa está prevendo uma diminuição
das compras de minério. Os analistas enxergam a demanda
por minério de ferro como um indicador razoavelmente
exato da atividade econômica global, em especial nos
países emergentes. Portanto, não é de
todo errado imaginar que em 2009 os emergentes devam desacelerar
a economia.
Rafael
Andrade/Folha Imagem
A VALE REAGE À
CRISE Agnelli, o presidente:
corte de 10% da produção
As empresas que, como a Vale, dependem do mercado externo
estão revendo, para baixo, seus planos. No caso da
agroindústria brasileira, a perspectiva de redução
no consumo mundial já teve um primeiro efeito preocupante.
Nesse setor, é de praxe que o importador estrangeiro
financie a produção por exemplo, de soja
toda ou em parte. Até agora, não tem
sido possível encontrar financiadores estrangeiros
para o plantio de soja e outros grãos exportáveis.
Com menos dinheiro, os produtores plantarão menos.
Um problema adicional é que, ao contrário do
que acontece com a produção de minério
ou a fabricação de automóveis, atividades
que podem ser retomadas quando a situação melhorar,
o plantio tem hora certa para ser feito. A natureza não
pode esperar. Portanto, parece ser inevitável uma redução
significativa na safra agrícola brasileira de 2009.
Uma pesquisa da
Fundação Getulio Vargas feita em sete capitais
brasileiras mostra que 30,6% dos consumidores acham que a
situação econômica tende a piorar. Em
setembro, esse índice era de apenas 13,1%. A conseqüência
dessa visão sombria é uma retração
das compras baseada em uma causa puramente psicológica,
já que não falta crédito para o consumo
nem há alta de preços. A batalha contra a recessão
é travada principalmente no varejo. Por essa razão,
é interessante observar o que se passa no caso das
Lojas Cem, que tem 170 filiais em São Paulo, Paraná,
Rio de Janeiro e Minas Gerais. A empresa esperava fechar o
ano com crescimento de 15%, mas reduziu essa projeção
para 8%. É uma variação significativa
sobre 2007. Ela equivale à metade do crescimento esperado.
Valdemir Colleone, supervisor-geral da companhia, analisa:
"O consumidor está com medo de assumir compromissos".
Como notícia
ruim, a incerteza viaja rápido e é contagiante.
Nessas horas, a percepção de risco é
mais forte do que os indicadores reais da economia brasileira,
que, vale a pena enfatizar, não se vergaram ainda sob
o peso da crise externa. "Os canais de transmissão
da crise para cá são múltiplos, e a insegurança
é tão importante ou mais que as conseqüências
concretas da escassez de crédito", diz o economista
José Júlio Senna, da MCM Consultores. "As
pessoas estão percebendo 2009 como um ano de risco
de queda de renda, e mesmo de desemprego. É uma avaliação
parcialmente subjetiva, movida pelo medo. Mas seus efeitos
nada têm de abstrato."
Leo
Drumond/Ag. Nitro
Márcio
Paulino Neto Profissão:
diretor de fábrica de ferro-gusa Cidade:
Sete Lagoas, Minas Gerais Perspectiva
para o Natal: a queda no preço
do ferro-gusa provocou redução
de 40% na produção de sua
empresa, que colocou 170 funcionários
em férias coletivas. Perspectiva
para 2009: "O novo volume de produção
vai depender do tamanho da queda no preço
do produto. Poderemos fazer demissões",
diz.
Siderurgia:
o preço do ferro-gusa, matéria-prima
para a fabricação do aço, caiu
pela metade no mercado internacional por causa da
queda na demanda. E as vendas no mercado interno
começam a sofrer o efeito da redução
da produção de caminhões, ônibus,
carros e motocicletas. Somente em outubro, vinte
fornos de ferro-gusa foram desligados em Minas Gerais.
As empresas do estado, responsáveis por 70%
da produção nacional, deram férias
coletivas a 11 000 funcionários, metade
de sua força produtiva. Em Sete Lagoas, 700
pessoas já foram demitidas.
Oscar
Cabral
Rogério
Furtado Profissão: diretor de construtora Cidade: Rio de Janeiro Perspectiva para o Natal: sete empreendimentos
com previsão de lançamento
até o fim do ano foram postergados.
"Quando há incertezas pela frente,
o ideal é parar para ver o que acontece",
diz. Perspectiva para 2009: "As vendas
para as classes C e D não devem ser
prejudicadas. A crise vai afetar principalmente
os empreendimentos voltados para as classes
A e B".
