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Especial
Você
tem medo de quê?
É
grande o número de pessoas que sofrem
de fobias. A boa notícia é que os tratamentos
estão cada vez mais eficientes

Anna Paula Buchalla
Ilustração Anderson Marçal
com fotos de Raul Junior, Orípedes Ribeiro, Antonio Milena
e Photodisc
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O
medo é um dos sentimentos que permitiram à espécie
humana multiplicar-se e dominar a Terra. Graças a ele, nossos
ancestrais escaparam de ataques de animais ferozes e de outras ameaças
naturais. Mas, por motivos diversos, muitos dos quais ainda não
totalmente esclarecidos pela ciência, algumas pessoas apresentam
um medo patológico em relação a situações
que estão longe de representar uma ameaça real. Pode
ser de avião, de altura, de elevador, de escuro, de um animal
doméstico ou até mesmo de gente. Duas em cada dez
pessoas estão predispostas a desenvolver um tipo de fobia
esse é o nome do medo e da aversão doentios
ao longo da vida. As fobias podem ser tratadas no divã
do psicanalista, com terapias breves, medicamentos ou hipnose. Não
raro, é preciso combinar duas ou mais dessas opções.
Tudo leva a crer que o tratamento que consegue os resultados mais
rápidos é a terapia cognitiva comportamental. Ela
tem sucesso em até 80% dos casos em cerca de apenas três
meses. A jornalista que assina esta reportagem submeteu-se a essa
terapia, com o psicólogo José Roberto Leite, professor
da Universidade Federal de São Paulo. Seu medo de avião
agora está sob controle.
A palavra fobia vem do grego phobos. Phobos era a divindade
mitológica capaz de causar nos homens um medo incontrolável.
Por esse motivo, os escudos dos soldados gregos muitas vezes traziam
estampada a imagem de Phobos dessa maneira, acreditavam ser
mais fácil apavorar seus inimigos. Os americanos criaram
um ABC da fobia, que conta com cerca de 500 medos. Dele constam
desde fobias que são velhas conhecidas, como aracnofobia
(medo de aranha) e claustrofobia (medo de espaços fechados),
até quadros definidos como androfobia (medo de homem), decidofobia
(medo de tomar decisões), gamofobia (medo de casamento),
eclesiofobia (medo de igreja), afania (medo de perder a capacidade
sexual) e por aí vai. É claro que, dependendo das
circunstâncias, as pessoas podem exibir reações
de medo mais intensas do que de costume. Um cachorro pode parecer
mais assustador do que outro. Uma viagem de avião mais turbulenta
pode causar frio na barriga mesmo a um viajante
experimentado. Mas isso não significa que se tenha adquirido
uma fobia. Antes que você comece a achar que é fóbico,
veja o que define exatamente essa patologia:
A fobia é sempre em relação a uma determinada
situação, objeto ou bicho.
É irracional. Por exemplo, não faz o menor
sentido ter medo de galinhas, já que galinhas não
fazem mal a ninguém.
É um medo desproporcional. Quem tem fobia de avião
leva mais em conta as insignificantes estatísticas de acidentes
aéreos do que a altíssima taxa de sucesso dos vôos.
Interfere nas atividades do cotidiano. É comum que
alguém com medo de altura se recuse a trabalhar num andar
alto.
Uma fobia pode traduzir-se em reações físicas
violentas. Ao deparar com o objeto do medo, o fóbico pode
ter sudorese e ser acometido por tonteiras, tremedeiras, taquicardia
e dificuldades de respiração. Muitos têm uma
sensação de morte iminente.
Um estudo clássico sobre o assunto é o texto "O pequeno
Hans", escrito em 1909 por Sigmund Freud, o pai da psicanálise.
Hans, que sofria de fobia de cavalos, foi levado ao consultório
de Freud quando contava apenas 5 anos. Era uma fobia com implicações
muito graves para a época, visto que cavalos eram a principal
força motriz dos veículos urbanos. Por causa de seu
medo, Hans simplesmente não conseguia sair às ruas
de Viena, onde morava. Por meio de técnicas psicanalíticas
que ainda estavam em seus primórdios, Freud descobriu que
a fobia de cavalos de Hans se relacionava ao receio inconsciente
de ser castrado pelo pai por causa do amor que sentia pela mãe.
Uma manifestação do complexo de Édipo, enfim.
Freud conseguiu curar seu pequeno paciente e, ao teorizar sobre
essa sua experiência prática, firmou uma convicção
entre os psicanalistas: a de que toda e qualquer fobia é
manifestação de uma angústia mais profunda,
muitas vezes sem relação aparente com o objeto do
medo. A psicanálise, contudo, não é um tratamento
de sucesso garantido nem de casos de fobia nem de outros
problemas. Os próprios psicanalistas reconhecem isso. Além
do mais, o método criado por Freud requer um paciente disposto
a aventurar-se pelos abismos e desvãos de sua história
pessoal. Ele não pode ter pressa de curar-se e tem de ser
dono de uma conta bancária razoavelmente polpuda, pois sessões
de psicanálise costumam ser caras. Ou seja, não é
para todo mundo.
