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Entrevista:
Antônio
Ermírio de Moraes
"Como
está, não pode ficar"
O
dono de um dos maiores e mais tradicionais
grupos industriais do país reafirma que o Fome
Zero é esmola e pede uma política urgente de
criação de empregos no Brasil

Eduardo
Salgado
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Andre Penner

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"Acho
péssimo quando
vejo que a
prioridade do governo
é dar esmola,
e não acabar
com os entraves
à criação de empregos" |
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Maior
liderança empresarial do Brasil, Antônio Ermírio
de Moraes, 75 anos, chefia o Grupo Votorantim, um dos poderosos
conglomerados industriais do país, que atua nos setores metalúrgico,
de cimento, papel e celulose e fatura 12,6 bilhões de reais
por ano. Crítico freqüente do governo Fernando Henrique
Cardoso, o empresário agora aponta o que ele considera um
grave erro de prioridade da administração petista.
Antônio Ermírio diz que o assistencialismo do governo,
cuja face mais conhecida é o programa Fome Zero, forma um
conjunto de medidas improdutivas e, o que é pior, tira o
foco da questão mais dramática, o desemprego. Diz
ele: "O governo deveria estar lançando o Programa Desemprego
Zero. É disso que o Brasil precisa". Antônio Ermírio
começou a vida profissional no governo de Eurico Gaspar Dutra,
nos anos 40, quando o Brasil dava os primeiros passos no processo
de industrialização. Ultimamente, ele reduziu a carga
diária de trabalho para dez horas, sem contar o tempo em
que se empenha pessoalmente na Beneficência Portuguesa de
São Paulo, uma de suas obras de assistência a pacientes
que não podem pagar.
Veja
O senhor qualificou o projeto Fome Zero do governo de
esmola. Com a quantidade de miseráveis existentes no Brasil,
a iniciativa do governo não mereceria uma avaliação
mais generosa?
Antônio Ermírio Não. A idéia
do Fome Zero é péssima. Lido com gente pobre há
muitas décadas no meu grupo empresarial e na Beneficência
Portuguesa. Pobre não quer esmola. Quer emprego. Um ou outro
malandro está sempre pensando em maneiras de aumentar seus
ganhos sem fazer nada, sem dar nada em troca. Mas, graças
a Deus, no Brasil esse tipo de gente é minoria. Os homens
de bem querem um emprego, querem criar a família com o fruto
de seu trabalho. O governo teria de estar focado em um programa
de desemprego zero. A esmola do Fome Zero gera dependência.
Já o emprego torna a pessoa independente do governo. Não
sei qual seria a intenção do governo de criar legiões
de dependentes. Espero sinceramente que isso não tenha implicação
eleitoreira, o que seria um retrocesso desastroso. O problema maior
com o assistencialismo é a escolha errada do que deveria
ser a prioridade do governo.
Veja
Qual deveria ser essa prioridade?
Antônio Ermírio A criação
de empregos. Todo o esforço do governo deveria centrar-se
na eliminação dos obstáculos à geração
de novos postos de trabalho. Para começo de conversa, a máquina
governamental é gigantesca. Como toda burocracia, seu instinto
é o de se preservar e aumentar de tamanho. Em 54 anos de
atividade empresarial, posso dizer que uma das tendências
mais marcantes no Brasil é o aumento do tamanho e da complexidade
da burocracia estatal. Essa máquina custa caro ao país,
dificulta a vida empresarial e, em última análise,
é um entrave à geração de empregos.
Uma empresa grande como a nossa sente os efeitos adversos da complexidade
burocrática. Os obstáculos para quem quer tocar um
pequeno negócio são quase intransponíveis.
O resultado disso é que na cidade de São Paulo temos
cerca de 70% de todos os negócios de comércio na informalidade.
A razão principal é que simplesmente os governos deixam
intactas as condições hostis e adversas para que as
empresas possam se organizar, sobreviver e gerar empregos. Em vez
de dar esmolas, o governo deveria atacar as causas do desemprego.
Veja
Quais são essas causas?
Antônio Ermírio São muitas, e, claro,
nem todas foram criadas pelo atual governo. Mas não gosto
de olhar para trás. O governo deveria aliviar um pouco o
custo da geração de empregos. No Brasil, gerar empregos
não é apenas caro. É também uma ação
desestimulada pelo Estado. No Grupo Votorantim já tivemos
55 000 empregados e atualmente temos 35 000, mesmo com um investimento
de 1 bilhão de dólares nos últimos três
anos. Como a globalização é um fato da vida
e temos de enfrentar a concorrência estrangeira, nenhum grupo
empresarial brasileiro pode se dar ao luxo de prescindir de um sólido
retorno e de saúde financeira. Por isso, não adianta
esperar que as grandes empresas criem tantos empregos quanto criavam
no passado. Se estivesse no governo, não pensaria em assistencialismo.
Só me preocuparia em como criar condições para
que as empresas possam contratar mais.
