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Edição 2085

5 de novembro de 2008
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André Petry
O riso de Santos Dumont

'Sarah Palin já foi acusada de desprezar
o trabalhador americano só porque, na
sua campanha, em vez de voar em avião
da Boeing, optou por um da Embraer"

Americano adora avião. Tanto que, para eles, quem inventou a máquina não foi Santos Dumont. Foram os irmãos Wilbur e Orville Wright, que cresceram em Ohio. Americano gosta de avião porque é um estupendo símbolo da genialidade humana. É a criação que mais perto chegou de nossa mais atávica ambição: voar, planar, boiar no ar. É quase surpreendente que o avião tenha sido inventado por um brasileiro. Para os americanos, tão habituados a criar coisas novas, surpreendente é que não tenha sido um deles. Assim, sem dó nem piedade, seqüestraram a mais brilhante obra brasileira e decretaram que o avião foi inventado pelos irmãos Wright. O fascínio americano pelas máquinas voadoras aparece em todo lugar, do aviãozinho de papel à trajetória incandescente do foguete. Apareceu até na campanha presidencial – e, como se verá adiante, os brasileiros, de novo, se intrometeram no assunto.

A crônica aérea na campanha começou com a notícia de que o republicano John McCain alugava um jato a preço de banana. O avião, na verdade, era o jato empresarial de sua mulher, Cindy, herdeira de uma distribuidora de cerveja. Seu uso pelo candidato não era ilegal, mas era feio porque desequilibrava o jogo. O democrata Barack Obama também teve problemas aeronáuticos, só que de outra ordem. Em julho, voando num avião fretado, teve de fazer um pouso de emergência. A governadora Sarah Palin, vice na chapa de McCain, fez sua propaganda de boa administradora do dinheiro público dizendo que, ao assumir o governo do Alasca, em 2006, vendera o avião do estado no eBay, site de leilões. Não era bem verdade, porque o leilão on-line não deu certo, mas o fato é que o jato, um Westwind II, de fabricação israelense, acabou vendido oito meses depois. Saiu por 2,1 milhões de dólares.

O que pouca gente sabe é que os brasileiros também pousaram no pedaço aéreo da campanha. McCain, depois que parou de usar o jato da mulher, passou a voar num Boeing, de fabricação americana. Obama, após o pouso forçado, abandonou os vôos fretados e adotou igualmente um Boeing. Seu vice, Joe Biden, também anda num Boeing. A exceção é Sarah Palin, que usa um avião da Embraer, de fabricação brasileira. É um modelo 190. Tem 100 lugares, primeira classe remodelada e área para acomodar os jornalistas que cobrem sua campanha. À boca pequena, Sarah Palin já foi acusada de desprezar o trabalhador americano só porque, em vez de Boeing, optou por Embraer.

É engraçado que logo Sarah Palin use um avião brasileiro. Ela fala tanto em recuperar o emprego dos americanos, usando só produtos made in USA, que virou piada. Uma delas diz que, quando visitou a ONU, Sarah ficou tão indignada com a quantidade de estrangeiros trabalhando ali que prometeu uma campanha para devolver todos aqueles empregos aos americanos. Os democratas sugerem que seu discurso é demagogia. Os maldosos, insinuando que a governadora é o que há de mais parecido com um poste na campanha, dizem que ela nem sabe que voa em avião brasileiro. Seja o que for, Santos Dumont ri.

 

colunadopetry@abril.com.br



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