Edição 1925 . 5 de outubro de 2005

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Tales Alvarenga
Erramos, senador

"Pelo que se vê, senador Bornhausen, a raça das formiguinhas socialistas não debandará. Continuará por aí, esfregando ansiosamente suas patinhas, à espera do Grande Dia"

Ao analisar o tamanho da roubalheira do PT, o senador Jorge Bornhausen achou que haveria uma vantagem na degringolada do partido de Lula. "Vamos ficar livres dessa raça por uns trinta anos", disse Bornhausen. O senador subestimou a família petista. Eu também. Na semana passada, o presidente Lula ressurgiu das cinzas, comprando apoios junto aos partidos do mensalão para eleger o deputado Aldo Rebelo (PCdoB) presidente da Câmara. Lula ofereceu em troca desses votos a liberação de verbas (dinheiro público) e a doação de cargos (patrimônio público). A interferência do Executivo no Congresso é inconstitucional e indecente. Mas funcionou.

Depois de quatro meses de revelações a respeito de propinas na Câmara, Lula não se constrangeu em aplicar o mesmo expediente para colocar no comando da Casa um subordinado, em condições de dificultar a tramitação de um eventual pedido de impeachment contra ele. Aldo Rebelo foi seu ministro da Coordenação Política. Os acusados de envolvimento com o mensalão uivaram de alegria e levantaram as mãos para o céu quando a vitória de Aldo foi anunciada. Entre eles estava José Dirceu, que tratava Aldo como subalterno quando ambos eram ministros. Mesmo assim, o obsequioso Aldo Rebelo prestou depoimento no Conselho de Ética da Câmara contra a cassação do mandato do ex-desafeto.

Onde fica a parte ética do PT em tudo isso? O formigueiro petista foi infestado por uma multidão de cupins ladrões, mas as honestas formiguinhas socialistas não ficaram muito impressionadas. O PT tem uma ética seletiva, na qual a roubalheira é um detalhe irrelevante na grande caminhada em direção ao socialismo. Chegar ao fim dessa caminhada – nisso é que está a coluna vertebral da ética petista.

Mais de mil petistas estão se bandeando para um formigueiro vizinho, até agora sem nenhum cupim para atrapalhar a fantasia de pureza da colônia. O novo endereço é o do PSOL, Partido Socialismo e Liberdade, da senadora Heloísa Helena. Na semana passada mudaram-se para o PSOL medalhões do PT como Chico Alencar e Plínio de Arruda Sampaio. Terá sido um ataque de sensibilidade ética que os levou ao novo partido?

Nada disso. O PSOL é a reedição, sem tirar nem pôr, do antigo PT. Para os militantes do PSOL, a ética dominante é também aquela que sustenta a caminhada para o socialismo. Os trânsfugas do PT para o PSOL se queixam de que a cúpula do partido de Lula cometeu a insensatez de se dobrar aos princípios da economia capitalista. Os comandantes do PT aceitaram "a receita neoliberal de estabilidade do mercado a qualquer custo", acusa Plínio de Arruda Sampaio, um dos que se mudaram para o PSOL.

Plínio ainda não perdeu a esperança de ter os petistas de novo a seu lado, no futuro, desde que mudem de orientação. "A revolução brasileira não será feita por um partido socialista só, mas vários", garante o velho militante. Pelo que se vê, senador Jorge Bornhausen, a raça das formiguinhas socialistas não debandará. Na sua utopia anacrônica, as formigas falarão com as paredes. Mas continuarão por aí, esfregando ansiosamente suas patinhas, à espera do Grande Dia.

 
 
 
 
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