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Especial
Ilustração Anderson
Marçal, com fotos de Ricardo Benichio, Ricardo
Correia, Raul Junior e Photodisc
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UM
CORPO QUE CAI
"Desde que me conheço por gente,
tenho medo de altura. Meu pai tem a mesma fobia
e talvez o convívio com o medo dele tenha causado
o meu. Acima do 4º andar de um prédio, não
consigo nem chegar perto da janela. Meu coração
dispara, as mãos tremem. O pavor é tanto
que, se vejo alguém perto da janela, passo pelas
mesmas aflições. Moro no andar térreo
de um prédio, num apartamento com quintal. No início
do ano, estava lendo um livro no meu quarto, quando ouvi
um grito estridente. Seguiu-se, então, o barulho
de plantas se quebrando. Era o corpo de uma adolescente
que havia se jogado do 11º andar. Quando olhei para
cima, vi os outros moradores do prédio debruçados
nos parapeitos das janelas. Entrei em crise. Gritava para
que eles voltassem para dentro de suas casas. Tão
assustador quanto ver aquela moça morta no quintal
de casa foi ver aquelas pessoas com meio corpo para fora
da janela."
CARLOS,
25
anos, publicitário |
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Ilustração Anderson
Marçal, com fotos de Liane Neves, Roberto
Loffel, Orípedes Ribeiro e Photodisc
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O
HOMEM INVISÍVEL
"Sou muito mais do que tímido. Desde criança sou
assim. Na época da escola, faltava a todas as aulas em
que tivesse de fazer apresentações orais. Tirava zero
e me esforçava para compensar nas provas. Jamais gostei
de conversar com ninguém. Eu era praticamente invisível.
No vestibular, entrei para o curso de ciências da computação.
No primeiro dia de aula, nem consegui entrar na sala.
Abandonei a faculdade. Há dezessete anos trabalho em um
banco, fazendo serviços internos. Só falo com o meu chefe
e, mesmo assim, o indispensável. Quando há mais de três
pessoas na sala comigo, fico vermelho, suo, tenho taquicardia
e tremedeira. Passo muito mal. Esses mesmos sintomas surgem
em outras situações. Já me matriculei várias vezes em
cursos de inglês. Para ir às aulas, bebia meia dúzia de
cervejas antes, para ganhar coragem. Nas provas orais,
no entanto, nem de porre eu conseguia superar o pavor.
Já perdi muitas oportunidades na vida por causa da minha
fobia de gente."
PAULO, 40 anos, bancário |
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Ilustração Anderson
Marçal, com fotos de divulgação
e Photodisc
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DIRIGIR
ERA UM SUFOCO
"O medo de dirigir passou a ser uma grande fonte
de angústia depois que tive meus dois filhos. Eu precisava
do carro para levá-los à escola, ao médico e para ir às
compras, mas era tomada pelo terror quando me sentava
ao volante. Era colocar a chave no contato e vinha aquela
sensação de perigo, de que algo ruim iria acontecer. A
necessidade me fez procurar ajuda. Com o incentivo do
meu terapeuta, tomei coragem e comecei a pegar o carro.
No início, foi muito difícil. Meu pavor era tanto que
contaminava quem estivesse ao meu lado. Até meu filho
menor, então com 1 ano, ficava tenso. Foram seis meses
de sufoco. Aos poucos, venci o medo. Se antes achava que
me virava bem sem carro, hoje sei que isso era só uma
desculpa para não enfrentar a minha limitação."
FABRÍCIA LEAL, 32 anos, artista plástica
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| Cenário
virtual, medo real
A
terapia cognitiva comportamental coloca o fóbico
cara a cara com o objeto de seu medo. Só assim
o terapeuta pode ensinar ao paciente como controlar
os sintomas físicos deflagrados pelo pavor. Até
pouco tempo atrás, os especialistas dispunham
basicamente de duas técnicas para promover esse
confronto a exposição ao vivo e
em cores à causa da fobia, obviamente, e a visualização,
em que o paciente é estimulado a imaginar-se
vivendo a circunstância que lhe causa medo. Mas
essas estratégias esbarram em alguns obstáculos.
Muitos pacientes demoram a enfrentar situações
reais, e nem sempre a imaginação é
suficiente para levar a uma visualização
efetiva. Em meados dos anos 90, esse tipo de empecilho
foi superado com a ajuda da realidade virtual. Hoje,
é cada vez maior o número de consultórios
equipados com máquinas de realidade virtual,
sobretudo nos Estados Unidos e na Europa.
Graças
a um programa de computador, é possível
simular situações desencadeadoras dos
mais variados tipos de fobia. Com óculos de três
dimensões e fones de ouvido, o paciente é
levado a interagir com personagens, objetos e cenários
gerados tridimensionalmente pode ser o interior
de um avião, um elevador em pane ou o topo de
um arranha-céu. O objetivo é fazer com
que o paciente se sinta o mais próximo possível
da realidade. Nesse universo em 3D, o estímulo
é gradual e controlado. Se a situação
for demasiadamente aflitiva, o próprio paciente
pode suspender a simulação. Estudos mostram
que a eficácia terapêutica da realidade
virtual é similar à da exposição
real.
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