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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
"Leve a ele o
meu abraço"
A
estranha história
do país cujos dirigentes
mantinham carinhosas relações
com presos políticos
Só
podia mesmo acontecer num país tropical. O assessor entra
na sala do presidente. Componha o leitor na mente um cenário
de García Márquez. Ventiladores no teto, moscas rondando.
À entrada, um porteiro bigodudo, camisa aberta, gotas de
suor deslizando pelo pescoço, dorme a sesta, as mãos
cruzadas sobre o barrigão. Sol de 40 graus. "Vou viajar",
avisa o assessor. O presidente ergue os olhos algo entorpecidos,
é uma hora do dia em que custa esforço mantê-los
abertos. "Para onde?", pergunta. "Vou a X." O diálogo é
lento como os movimentos do corpo. "Fazer o que lá?", pergunta
o presidente, enquanto ergue a barra da calça para coçar
a perna. "Vou visitar o preso político. Só queria
saber se o senhor não vai precisar de mim." O presidente
boceja, depois se espreguiça. "Não. Pode ir." O assessor
prepara-se para sair. Já está à porta, onde
tenta ultrapassar as pernas que o porteiro barrigudo, na inconsciência
do sono, esticou além do devido, bloqueando a passagem, quando
o presidente volta a dirigir-se a ele: "Dê-lhe um abraço
por mim".
O
cenário é fictício, mas reveste um diálogo
que, na essência, ocorreu de verdade. Abandonemos a ficção,
voltemos ao ramerrão da atualidade brasileira. No último
dia 22, Frei Betto, o assessor especial do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, viajou ao Pontal do Paranapanema, a famigerada região
paulista dos conflitos de terra. Seu objetivo era visitar o líder
dos sem-terra locais, José Rainha, preso por ordem da Justiça.
Cumprida a visita, Frei Betto fez declarações nas
quais ressaltam duas formulações estarrecedoras. A
primeira foi sua caracterização de José Rainha
como "preso político". A segunda, a informação
de que levou o abraço de Lula ao preso. Ao dizer ao presidente
que ia visitar Rainha, explicou o assessor, ele lhe pediu que lhe
levasse seu abraço.
Eis-nos
transpostos a um mundo de paradoxos que fazem cócegas na
cabeça e desconcertam. Preso político, como se sabe,
é coisa de ditadura. Segue-se que, se Rainha é preso
político, é porque vivemos sob uma ditadura. Ditadura
tem ditador. Ditadores é que mandam para os cárceres
os presos políticos. Quem seria o ditador do Brasil? Afaste-se
desde logo que seja Lula. Se fosse, Frei Betto não estaria
a seu serviço. Muito menos denunciaria a existência
de uma ditadura, que ao fim e ao cabo é o que se faz quando
se denuncia a existência de presos políticos.
O
ditador, em outra hipótese, seria o juiz que mandou Rainha
para o xadrez. A acreditar nela, deve-se acreditar também
que o fez por mero arbítrio, na qualidade não de agente
da lei, mas de atrabiliário tiranete. Caso contrário,
não seria um ditador. Ora, se há um tiranete desse
naipe tomando conta de um pedaço do Brasil, e se Lula, eleito
democraticamente e governando sob a égide da Constituição,
é o responsável supremo pelo império da lei
na totalidade do território nacional, que faz ele que não
investe contra o insubmisso, não o denuncia e o desmascara?
Como pode permitir que, em desafio à própria autoridade,
floresça um ditadorzinho de paróquia? E que faz ele
pelo "preso político" em questão? Manda um abraço?
Isso basta? Um abraço, e estamos conversados?
Não
há remédio, diante de tantos complicadores, senão
o refúgio no realismo fantástico. Não foi por
outra razão que começamos com um cenário de
García Márquez. Nesse plano, sim, uma democracia com
adversários na cadeia é tão admissível
quanto uma ditadura em que o assessor do ditador faz visitas de
cordialidade a presos políticos. Igualmente não causaria
surpresa, nesse reinado de absurdos, um presidente que enviasse
abraços a seu preso político de estimação.
Chamar
Rainha de "preso político" não é exclusividade
de Frei Betto. O MST também o faz. Nesse caso é mais
compreensível, em primeiro lugar porque cai bem como golpe
de propaganda e em segundo porque, na visão do MST, ou pelo
menos de sua parte mais ideológica, o regime é ilegítimo,
e portanto não muito longe de configurar uma ditadura. Já
Frei Betto é um agente do governo, e das figuras mais próximas
do presidente. Se ele também considera ditatorial o regime
do qual seu chefe é o supremo comandante e principal guardião,
então... Paremos por aqui. De novo caímos no labirinto
dos paradoxos. De resto, preso político mesmo, na sua mais
legítima expressão, que é o preso de consciência,
encarcerado pelo delito de pensar de modo diferente do ditador de
plantão, tem Cuba. Com o regime cubano, no entanto, Frei
Betto não só mantém fraternais relações
como é um de seus maiores propagandistas.
Na semana passada saiu nesta página que a ponte aérea
organizada no Ocidente para vencer o bloqueio soviético de
Berlim ocorreu sob o governo do presidente Kennedy. Estava errado.
Ocorreu sob o governo Truman, em 1948. Sob Kennedy teve lugar outra
crise em torno de Berlim, que resultou na construção
do muro que dividiria a cidade e durante a qual as duas superpotências,
como poucas vezes, estiveram à beira de um conflito.
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