Construção civil: as obras
que já estão em andamento não
serão paralisadas, o que mantém o
setor aquecido até o fim do ano. Mas novos
empreendimentos estão sendo suspensos. O
receio das construtoras é não ter
dinheiro suficiente para concluir uma obra depois
que ela for iniciada. O consumidor partilha dessa
desconfiança em relação ao
futuro, e está adiando a compra. As vendas
da Patrimóvel, a maior imobiliária
do Rio de Janeiro, caíram 50% em outubro.
Para 2009, a previsão de crescimento do setor
foi revista de 9% para 5%. O mesmo vale para a indústria
de material de construção, que reduziu
à metade sua previsão de crescimento.
"A crise só deve atingir o setor a partir
do segundo trimestre de 2009", diz Melvyn Fox,
presidente da Associação Brasileira
da Indústria de Materiais de Construção.
Leo
Drumond/Ag. Nitro
José
Luiz Garcia Profissão: produtor de mudas de
café Cidade: Patrocínio, Minas Gerais Perspectiva para o natal: teve muitos contratos
cancelados devido ao medo dos agricultores de
ampliar ou renovar a lavoura. Planejava vender
2 000 mudas e venderá apenas 1 000.
"Ia ampliar meu plantio em 35 hectares e
desisti", diz. Perspectiva para 2009: "Eu sempre
sou otimista, mas desta vez acho que a crise é
séria e vai aparecer para valer no ano
que vem. Essa foi só a ponta do iceberg".
Agricultura: a produção
de 2008 não será afetada. Mas a
de 2009, sim. Os produtos mais prejudicados são
soja, algodão e café, cujo plantio
é feito nos últimos meses de cada
ano. Muitos agricultores não tiveram acesso
ao crédito necessário para comprar
sementes, adubo e herbicidas, itens cujo preço
aumentou devido à desvalorização
do real diante do dólar. A queda do valor
das commodities contribui para a redução
da área plantada. No caso da soja, cujo
plantio é financiado principalmente por
grandes empresas de comércio exterior,
a área plantada deve ficar 5% menor em
relação ao ano passado, e a produção
de 2009 pode ter uma queda de até 10%.
Para o algodão, a perspectiva é
de redução da área no estado
de Mato Grosso em 20% e da produção
do ano que vem em 25%. A produção
de café pode cair até 60%, quase
o dobro do que se esperava antes da crise.
Petróleo Natal: a produção
não será afetada. Mas a Petrobras está
revendo seu plano estratégico, cuja divulgação
estava prevista para outubro e foi adiada para dezembro.
2009: novos
investimentos devem ser postergados. As primeiras vítimas
serão as refinarias já prometidas para
o Rio Grande do Norte, Maranhão e Ceará,
com início de construção previsto
para 2014. O complexo petroquímico Comperj, no
Rio de Janeiro, também sofrerá atrasos
em seu cronograma. "Se o preço do barril
de petróleo continuar próximo dos 70 dólares,
ficará mais arriscado investir no pré-sal",
diz Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura.
Eletrônicos
e eletrodomésticos Natal: a alta do dólar pressiona os preços
de quem trabalha com muitos componentes importados.
No caso dos computadores, um reajuste da ordem de 15%
deve vir até o fim do ano. 2009: as empresas
já esperavam vendas menores, depois de três
anos de bons desempenhos. Ainda assim, as projeções
estão sendo revistas para baixo e a indústria
já toma medidas como férias coletivas
para se ajustar.
Supermercados Natal: produtos importados, como bacalhau, vinhos
e azeite, ficarão mais caros na ceia. As compras
estão sendo adiadas, na expectativa do que acontecerá
com o câmbio. Em relação a 2007,
mantém-se a projeção de vendas
9% maiores. 2009: espera-se um crescimento bem menor nas
vendas: 3,5%.
Brinquedos Natal: a indústria mantém a previsão
de aumento de 5% nas vendas em relação
a 2007. Os preços não devem sofrer alteração,
pois as encomendas dos lojistas foram acertadas antes
da crise. 2009: os derivados
do plástico ficaram até 18% mais caros.
Vai ser difícil segurar os preços. O panorama
depende do que venha a acontecer na China, que inundou
o Brasil com brinquedos muito baratos.
Fontes:
Abrinq, Abras e Abinee
Com reportagem de Marcelo Bortoloti e Silvia
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