Veja
Mas o que o governo pode fazer se esse enxugamento é
uma tendência mundial?
Antônio Ermírio A globalização
não pode ser mudada. Mas o governo pode ajudar acabando com
a burocracia, que não incentiva a criação e
torna caro o funcionamento das empresas. Pode ainda melhorar muito
a Justiça, que é lenta e cara. Pode combater mais
eficientemente a corrupção. Pode baixar os juros mais
rapidamente. Só assim o Brasil será competitivo. Só
assim as empresas brasileiras terão custos compatíveis
com o mundo globalizado. A economia moderna é implacável
e simplesmente leva à falência as empresas que se descuidam
da competitividade. Por isso, acho péssimo quando vejo que
a prioridade do governo é dar esmola, e não acabar
com os entraves à criação de empregos.
Veja
Mas Lula sempre disse, desde a campanha, que sua obsessão
em Brasília seria a criação de empregos...
Antônio Ermírio Se ele tem consciência
de que está fazendo as coisas certas para atingir esse objetivo,
então é algo que só ele pode responder. Pergunte
a ele, por favor. Sem uma decidida ação do governo
para aliviar a burocracia que sufoca as empresas, a situação
só vai se agravar.
Veja
O governo vem cortando juros há cinco meses seguidos.
Isso ajuda?
Antônio Ermírio Ajuda, sem dúvida,
mas os juros estão caindo devagar. Sei que há riscos
na queda de juros, porém o governo deveria ousar mais. Se
eu estivesse no comando do Banco Central, baixaria os juros mais
agressivamente. Correria esse risco. Não sei tecnicamente
como fazê-lo. Pergunte ao governo. Um bom governo deve saber
como baixar juros mais rapidamente sem pôr em risco a estabilidade
econômica. Da maneira que está não pode ficar.
Estamos nos atrasando em relação ao mundo. A economia
brasileira vem crescendo em um ritmo menor que o da economia mundial,
e nosso PIB relativo declina ano a ano. Quando Delfim Netto era
ministro do Planejamento, em 1984, o PIB do Brasil era bem maior
que o de hoje. Era 1,34% do PIB do mundo. Atualmente é 0,9%.
Caminhamos para trás.
Veja
O PT diz que os maus resultados do primeiro ano de governo
Lula se devem à "herança maldita" deixada pelo antecessor,
Fernando Henrique Cardoso...
Antônio Ermírio Tudo o que está dando
errado tem sido creditado ao FHC. Isso não me parece muito
correto. Todo governo tem seus prós e contras. Antes de jogar
a culpa no antecessor, vamos resolver o problema. Vamos olhar para
a frente. Não é bom ficar remoendo problemas passados.
Sempre olhei para a frente e acho que deu certo. Não culpo
o Lula. Ele é uma surpresa agradável. Está
fazendo um governo razoável. Mas, se ele puder acabar com
essa burocracia estatal que custa muito ao povo brasileiro e entrava
a economia, será muito bom. Se ele aceitasse um conselho
meu, diria para se concentrar na criação de empregos.
Toda a ação governamental deveria estar centrada nesse
objetivo.
Veja
Há duas semanas o ministro da Fazenda, Antonio
Palocci, foi à TV pedir aos empresários brasileiros
que invistam, pois o governo está fazendo a parte dele. O
senhor acredita no poder dessas exortações?
Antônio Ermírio Depois de ouvir o ministro
tentei ligar para ele. Liguei duas, três vezes. Mandei um
fax, mas ele não pôde falar comigo. Estava muito ocupado.
Queria lembrá-lo de que nós investimos pesado e que
em Alumínio, no interior paulista, cidade onde aumentamos
nossa unidade, não existe uma única pessoa desempregada.
Lá, ninguém precisa de esmola. Não estou me
queixando do ministro Palocci. Acredito que ele estava mesmo ocupado.
Sempre que nos encontramos ele me trata com muito respeito e está
fazendo um trabalho notável no Ministério da Fazenda.
Veja
O que o senhor vê de bom neste governo?
Antônio Ermírio Acredito muito no Brasil.
Sempre acreditei. Se tivesse de avaliar governos, fazer previsões
de curto prazo, não teria progredido nada. Apesar dos sofrimentos,
o Brasil sempre sobreviveu a governos ruins. Por isso, nossas empresas
continuam investindo e acreditando. Nossa preocupação
na Votorantim é sempre diminuir a vulnerabilidade do grupo.
Quando o mercado interno refluiu nos últimos anos, nossas
empresas foram buscar clientes no exterior. De um volume de exportações
desprezível, nosso grupo chegará a 1 bilhão
de dólares de exportações no fim deste ano.
Nosso grupo continuará investindo, como fez no ano passado,
quando a economia quase parou por causa do temor ao que seria o
governo Lula. Nós não nos deixamos intimidar por essa
idéia. Sempre digo aqui no grupo que não podemos ficar
preocupados em prever como se comportarão os governos. Isso
nos paralisaria.
