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Em
foco: Sérgio Abranches
Por que somos um
país desigual?
"Em
que país a taxa de mortalidade infantil
caiu mais, em duas décadas? Onde a taxa de
matrícula primária cresceu mais? Brasil. Em
que nação o Estado aumenta a
desigualdade,
em vez de diminuir? Brasil, é
claro"
Ilustração Ale Setti
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O Banco Mundial divulgou, em seminário do Instituto de Estudos
do Trabalho e Sociedade (IETS), novos relatórios sobre a
economia mundial, nos quais examina as tendências da desigualdade
no mundo. Fez vários outros estudos, em parceria com o governo
brasileiro e com acadêmicos, sobre a natureza da desigualdade
social e as causas de sua persistência histórica no
Brasil. Esses estudos se somam ao acervo recente de pesquisas, todas
mostrando que nossa desigualdade tem cor, gênero e idade.
Pela primeira vez vi o formulador técnico da política
econômica, Marcos Lisboa, e o da política social no
Brasil, Ricardo Henriques, falando a mesma língua, com a
mesma visão do problema.
Vinod
Thomas, diretor do Banco Mundial para o Brasil, chamou a atenção
para a relação entre pobreza e desigualdade. São
problemas correlacionados, mas distintos. É possível
acabar com a pobreza sem reduzir a desigualdade: basta que todos
os segmentos da população melhorem por igual. A pobreza
acaba, mas as distâncias relativas permanecem as mesmas. Mas
existe uma interseção significativa entre pobreza
e desigualdade. A pesquisa do Banco Mundial sobre o Brasil mostra
que reduzir a desigualdade sem combater ativamente a pobreza ou
erradicar a pobreza sem políticas de redução
da desigualdade pode levar mais tempo e custar mais caro. Políticas
de enfrentamento combinado da pobreza e da desigualdade seriam mais
eficazes e produtivas. Atuariam na longa fronteira comum entre os
dois fenômenos. Um dos elos dessa conexão é
a desigualdade no acesso à educação. A exclusão
do ensino secundário e da universidade limita as oportunidades
futuras de emprego e renda. As crianças excluídas
têm alta probabilidade de ser pobres no futuro. Então,
lição primeira: é preciso salvar as crianças
da pobreza, e o caminho é a educação.
Toda
vez que falo aqui da revolução das matrículas
no 1º grau hoje, o Brasil, com 97%, está acima
dos países de renda média, cujo patamar é 80%
, vozes céticas dizem: "Falta qualidade"; "São
matrículas de mentirinha". Estão erradas. Os indicadores
de analfabetismo por grupos de idade mostram isso. Falta qualidade?
Falta. Mas qualquer sala de aula é melhor que a rua e a ignorância
absoluta para crianças nessa idade. Só a convivência,
a presença de um adulto cooperativo, alguma educação
e a merenda já representam um salto de qualidade. Precisamos
melhorar, porém é um erro desprezar o avanço.
A
persistência da desigualdade no Brasil tem duas causas que
podem ser eliminadas pela vontade ativa da sociedade brasileira:
a ação iníqua do Estado e o racismo. O gasto
público, principalmente na Previdência e na educação,
perpetua as desigualdades. Na maioria dos países, a desigualdade
de renda diminui depois que se leva em consideração
os efeitos do gasto público. No Brasil, não.
O
racismo, ao manter a maioria mais que absoluta de nossa metade negra
fora dos canais de ascensão social educação,
empregos de qualidade , reproduz a desigualdade, além
de deixar na pobreza 70% da população negra. Está
aí o miolo da interseção entre pobreza e desigualdade.
Com a conivência da sociedade branca, que nega a existência
da discriminação e prefere dar outras explicações
para seus efeitos, e do Estado, que transforma seu gasto em privilégio.
Vejam
esse efeito na educação: 62% dos matriculados nas
escolas privadas de ensino médio pertencem aos 20% de famílias
mais ricas e só 2% vêm das de mais baixa renda; no
ensino médio público, só 17% estão entre
as de maior renda e apenas 12% no grupo inferior. O que acontece
com quem estuda na escola privada? São treinados para passar
no vestibular das melhores faculdades, públicas e privadas.
No ensino universitário público e gratuito, 61% dos
alunos pertencem aos 20% de famílias mais ricas e apenas
3% às de mais baixa renda. O acesso dos mais pobres ao ensino
superior público e gratuito é praticamente igual ao
do ensino privado e pago, 3% e 2%, respectivamente. A faculdade
privada tem, é claro, ainda mais ricos: 75%. A conclusão
é inescapável: no Brasil, a educação
secundária e superior é um instrumento da desigualdade,
e não de equalização das oportunidades.
Qual
a cor da pele da maioria das meninas e meninos que não têm
acesso ao ensino médio e superior de qualidade? Negra. Não
chegou a hora de fazermos algo forte sobre isso, e já? Ganha
uma camélia branca quem der a resposta certa.
Sérgio
Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)
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