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Ponto
de vista: Luiz Felipe de Alencastro
Nossa dívida com Angola
"O
presidente Lula tem
nessa viagem
a
oportunidade de
pôr em prática sua
doutrina de
governar com o
coração
A viagem que o presidente Lula realiza nesta semana na África
reveste-se de grande significado. Muitas visitas presidenciais ao
exterior têm sido feitas depois da redemocratização.
Alguns países africanos já receberam nossos chefes
de Estado. Entretanto, desta vez, o quadro das relações
entre a África e o Brasil afigura-se mais favorável.
Namíbia, Moçambique e África do Sul consolidam
sua posição no continente africano e na política
internacional. Angola encontrou a paz, saindo de uma sangrenta guerra
civil, e o pequeno São Tomé, que encontrou petróleo,
pode sair da pobreza. Do lado brasileiro há um óbvio
interesse econômico nas relações com esses países:
cento e sessenta graúdos empresários integram a comitiva
presidencial. Não obstante, se se levar em conta a história
de nosso país e de nosso povo, o presidente Lula obtém
nessa viagem não só contratos lucrativos, mas também
a oportunidade de pôr em prática sua propalada doutrina
de governar com o coração.
Ilustração Alê Setti
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De fato, os três países lusófonos visitados
têm muita proximidade com o Brasil. Mas é com Angola
que o país teceu relações que moldaram nossa
cultura e nosso povo. "Angola... de cujo triste sangue, negras e
infelizes almas se nutre, anima, sustenta, serve e conserva o Brasil",
escrevia Padre Antônio Vieira, grande conhecedor das ganâncias
e das misérias que se sucediam na esteira do tráfico
negreiro. Não há dúvida de que a história
da escravidão moderna é muito mais vasta e engloba
a quase totalidade dos países dos continentes americano e
africano. No entanto, Brasil e Angola entretêm uma ligação
profunda na urdidura desses acontecimentos. Nas Américas,
os colonos do Brasil foram os únicos a ter um envolvimento
direto nas operações militares e comerciais que quadrilhavam
os sertões africanos e, mais precisamente angolanos, para
capturar e adquirir escravos. Após a Independência,
os negreiros brasileiros, com a cumplicidade de seus governantes
e com o apoio da maioria de seus concidadãos ricos e menos
ricos, continuaram a pilhagem de Angola até metade do século
XIX. Daí o fato de nosso país constituir o agregado
político americano que mais importou escravos africanos e
que praticou a escravidão mais duradoura. Daí o fato
de Angola constituir a maior área de exportação
de escravos e de Luanda aparecer como o maior porto exportador de
africanos de toda a história do tráfico atlântico.
Todo esse drama paira sobre Angola, sobre o Brasil e sobre a comitiva
presidencial que desembarca no aeroporto de Luanda nesta segunda-feira.
Por isso, na ilha de Luanda, zona de despacho dos escravos embarcados
"a pauladas" segundo o testemunho ocular de um missionário
italiano nos navios largando para o Brasil, poderia haver
um presidente brasileiro que exprimisse o sentimento que essa tragédia
multissecular inspira. Um presidente que, pela primeira vez, dissesse
na África e para o povo angolano:
"Destas
praias, durante quase três séculos, partiram para o
Brasil centenas de milhares de angolanos que, em meio à miséria
e ao sofrimento, tiveram coragem e esperança para constituir
as famílias e as culturas formadoras de uma parte essencial
do povo brasileiro. Nós não nos esquecemos de que
esses angolanos saíram acorrentados, arrancados para todo
o sempre de sua família, de sua aldeia, de seu continente.
Não nos esquecemos também de que muitas vezes eles
foram escravizados por brasileiros que os levaram acorrentados em
navios arvorando o auriverde pendão de nossa terra. Temos
uma imensa dívida moral para com Angola e o povo angolano.
Gostaríamos que os angolanos soubessem que sabemos disso.
Gostaríamos também que o povo brasileiro soubesse
que é preciso sempre saber disso".
Um discurso desse dura menos de dois minutos para ser proferido.
A fala não atrapalharia George W. Bush, a cotação
do real, os títulos da nossa dívida externa, os aliados
do PMDB nem a torcida do Corinthians. Mas faria um imenso bem a
todos nós.
Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris Sorbonne (abomey@uol.com.br)
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