Edição 1827 . 5 de novembro de 2003

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Especial

 
Ilustração Anderson Marçal, com fotos de Ricardo Benichio, Ricardo Correia, Raul Junior e Photodisc
UM CORPO QUE CAI
"Desde que me conheço por gente, tenho medo de altura. Meu pai tem a mesma fobia – e talvez o convívio com o medo dele tenha causado o meu. Acima do 4º andar de um prédio, não consigo nem chegar perto da janela. Meu coração dispara, as mãos tremem. O pavor é tanto que, se vejo alguém perto da janela, passo pelas mesmas aflições. Moro no andar térreo de um prédio, num apartamento com quintal. No início do ano, estava lendo um livro no meu quarto, quando ouvi um grito estridente. Seguiu-se, então, o barulho de plantas se quebrando. Era o corpo de uma adolescente que havia se jogado do 11º andar. Quando olhei para cima, vi os outros moradores do prédio debruçados nos parapeitos das janelas. Entrei em crise. Gritava para que eles voltassem para dentro de suas casas. Tão assustador quanto ver aquela moça morta no quintal de casa foi ver aquelas pessoas com meio corpo para fora da janela."
CARLOS, 25 anos, publicitário

 
Ilustração Anderson Marçal, com fotos de Liane Neves, Roberto Loffel, Orípedes Ribeiro e Photodisc
O HOMEM INVISÍVEL
"Sou muito mais do que tímido. Desde criança sou assim. Na época da escola, faltava a todas as aulas em que tivesse de fazer apresentações orais. Tirava zero e me esforçava para compensar nas provas. Jamais gostei de conversar com ninguém. Eu era praticamente invisível. No vestibular, entrei para o curso de ciências da computação. No primeiro dia de aula, nem consegui entrar na sala. Abandonei a faculdade. Há dezessete anos trabalho em um banco, fazendo serviços internos. Só falo com o meu chefe e, mesmo assim, o indispensável. Quando há mais de três pessoas na sala comigo, fico vermelho, suo, tenho taquicardia e tremedeira. Passo muito mal. Esses mesmos sintomas surgem em outras situações. Já me matriculei várias vezes em cursos de inglês. Para ir às aulas, bebia meia dúzia de cervejas antes, para ganhar coragem. Nas provas orais, no entanto, nem de porre eu conseguia superar o pavor. Já perdi muitas oportunidades na vida por causa da minha fobia de gente."
PAULO, 40 anos, bancário

 

Ilustração Anderson Marçal, com fotos de divulgação e Photodisc
DIRIGIR ERA UM SUFOCO
"O medo de dirigir passou a ser uma grande fonte de angústia depois que tive meus dois filhos. Eu precisava do carro para levá-los à escola, ao médico e para ir às compras, mas era tomada pelo terror quando me sentava ao volante. Era colocar a chave no contato e vinha aquela sensação de perigo, de que algo ruim iria acontecer. A necessidade me fez procurar ajuda. Com o incentivo do meu terapeuta, tomei coragem e comecei a pegar o carro. No início, foi muito difícil. Meu pavor era tanto que contaminava quem estivesse ao meu lado. Até meu filho menor, então com 1 ano, ficava tenso. Foram seis meses de sufoco. Aos poucos, venci o medo. Se antes achava que me virava bem sem carro, hoje sei que isso era só uma desculpa para não enfrentar a minha limitação."
FABRÍCIA LEAL, 32 anos, artista plástica

 

Cenário virtual, medo real

A terapia cognitiva comportamental coloca o fóbico cara a cara com o objeto de seu medo. Só assim o terapeuta pode ensinar ao paciente como controlar os sintomas físicos deflagrados pelo pavor. Até pouco tempo atrás, os especialistas dispunham basicamente de duas técnicas para promover esse confronto – a exposição ao vivo e em cores à causa da fobia, obviamente, e a visualização, em que o paciente é estimulado a imaginar-se vivendo a circunstância que lhe causa medo. Mas essas estratégias esbarram em alguns obstáculos. Muitos pacientes demoram a enfrentar situações reais, e nem sempre a imaginação é suficiente para levar a uma visualização efetiva. Em meados dos anos 90, esse tipo de empecilho foi superado com a ajuda da realidade virtual. Hoje, é cada vez maior o número de consultórios equipados com máquinas de realidade virtual, sobretudo nos Estados Unidos e na Europa.

Graças a um programa de computador, é possível simular situações desencadeadoras dos mais variados tipos de fobia. Com óculos de três dimensões e fones de ouvido, o paciente é levado a interagir com personagens, objetos e cenários gerados tridimensionalmente – pode ser o interior de um avião, um elevador em pane ou o topo de um arranha-céu. O objetivo é fazer com que o paciente se sinta o mais próximo possível da realidade. Nesse universo em 3D, o estímulo é gradual e controlado. Se a situação for demasiadamente aflitiva, o próprio paciente pode suspender a simulação. Estudos mostram que a eficácia terapêutica da realidade virtual é similar à da exposição real.

 

 
 
 
 
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