Veja
Em algum momento da história do seu grupo empresarial
o senhor recebeu ajuda decisiva de governos?
Antônio Ermírio Nada que não fosse
também acessível a outros grupos. Nunca fomos favorecidos.
No passado, o governo tinha câmbio diferenciado para alguns
setores empresariais. Nós usamos esse benefício, claro.
Mas foi só. Todos os grandes grupos paulistas que dominavam
a vida empresarial brasileira quando começamos nossa atividade
quebraram. Todos, sem exceção. Muitos quebraram por
brigas internas. Outros, por incompetência, que minou a firma
justamente por acreditar em dinheiro de governo. Se tivéssemos
colocado nossas fichas em governos, já teríamos fechado
as portas. Conseguimos manter a empresa unida trabalhando pelo mesmo
objetivo. Hoje temos 23 herdeiros representados na direção
do grupo. Alguns são executivos. Outros não. Mas não
tem briga. Estou com 75 anos e se Deus me der saúde tenho
planos de me afastar aos 81. Vai ser difícil ficar longe.
Sempre trabalhei. Não sei fazer outra coisa. Se parar de
trabalhar, sou capaz de morrer rápido.
Veja
O senhor se inspirou em algum grande empresário?
Henry Ford ou Alfred Sloan Jr., criador da General Motors...
Antônio Ermírio Não. Na maioria das
vezes, esses exemplos são inaplicáveis ou ruins mesmo.
Veja
Em meio século dirigindo um dos maiores conglomerados
industriais do país, o senhor deve ter visto diversas modalidades
de gestão, planejamento e teorias administrativas. Qual delas
lhe pareceu a mais útil?
Antônio Ermírio Sempre procurei não
seguir nenhuma moda. Não acredito em nenhum guru. Acredito
em dois mais dois igual a quatro. Tudo o que estiver fora disso
me parece esquisito. Há uns cinco anos recebi a visita de
um rapaz de uma dessas firmas de consultoria que gostam de cobrar
em dólar e falar inglês. Quando o rapaz disse que tínhamos
de sair do negócio de alumínio, pedi licença
e não fiquei para ouvir o resto. Vem aqui dar palpite em
idioma estrangeiro e ainda fala bobagem. Perdi a paciência.
O fundamental é seguir a lógica, o bom senso, e ouvir
as boas cabeças que você tem na empresa. Não
existem truques. Nossos melhores colaboradores estão conosco
há várias décadas, trabalham dez horas por
dia e são homens sinceros. É isso que vale. A diretoria
da empresa é formada por nosso pessoal. Nunca peguei uma
pessoa de fora. Ah, claro, é vital também nunca dever
muito.
Veja
O senhor está escrevendo uma autobiografia? Vai
deixar sua história e a do grupo contada na primeira pessoa?
Antônio Ermírio Só escrevo umas peças
de teatro de vez em quando. Não vou escrever uma autobiografia.
Gostaria de deixar um cartaz na sala de reuniões lembrando
às gerações futuras que durante minha gestão
a Companhia Brasileira de Alumínio, a CBA, cresceu em média
9% ao ano. Espero que elas façam igual ou melhor. Tenho certeza
de que farão, pois cuidamos de educá-las da melhor
forma possível. Acho que nos próximos vinte anos a
Votorantim não terá problemas sérios. Mas tem
de trabalhar muito para chegar lá crescendo no mesmo ritmo.
Visitamos empresas familiares nos Estados Unidos que já estão
na sétima geração e, portanto, acho que esse
sonho pode se tornar realidade.
Veja
O senhor vê futuro na bolsa de valores?
Antônio Ermírio O ideal para nosso grupo
seria abrir o capital. Mas abrir o capital aqui no Brasil é
muito complicado. Há um longo caminho para conquistar a credibilidade
necessária para o funcionamento desse tipo de mercado no
Brasil. Aqui, o sujeito capta o dinheiro em bolsa e depois não
dá a menor satisfação para o acionista. Na
hora de captar trata o investidor como um rei e depois o ignora.
Por enquanto, a Votorantim não precisou abrir o capital,
mas acredito que isso é apenas uma questão de tempo.
Sobre sua pergunta, acho que a bolsa brasileira tem futuro. Mas
eu não sou de apostar em bolsa, não. Tem gente que
aposta e se dá bem.
Veja
O senhor não aposta em nada? Em corrida de cavalos,
por exemplo?
Antônio Ermírio Não. Não gosto.
Minha vida foi muito dura. Se não apostei quando era jovem,
não vou fazê-lo agora, depois de velho. Seria meio
ridículo, não? O que me dá satisfação
mesmo é trabalhar, investir, gerar emprego. Tem gente que
no meu lugar estaria tranqüila ganhando dinheiro com os juros
altos, sem investir, sem correr riscos. Outra razão para
o governo baixar os juros é tirar essa gente, esses novos-ricos,
da vida mansa dos juros e obrigá-la a fazer força,
a gerar riqueza para que o PIB brasileiro ande para a frente.
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