Uma
terapia breve, como a cognitiva comportamental, não é
uma viagem de autoconhecimento, como a psicanálise. Para
tratar uma fobia, o terapeuta não se preocupa em saber qual
seria a origem do distúrbio. Seu objetivo é apenas
cancelar a cadeia de reações físico-mentais
que detonam o medo. A técnica parte do princípio de
que a fobia é um medo aprendido e de que, portanto, a melhor
forma de controlá-lo é fazer com que o fóbico
"desaprenda" a sentir medo. Todo o trabalho é direcionado
no sentido de desativar as conexões cerebrais que levam a
ele. A terapia cognitiva comportamental tem sido exaustivamente
estudada nos últimos anos. Ela é objeto de pelo menos
325 estudos clínicos que medem a sua eficácia, não
só para o tratamento de fobias, mas também para outros
distúrbios psiquiátricos, como depressão e
esquizofrenia (ela pode ajudar a diminuir a freqüência
dos surtos esquizofrênicos). Uma de suas maiores vantagens
é ser curta: para controlar fobias, bastam, em média,
doze sessões de 45 minutos cada uma, uma vez por semana.
A
terapia cognitiva comportamental, que ganhou impulso para o tratamento
de fobias nos anos 90, é fruto das duas correntes da psicologia
americana que lhe dão nome. É cognitiva porque tenta
descondicionar o paciente por meio de argumentos lógicos,
e é comportamental porque o expõe ao objeto do seu
medo. Pegue-se o caso de quem tem fobia de avião. O tormento
de um fóbico começa alguns dias antes do embarque.
Ao imaginar-se dentro de uma aeronave, o coração se
acelera, a respiração fica ofegante, as mãos
suam. Ao embarcar, esses sintomas aumentam de intensidade, e o pensamento
fica fixo na possibilidade de um acidente ou na aflição
de não ter o controle da situação. Qualquer
variação no barulho causado pelas turbinas do avião
ou qualquer expressão diferente de um comissário parecem
ser o prenúncio de uma catástrofe. Já imaginou
o que é passar dez, doze horas assim? Como esse medo é
formado por uma cadeia de informações distorcidas,
cada uma delas tem de ser desmontada. É o que os especialistas
chamam de "dessensibilização".
A terapia cognitiva comportamental segue um procedimento padrão
para todos os casos. Antes de começar, o paciente preenche
uma espécie de inventário de todos os seus medos e
pensamentos negativos e catastróficos. Depois de analisar
os resultados do inventário, o terapeuta explica ao paciente
como será o tratamento e quais os objetivos a ser atingidos
gradualmente. No caso do fóbico de avião, o primeiro
passo é o convencimento racional de que o medo é infundado,
por meio de uso de estatísticas que mostram a segurança
do transporte aéreo. O paciente também é estimulado
a informar-se de como funciona uma aeronave e o trabalho de manutenção
feito pelas companhias. Para iniciar o controle dos sintomas do
medo propriamente dito, o paciente aprende técnicas de respiração
abdominal e de relaxamento. "Respire, foque o pensamento naquilo
que você está sentindo e perceba que você é
capaz de controlar o seu corpo e as suas emoções",
costuma dizer a seus pacientes o psicólogo José Roberto
Leite. A respiração abdominal, lenta e profunda, é
um remédio poderoso. Por meio dela, aliviam-se as tensões
e regulam-se a circulação e a pressão arterial.
Quando se experimenta uma crise fóbica, o coração
acelera e, porque bate rapidamente, a sensação é
de falta de ar. Ao sentir que está sem ar, a pessoa fica
ofegante, o que aumenta ainda mais os batimentos cardíacos.
O círculo é vicioso: o sofrimento mental alimenta
o físico e vice-versa. Se, ao primeiro sintoma da ansiedade
causada pelo medo, a pessoa tenta respirar calmamente e procura
relaxar, a tendência é que esse circuito seja interrompido.
Depois
dessa etapa, parte-se para a exposição ao objeto do
medo, de forma gradual. Quem tem medo de elevador começa
enfrentando viagens entre os andares mais baixos. Quem tem pavor
de um bicho é apresentado a várias fotos do animal.
Quem treme só de imaginar em dirigir um automóvel
é estimulado a guiar em trajetos curtos e com pouco trânsito,
neste caso com o terapeuta ao lado. Também acompanhado de
um profissional, o paciente de agorafobia, que não consegue
nem mesmo sair de casa, vai ampliando seus percursos aos poucos.
