Edição 1827 . 5 de novembro de 2003

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
"Leve a ele o
meu abraço"

A estranha história do país cujos dirigentes
mantinham carinhosas relações com presos políticos

Só podia mesmo acontecer num país tropical. O assessor entra na sala do presidente. Componha o leitor na mente um cenário de García Márquez. Ventiladores no teto, moscas rondando. À entrada, um porteiro bigodudo, camisa aberta, gotas de suor deslizando pelo pescoço, dorme a sesta, as mãos cruzadas sobre o barrigão. Sol de 40 graus. "Vou viajar", avisa o assessor. O presidente ergue os olhos algo entorpecidos, é uma hora do dia em que custa esforço mantê-los abertos. "Para onde?", pergunta. "Vou a X." O diálogo é lento como os movimentos do corpo. "Fazer o que lá?", pergunta o presidente, enquanto ergue a barra da calça para coçar a perna. "Vou visitar o preso político. Só queria saber se o senhor não vai precisar de mim." O presidente boceja, depois se espreguiça. "Não. Pode ir." O assessor prepara-se para sair. Já está à porta, onde tenta ultrapassar as pernas que o porteiro barrigudo, na inconsciência do sono, esticou além do devido, bloqueando a passagem, quando o presidente volta a dirigir-se a ele: "Dê-lhe um abraço por mim".

O cenário é fictício, mas reveste um diálogo que, na essência, ocorreu de verdade. Abandonemos a ficção, voltemos ao ramerrão da atualidade brasileira. No último dia 22, Frei Betto, o assessor especial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, viajou ao Pontal do Paranapanema, a famigerada região paulista dos conflitos de terra. Seu objetivo era visitar o líder dos sem-terra locais, José Rainha, preso por ordem da Justiça. Cumprida a visita, Frei Betto fez declarações nas quais ressaltam duas formulações estarrecedoras. A primeira foi sua caracterização de José Rainha como "preso político". A segunda, a informação de que levou o abraço de Lula ao preso. Ao dizer ao presidente que ia visitar Rainha, explicou o assessor, ele lhe pediu que lhe levasse seu abraço.

Eis-nos transpostos a um mundo de paradoxos que fazem cócegas na cabeça e desconcertam. Preso político, como se sabe, é coisa de ditadura. Segue-se que, se Rainha é preso político, é porque vivemos sob uma ditadura. Ditadura tem ditador. Ditadores é que mandam para os cárceres os presos políticos. Quem seria o ditador do Brasil? Afaste-se desde logo que seja Lula. Se fosse, Frei Betto não estaria a seu serviço. Muito menos denunciaria a existência de uma ditadura, que ao fim e ao cabo é o que se faz quando se denuncia a existência de presos políticos.

O ditador, em outra hipótese, seria o juiz que mandou Rainha para o xadrez. A acreditar nela, deve-se acreditar também que o fez por mero arbítrio, na qualidade não de agente da lei, mas de atrabiliário tiranete. Caso contrário, não seria um ditador. Ora, se há um tiranete desse naipe tomando conta de um pedaço do Brasil, e se Lula, eleito democraticamente e governando sob a égide da Constituição, é o responsável supremo pelo império da lei na totalidade do território nacional, que faz ele que não investe contra o insubmisso, não o denuncia e o desmascara? Como pode permitir que, em desafio à própria autoridade, floresça um ditadorzinho de paróquia? E que faz ele pelo "preso político" em questão? Manda um abraço? Isso basta? Um abraço, e estamos conversados?

Não há remédio, diante de tantos complicadores, senão o refúgio no realismo fantástico. Não foi por outra razão que começamos com um cenário de García Márquez. Nesse plano, sim, uma democracia com adversários na cadeia é tão admissível quanto uma ditadura em que o assessor do ditador faz visitas de cordialidade a presos políticos. Igualmente não causaria surpresa, nesse reinado de absurdos, um presidente que enviasse abraços a seu preso político de estimação.

Chamar Rainha de "preso político" não é exclusividade de Frei Betto. O MST também o faz. Nesse caso é mais compreensível, em primeiro lugar porque cai bem como golpe de propaganda e em segundo porque, na visão do MST, ou pelo menos de sua parte mais ideológica, o regime é ilegítimo, e portanto não muito longe de configurar uma ditadura. Já Frei Betto é um agente do governo, e das figuras mais próximas do presidente. Se ele também considera ditatorial o regime do qual seu chefe é o supremo comandante e principal guardião, então... Paremos por aqui. De novo caímos no labirinto dos paradoxos. De resto, preso político mesmo, na sua mais legítima expressão, que é o preso de consciência, encarcerado pelo delito de pensar de modo diferente do ditador de plantão, tem Cuba. Com o regime cubano, no entanto, Frei Betto não só mantém fraternais relações como é um de seus maiores propagandistas.


Na semana passada saiu nesta página que a ponte aérea organizada no Ocidente para vencer o bloqueio soviético de Berlim ocorreu sob o governo do presidente Kennedy. Estava errado. Ocorreu sob o governo Truman, em 1948. Sob Kennedy teve lugar outra crise em torno de Berlim, que resultou na construção do muro que dividiria a cidade e durante a qual as duas superpotências, como poucas vezes, estiveram à beira de um conflito.

 

 
 
 
 
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