Edição 1827 . 5 de novembro de 2003

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Eleições
O soldado solitário

Bargas nega ter sido o "elo" entre o bunker
e a campanha de Lula. Dos cinco envolvidos
no caso, foi o único a fazê-lo


Policarpo Junior


Ed Ferreira/AE
Bargas, hábil negociador, quis convencer outros soldados a desmentir toda a história


Osvaldo Martinês Bargas tem 52 anos e fez carreira no mundo sindical. Fundador da Central Única dos Trabalhadores (CUT), a entidade criada há duas décadas, Bargas é considerado um sindicalista hábil e competente. Em 1989, quando três engenheiros da Petrobras foram seqüestrados por guerrilheiros do Exército de Libertação Nacional (ELN) nas selvas colombianas, Bargas, que então trabalhava na área internacional da CUT, foi acionado para participar das negociações – e, um mês e meio depois, os três engenheiros estavam livres. Na semana passada, Osvaldo Bargas, que ocupa o posto de secretário de Relações Trabalhistas do Ministério do Trabalho, voltou a usar sua habilidade de bom negociador, depois que uma reportagem de VEJA descreveu como operavam cinco dos integrantes de um bunker secreto da campanha do candidato a presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na estrutura do bunker, que se encarregou de erguer um muro de proteção em torno de Lula e uma barricada de ataque contra os adversários, Bargas era o elo. Como o bunker não tinha laço oficial com a campanha eleitoral, Bargas fazia a comunicação entre um e outro, debulhando as informações mais relevantes.

Assim que a notícia veio a público, Bargas debruçou-se ao telefone. Ligou para o sindicalista Carlos Alberto Grana, integrante da cúpula da CUT. No bunker petista, Grana era o responsável pela logística, providenciando dinheiro, carro, telefone e passagens para os soldados. No telefonema, Bargas queria que Grana viesse a público negar tudo – que tivesse existido um bunker secreto e que ele próprio teria atuado nele. Fez a mesma proposta ao advogado João Roberto Egydio Piza Fontes, velho amigo de Lula e advogado pessoal do presidente, que trabalhou como coordenador do grupo. Apesar de seu reconhecido talento, Bargas não conseguiu convencer seus interlocutores a desmentir a reportagem – e, até sexta-feira passada, nem Grana nem Piza haviam se manifestado sobre o assunto. Solitário em sua empreitada, Bargas lançou uma nota na quarta-feira. Dizia que não integrou a campanha de Lula, mas a do senador Aloizio Mercadante, e especulou que a matéria pretendia semear discórdia no movimento sindical para romper a aliança inédita entre CUT e Força Sindical...!


Mario Rodrigues
Heloisa Bortz
Dida Sampaio/AE
"Não tem pé nem cabeça."
Genoíno,
presidente do PT
"Nunca houve, com certeza."
Bastos,
ministro da Justiça
"Não tem fundamentação."
Aloizio Mercadante,
senador

Dos cinco envolvidos no caso, Bargas foi o único a produzir um desmentido. O ministro Ricardo Berzoini, da Previdência Social, que orientava politicamente a atuação do bunker, não disse palavra a respeito do assunto. Outro integrante do grupo, Wagner Cinchetto, que operou com empenho para dinamitar a candidatura de Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, que então concorria a vice na chapa de Ciro Gomes, também não fez comentário. O curioso é que, ao lado dos desmentidos de Bargas, houve uma série de outros – mas só de petistas que não tiveram envolvimento com o bunker nem sequer foram mencionados no caso. O presidente do PT, José Genoíno, por exemplo, passou a semana dizendo que a história publicada era "fantasiosa" e não tinha "nem pé nem cabeça", embora ressalvasse não ter integrado a campanha de Lula, pois estava empenhado na própria eleição ao governo paulista. Outros que se sentiram na obrigação de desmentir foram o senador Aloizio Mercadante e o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, que garantiu que "nunca houve, com certeza", uma tropa de choque.

Osvaldo Bargas é um homem de confiança da república petista. Ele é casado com Mônica Zerbinato, que vem a ser secretária do presidente Lula no Palácio do Planalto, um cargo que também exige boa dose de confiança. Na campanha presidencial, Bargas esteve em várias reuniões do bunker em São Paulo, onde a tropa se reunia quase diariamente. Bargas dava palpites e fazia avaliações sobre o andamento da campanha. Sua participação foi tão ativa que, certa vez, quando o grupo conseguiu reunir e finalmente divulgar uma série de denúncias que abalaram as estacas da candidatura de Paulinho, Bargas fez uma vibrante comemoração. Chegou a sugerir recompensar Wagner Cinchetto, o artesão das denúncias contra Paulinho, com um bônus de 8.000 reais pelos bons serviços prestados, pagos dias depois. O grupo ainda fez uma aposta: ganharia um carro zero-quilômetro quem acertasse o dia da renúncia de Paulinho. Como se sabe, ninguém ganhou a aposta, pois nunca houve renúncia. Consultado sobre mais esse episódio, Cinchetto preferiu resguardar-se. "Não quero falar mais nada sobre esse assunto", disse.

Na semana passada, ao silêncio dos envolvidos opôs-se a gritaria das vítimas. Paulinho, presidente da Força Sindical, ao saber que fora alvo dos disparos da tropa petista, esperneou feito suíno no abate. Dizendo-se indignado com as revelações, afastou-se do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social do governo, coordenado pelo ministro Tarso Genro, e disse que só volta a trabalhar no Fórum Nacional do Trabalho, que discute os termos da reforma trabalhista, quando Osvaldo Bargas deixar de coordená-lo. Além disso, suspendeu temporariamente a aliança que sua Força Sindical selara com a CUT para unificar a campanha salarial de algumas categorias. Chama atenção a estrepitosa confusão que Paulinho estabelece entre uma coisa, sua vida político-partidária, e outra, seu papel como dirigente de uma central sindical. Paulinho foi atingido pela tropa petista como candidato a vice de Ciro Gomes, mas, em retaliação, retira a Força Sindical de debates e campanhas salariais, como se fosse dono da central sindical.

Seu barulho insistente, porém, resulta, ele próprio, de mais uma confusão: o sindicalista quer ser candidato a prefeito de São Paulo e, tal como um bom surfista, aproveita a onda das denúncias para se alçar às manchetes. O próprio PT, quando na oposição, celebrizou-se por atuar com verve imensa quando se tratava de atacar os adversários. Na semana passada, os petistas sentiram o impacto do bumerangue. No Congresso Nacional, os líderes do PSDB e do PFL esfregam as mãos de entusiasmo diante do caso e já propuseram até a criação de uma CPI para investigar o assunto – tal e qual o PT fazia diante de qualquer denúncia envolvendo adversários políticos.

 
 
 
 
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