Edição 1925 . 5 de outubro de 2005

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Música
O mensalinho da filha de Elis

Gravadora presenteia jornalistas
com iPods. E eles agradecem
falando bem da cantora

 
Paulo Salomão
Divulgação
Elis (à esq.) e o mini-iPod: a mãe nunca precisou de marketing – nem de jabá

A gaúcha Elis Regina (1945-1982) nunca precisou do marketing para ser reconhecida como cantora: teve apenas de unir seu talento como intérprete a um bom repertório. No caso da filha de Elis, o marketing é tudo. Nos últimos dois anos, a gravadora Warner empenhou mundos e fundos para impulsionar sua carreira de cantora. A companhia vende a artista como uma espécie de reencarnação da mãe – e ela se prestou a esse papel, emulando o estilo de Elis. A Warner gastou mais de 1 milhão de reais para promover seu disco de estréia, em 2003. Lançado há três semanas, o segundo álbum da cantora saiu da fábrica com uma tiragem de 250.000 cópias. Mas, como a Elis genérica já não é novidade para ninguém, a gravadora valeu-se de um expediente manjado no meio musical para divulgar o disco: o jabá, aquela lembrancinha que alguns radialistas e jornalistas recebem para "dar uma força" aos lançamentos. A companhia presenteou trinta críticos de música de grandes veículos com mini-iPods – tocadores de MP3 cujo preço nas lojas varia entre 600 e 1.000 reais. O objetivo era, obviamente, conquistar a simpatia dos jornalistas. A Warner prefere uma desculpa esfarrapada: o presente seria necessário porque o disco atrasou na fábrica e, com o iPod, os jornalistas que iriam entrevistar a cantora poderiam ouvir suas músicas de forma mais prática. Claro.

O "mensalinho" da filha de Elis surtiu o efeito esperado: quase nenhum crítico agraciado ousou fazer comentários negativos sobre o disco (que, aliás, é bem ruim). A maioria escreveu resenhas e perfis chapa-branca – cuja tônica, curiosamente, é que a moça estaria se emancipando da influência materna. A revista IstoÉ publicou que Maria Rita "está cantando esplendidamente". Sua derivada, a IstoÉ Gente, lhe dedicou uma capa. No caso do jornalista da Época, a Warner matou dois coelhos de uma cajadada: ele escreveu uma matéria simpática na revista e outra mais elogiosa ainda na Bravo!, publicada pela Editora Abril, o mesmo grupo de VEJA. Poucos veículos recusaram o jabá da gravadora – foi o caso da Folha de S.Paulo, que devolveu o iPod, e do jornal O Globo, que ficou de fora da festa por não demonstrar interesse numa entrevista com a cantora. Entre o pessoal que não recusou o iPod, foram raras as notas dissonantes. O crítico do Jornal do Brasil esclareceu em sua resenha que recebeu um iPod mas ficou em cima do muro – disse que a cantora tem "talento até com repertório pouco inspirado". O jornalista de O Estado de S. Paulo também ficou no morde-e-assopra – elogiou, mas ponderou que falta à cantora o "batismo da sarjeta". Como disse um ganhador do brinquedinho, a filha da Elis "tá iPodendo".

 
 
 
 
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