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Diogo
Mainardi
O
Halloween brasileiro
"O
Rio tem uma versão nacional do
Halloween: o arrastão de praia. No
Halloween, os moleques americanos
assustam os adultos com fantasias de bruxa.
No arrastão, os
moleques brasileiros assustam com pistolas e estiletes. No lugar
de doces, pedem carteiras"
Uns
patriotas aqui do Rio de Janeiro querem acabar com o Halloween.
Espalharam placas pela cidade condenando a festa. Eles acham que
os brasileiros devem parar de macaquear os americanos. Devem cultivar
apenas o que é genuinamente nacional. O Rio de Janeiro tem
uma versão genuinamente nacional do Halloween: é o
arrastão de praia. No Halloween, os moleques americanos assustam
os adultos com fantasias de bruxa. No arrastão, os moleques
brasileiros assustam os adultos com pistolas e estiletes. No lugar
dos doces, pedem carteiras.
Os
patriotas que se manifestam contra o Halloween pertencem a um grupo
chamado MV-Brasil. O mesmo que protestou contra a réplica
da Estátua da Liberdade num centro comercial da Barra da
Tijuca. O mesmo que cobriu as placas de propaganda eleitoral de
José Serra com o epíteto "Traidor da Pátria".
Liguei para um representante do grupo, Wagner Vasconcelos. Comentei
que o nome Wagner é estrangeiro, de origem alemã.
Ele respondeu que os membros do grupo combatem os Estados Unidos,
não a Alemanha. Por isso, querem abolir o Halloween, mas
poupam a Oktoberfest. Perguntei se Papai Noel também pode
merecer uma campanha. Ele respondeu que o grupo ainda não
deliberou sobre o assunto.
Para
o MV-Brasil, o Halloween é muito mais do que uma inofensiva
caipirice: é o instrumento usado por uma conspiração
de mercadores apátridas para dominar o mundo, abolindo as
nacionalidades e as religiões monoteístas. Esses mercadores
apátridas cultuam o demônio, difundindo a mensagem
satânica através de manifestações culturais
como o Halloween ou Harry Potter. Pedi o nome de alguns desses mercadores
apátridas. Wagner Vasconcelos citou as famílias Bronfman
e Rothschild. Perguntei se ele podia citar algum não-judeu.
Ele pensou um pouco e respondeu "a família real britânica".
Wagner Vasconcelos garante que seu movimento não tem simpatia
pelos nazistas, inclusive porque os nazistas, segundo ele, "cometeram
alguns exageros".
Os
membros do MV-Brasil só usam produtos brasileiros. Como Policarpo
Quaresma. O carro de Wagner Vasconcelos, por exemplo, é um
Gurgel. Nas comemorações de 7 de setembro, o grupo
estendeu a maior bandeira nacional de todos os tempos na fachada
do Palácio Duque de Caxias, sede do Comando Militar do Leste.
A bandeira foi confeccionada com a ajuda logística dos militares
e recebeu recursos da Poupex, uma instituição financeira
ligada à Fundação Habitacional do Exército.
Wagner Vasconcelos assegura que o MV-Brasil conta com o apoio de
muitos oficiais graduados, e que um de seus ideólogos é
consultor da Escola Superior de Guerra. A participação
dos militares é fundamental para o cumprimento dos planos
do MV-Brasil. A meta é construir doze submarinos nucleares
nos próximos cinco anos, para poder enfrentar os Estados
Unidos de igual para igual em caso de conflito armado.
Comemoremos
o arrastão, portanto. Ser assaltado na praia é um
dever cívico, um exercício do mais alto patriotismo,
uma resposta nacionalista à tentativa de dominação
estrangeira através do Halloween. Quanto mais arrastões
sofrermos, mais perto estaremos de explodir os Estados Unidos.
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