Edição 1827 . 5 de novembro de 2003

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Diogo Mainardi
O Halloween brasileiro

"O Rio tem uma versão nacional do
Halloween: o arrastão de praia. No
Halloween, os moleques americanos
assustam os adultos com fantasias de bruxa.
No arrastão,
os moleques brasileiros assustam com pistolas e estiletes. No lugar de doces, pedem carteiras"

Uns patriotas aqui do Rio de Janeiro querem acabar com o Halloween. Espalharam placas pela cidade condenando a festa. Eles acham que os brasileiros devem parar de macaquear os americanos. Devem cultivar apenas o que é genuinamente nacional. O Rio de Janeiro tem uma versão genuinamente nacional do Halloween: é o arrastão de praia. No Halloween, os moleques americanos assustam os adultos com fantasias de bruxa. No arrastão, os moleques brasileiros assustam os adultos com pistolas e estiletes. No lugar dos doces, pedem carteiras.

Os patriotas que se manifestam contra o Halloween pertencem a um grupo chamado MV-Brasil. O mesmo que protestou contra a réplica da Estátua da Liberdade num centro comercial da Barra da Tijuca. O mesmo que cobriu as placas de propaganda eleitoral de José Serra com o epíteto "Traidor da Pátria". Liguei para um representante do grupo, Wagner Vasconcelos. Comentei que o nome Wagner é estrangeiro, de origem alemã. Ele respondeu que os membros do grupo combatem os Estados Unidos, não a Alemanha. Por isso, querem abolir o Halloween, mas poupam a Oktoberfest. Perguntei se Papai Noel também pode merecer uma campanha. Ele respondeu que o grupo ainda não deliberou sobre o assunto.

Para o MV-Brasil, o Halloween é muito mais do que uma inofensiva caipirice: é o instrumento usado por uma conspiração de mercadores apátridas para dominar o mundo, abolindo as nacionalidades e as religiões monoteístas. Esses mercadores apátridas cultuam o demônio, difundindo a mensagem satânica através de manifestações culturais como o Halloween ou Harry Potter. Pedi o nome de alguns desses mercadores apátridas. Wagner Vasconcelos citou as famílias Bronfman e Rothschild. Perguntei se ele podia citar algum não-judeu. Ele pensou um pouco e respondeu "a família real britânica". Wagner Vasconcelos garante que seu movimento não tem simpatia pelos nazistas, inclusive porque os nazistas, segundo ele, "cometeram alguns exageros".

Os membros do MV-Brasil só usam produtos brasileiros. Como Policarpo Quaresma. O carro de Wagner Vasconcelos, por exemplo, é um Gurgel. Nas comemorações de 7 de setembro, o grupo estendeu a maior bandeira nacional de todos os tempos na fachada do Palácio Duque de Caxias, sede do Comando Militar do Leste. A bandeira foi confeccionada com a ajuda logística dos militares e recebeu recursos da Poupex, uma instituição financeira ligada à Fundação Habitacional do Exército. Wagner Vasconcelos assegura que o MV-Brasil conta com o apoio de muitos oficiais graduados, e que um de seus ideólogos é consultor da Escola Superior de Guerra. A participação dos militares é fundamental para o cumprimento dos planos do MV-Brasil. A meta é construir doze submarinos nucleares nos próximos cinco anos, para poder enfrentar os Estados Unidos de igual para igual em caso de conflito armado.

Comemoremos o arrastão, portanto. Ser assaltado na praia é um dever cívico, um exercício do mais alto patriotismo, uma resposta nacionalista à tentativa de dominação estrangeira através do Halloween. Quanto mais arrastões sofrermos, mais perto estaremos de explodir os Estados Unidos.

 
 
 
 
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