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Medicina Cirurgia
sem medo Um método que evita a
rejeição permite o primeiro transplante de uretra no Brasil
 Giuliana
Bergamo
Por mais de duas décadas, Cícero
Lima, hoje com 43 anos, sofreu as conseqüências terríveis de
uma estenose de uretra a obstrução do canal por onde a urina
e o sêmen são eliminados. Por causa da doença, ele demorava
até dez minutos para esvaziar a bexiga ato que, freqüentemente,
o levava às lágrimas, tamanha era a dor. No dia 18 de junho de 2004,
Lima foi submetido ao primeiro transplante de uretra do Brasil. Realizada no Hospital
das Clínicas de São Paulo (HC), a cirurgia só foi anunciada
agora porque os médicos queriam ter certeza de seu sucesso. Lima não
só está livre da estenose como não precisou recorrer ao uso
de imunossupressores, remédios que visam a evitar a rejeição
do órgão transplantado. Isso só foi possível graças
a uma técnica chamada transplante de matriz acelular, que dispensa a necessidade
de doador e receptor serem compatíveis condição sine
qua non da imensa maioria dos transplantes. "O novo método já
está sendo testado em outros tipos de transplante", diz o urologista Leopoldo
Alves Ribeiro Filho, coordenador da operação do HC. Se forem obtidos
os mesmos resultados, a matriz acelular tem tudo para ser uma revolução
no campo dos transplantes.
Fabiano
Accorsi
 | Paciente
número 1: Cícero Lima, o primeiro brasileiro a passar pela nova
operação |
O
desenvolvimento da matriz acelular é resultado dos avanços nas áreas
da engenharia genética e de tecidos. No caso do transplante de uretra,
o processo ocorre da seguinte forma: retirada de um doador que já morreu,
a uretra é embebida em soluções à base de enzimas.
Em quinze dias, o órgão perde todas as suas células, inclusive
seu DNA. Sobra apenas uma estrutura feita de colágeno e elastina, as fibras
de sustentação dos tecidos humanos. Por isso, não há
risco de rejeição. Depois de quatro meses do transplante, a uretra
do doador já está com todas as características das do receptor
(veja
quadro). Os tratamentos convencionais da estenose de uretra também
são cirúrgicos. Nos casos mais simples, a obstrução
é removida. Nos mais complicados, recorre-se ao enxerto de tecido peniano
ou da boca. A taxa de sucesso dessas intervenções, no entanto, é
de 40%, no máximo.
A operação
do HC paulista foi a maior do mundo em comprimento de tecido transplantado. Lima
recebeu 15 centímetros de uretra. Até então, utilizavam-se,
em média, 6 centímetros. A técnica de matriz acelular começou
a ser desenvolvida há oito anos, por médicos da Universidade da
Califórnia. Em 2000, eles realizaram o primeiro transplante. A equipe do
HC paulista já operou outros quatro pacientes, além de Lima. Agora
os médicos brasileiros testam a matriz acelular no transplante de bexiga. |