Edição 1827 . 5 de novembro de 2003

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Luiz Felipe de Alencastro
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Ponto de vista: Luiz Felipe de Alencastro
Nossa dívida com Angola

"O presidente Lula tem nessa viagem
a oportunidade de pôr em prática sua
doutrina
de governar com o coração

A viagem que o presidente Lula realiza nesta semana na África reveste-se de grande significado. Muitas visitas presidenciais ao exterior têm sido feitas depois da redemocratização. Alguns países africanos já receberam nossos chefes de Estado. Entretanto, desta vez, o quadro das relações entre a África e o Brasil afigura-se mais favorável. Namíbia, Moçambique e África do Sul consolidam sua posição no continente africano e na política internacional. Angola encontrou a paz, saindo de uma sangrenta guerra civil, e o pequeno São Tomé, que encontrou petróleo, pode sair da pobreza. Do lado brasileiro há um óbvio interesse econômico nas relações com esses países: cento e sessenta graúdos empresários integram a comitiva presidencial. Não obstante, se se levar em conta a história de nosso país e de nosso povo, o presidente Lula obtém nessa viagem não só contratos lucrativos, mas também a oportunidade de pôr em prática sua propalada doutrina de governar com o coração.

Ilustração Alê Setti


De fato, os três países lusófonos visitados têm muita proximidade com o Brasil. Mas é com Angola que o país teceu relações que moldaram nossa cultura e nosso povo. "Angola... de cujo triste sangue, negras e infelizes almas se nutre, anima, sustenta, serve e conserva o Brasil", escrevia Padre Antônio Vieira, grande conhecedor das ganâncias e das misérias que se sucediam na esteira do tráfico negreiro. Não há dúvida de que a história da escravidão moderna é muito mais vasta e engloba a quase totalidade dos países dos continentes americano e africano. No entanto, Brasil e Angola entretêm uma ligação profunda na urdidura desses acontecimentos. Nas Américas, os colonos do Brasil foram os únicos a ter um envolvimento direto nas operações militares e comerciais que quadrilhavam os sertões africanos e, mais precisamente angolanos, para capturar e adquirir escravos. Após a Independência, os negreiros brasileiros, com a cumplicidade de seus governantes e com o apoio da maioria de seus concidadãos ricos e menos ricos, continuaram a pilhagem de Angola até metade do século XIX. Daí o fato de nosso país constituir o agregado político americano que mais importou escravos africanos e que praticou a escravidão mais duradoura. Daí o fato de Angola constituir a maior área de exportação de escravos e de Luanda aparecer como o maior porto exportador de africanos de toda a história do tráfico atlântico.

Todo esse drama paira sobre Angola, sobre o Brasil e sobre a comitiva presidencial que desembarca no aeroporto de Luanda nesta segunda-feira. Por isso, na ilha de Luanda, zona de despacho dos escravos embarcados "a pauladas" – segundo o testemunho ocular de um missionário italiano – nos navios largando para o Brasil, poderia haver um presidente brasileiro que exprimisse o sentimento que essa tragédia multissecular inspira. Um presidente que, pela primeira vez, dissesse na África e para o povo angolano:

"Destas praias, durante quase três séculos, partiram para o Brasil centenas de milhares de angolanos que, em meio à miséria e ao sofrimento, tiveram coragem e esperança para constituir as famílias e as culturas formadoras de uma parte essencial do povo brasileiro. Nós não nos esquecemos de que esses angolanos saíram acorrentados, arrancados para todo o sempre de sua família, de sua aldeia, de seu continente. Não nos esquecemos também de que muitas vezes eles foram escravizados por brasileiros que os levaram acorrentados em navios arvorando o auriverde pendão de nossa terra. Temos uma imensa dívida moral para com Angola e o povo angolano. Gostaríamos que os angolanos soubessem que sabemos disso. Gostaríamos também que o povo brasileiro soubesse que é preciso sempre saber disso".

Um discurso desse dura menos de dois minutos para ser proferido. A fala não atrapalharia George W. Bush, a cotação do real, os títulos da nossa dívida externa, os aliados do PMDB nem a torcida do Corinthians. Mas faria um imenso bem a todos nós.


Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris – Sorbonne (abomey@uol.com.br)

 
 
 
 
topo voltar