Nos Estados Unidos e na Europa, uma das maneiras de exposição
é por meio da realidade virtual. Há simuladores de
vôos, de altura, de espaços confinados e até
uma platéia fictícia para quem não consegue
falar em público (veja
quadro). A pedido do terapeuta, depois de cada exposição,
a pessoa faz um relatório, em que descreve tudo o que sentiu
e dá uma nota para o nível de tensão vivido.
O conjunto dessas notas serve de instrumento para o terapeuta definir
os exercícios seguintes. Ele também é importante
para mostrar ao próprio paciente o seu progresso.
Nos últimos dez anos, as técnicas de hipnose ganharam
força no tratamento das fobias, sobretudo nos Estados Unidos.
Se você associou hipnose a uma cena de circo, esqueça.
Hipnose não é mágica, mas uma técnica
que conduz o paciente a reviver situações que o afligem,
sem perder a consciência. Por meio da repetição
de palavras ou de frases, o profissional leva a pessoa a um estado
de relaxamento que a faz perder a resistência e a lembrar
certos episódios de sua vida. Os terapeutas em hipnose acreditam
que a fobia é um medo aprendido na primeira infância.
Segundo essa teoria, um bebê não reconhece uma aranha
como uma ameaça, por exemplo. Mas, se a mãe expressa
uma ansiedade extrema ao ver o bicho, essa atitude pode enraizar
a fobia de aranha no subconsciente da criança. Para eliminá-la,
é preciso "voltar" ao momento em que o medo foi registrado
pela primeira vez. Feito isso, mostra-se ao paciente que a sua reação
exagerada não tem razão de ser. É uma espécie
de reeducação. Segundo o terapeuta de hipnose Jean
Jacques Buhannic, de São Paulo, 90% dos pacientes conseguem
atingir um nível profundo de relaxamento e entrar em estado
hipnótico. Quando o tratamento segue num ritmo adequado,
não são necessárias mais do que oito sessões,
de quarenta minutos a uma hora cada uma, para controlar uma fobia.
A diferença essencial entre a hipnose e a terapia cognitiva
comportamental no tratamento das fobias é que, segundo Buhannic,
a primeira não se restringe aos sintomas. Tenta agir na origem
do medo.
É
por não se preocupar com a essência da fobia que os
psicanalistas torcem o nariz para a terapia cognitiva comportamental.
"Com um pequeno número de sessões, um paciente pode
até perder o medo de cachorro, mas, como a causa desse medo
não está sendo tratada, é bem provável
que outra fobia ou qualquer outra manifestação de
ansiedade aflore em seu lugar", diz o psicanalista Rubens Volich,
de São Paulo. Não há como negar, no entanto,
que ainda assim a terapia cognitiva comportamental cumpre um papel.
Ela funcionaria como uma espécie de antitérmico para
um paciente vítima de febre alta. Ou seja, um remédio
bastante eficaz para controlar apenas as manifestações
mais agudas de uma doença. Os seus bons resultados a curto
prazo têm feito com que um número cada vez maior de
fóbicos procure ajuda. Muitos psiquiatras passaram a indicar
esse tipo de terapia. Nos casos mais graves, ela é associada
a medicamentos antidepressivos ou ansiolíticos.
Pelas
contas dos especialistas, a maioria dos pacientes se encaixa no
grupo das fobias específicas as mais recorrentes são
medo de altura, de dirigir, de elevador, de avião e de bichos,
especialmente insetos. Elas também são as mais fáceis
de tratar, por serem simples de identificar. Em geral, as fobias
específicas começam na adolescência e no início
da vida adulta. Sem tratamento, tendem a se tornar cada vez piores.
O medo patológico mais limitante é o de quem sofre
de fobia social generalizada. É gente que fica aterrorizada
em situações das mais comezinhas, como ir a um supermercado
ou a uma loja, comer na frente dos outros, escrever ou assinar um
cheque quando alguém está olhando, ou mesmo usar um
banheiro público. Esse tipo extremo de fobia faz com que
os indivíduos se esquivem por sentirem-se julgados, observados
ou criticados o tempo todo. Em geral, suas vítimas não
conseguem trabalhar, manter amizades ou namorar. Não raro,
experimentam ataques de pânico. Esse é um dos distúrbios
fóbicos mais difíceis de ser tratados, inclusive pela
terapia cognitiva comportamental. Em muitos casos, ele vem acompanhado
do transtorno obsessivo compulsivo. Recentemente, o antidepressivo
Aropax ganhou o aval da FDA, a agência americana de controle
de remédios e alimentos, para o tratamento da fobia social.
É o primeiro medicamento a ter indicação para
o tratamento de uma fobia em particular. Nos Estados Unidos, uma
das manifestações mais comuns desse tipo de distúrbio
é o medo de falar em público. Apesar de todos os avanços
nas técnicas de tratamento das fobias, não se pode
deixar de lado um outro remédio: não ter medo de assumir
seus medos nem de falar abertamente sobre eles. É o passo
inicial rumo ao controle.
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