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Entrevista:
Colin J. Campbell O
fim do começo Um dos maiores especialistas
diz que o mundo está vivendo o fim da primeira metade da era do
petróleo  Victor
Martino
Divulgação
 | "O
mundo tem de acordar já. Sem sua fonte de energia mais vital, a vida econômica
das sociedades como a conhecemos hoje não será mais viável"
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O petróleo é hoje uma das principais incógnitas no caminho
do crescimento global. Há especialistas que o vêem como uma pedra
descomunal, cujo preço, que já bateu na casa dos 70 dólares
o barril, dificilmente cairá de forma significativa. Colin J. Campbell
é um expoente desse grupo de analistas. Ph.D. da Universidade de Oxford,
o técnico trabalhou como geólogo em grandes companhias do ramo por
mais de quatro décadas. Atualmente, ele dirige a Association for the Study
of Peak Oil & Gas, entidade presente em catorze países, especializada
em monitorar a produção e o mercado mundial de energia de origem
fóssil. Desde que o primeiro barril de petróleo foi extraído
do chão com o objetivo de mover um automóvel, especula-se sobre
o fim desse combustível. Ninguém ainda tem uma resposta sobre quando
ele vai acabar. Campbell tem pelo menos uma estimativa racional fundamentada na
melhor base de dados possível sobre a indústria petrolífera.
Nesta entrevista a VEJA, Campbell diz que a curva de produção na
maioria das regiões produtoras atingiu seu auge e daqui para a frente ela
só aponta em uma direção: para baixo. Ao mesmo tempo, os
preços apontam para cima. Veja
Em 1997, o senhor escreveu o livro A Crise do Petróleo
Está Chegando. Agora, acaba de republicá-lo, mas com um novo
título: A Crise do Petróleo. A situação agravou-se
tanto em apenas oito anos? Campbell Sim. A crise já
chegou. Depois de oito anos, achei que seria bom reescrever o livro acrescentando
novos dados. Todavia, percebi que seria estúpido manter o título
original. Veja
Mas já houve outras crises. Em que aspecto a atual turbulência
se diferencia das anteriores? Campbell A base do problema
mudou. Hoje, o conflito no Iraque tem pressionado o preço do petróleo,
mas o trágico é que a produção atingiu o limite imposto
pela natureza. Essa é a diferença. Nas demais crises, o preço
do barril explodia, mas embalado por conflitos que limitavam a produção
e a oferta. O choque da década de 70, por exemplo, foi influenciado pelo
confronto árabe-israelense em 1973 e pela queda do xá do Irã,
em 1979. Não havia restrições naturais, mas, sim, políticas.
Agora a situação é inteiramente diferente. Veja
Com o desenvolvimento tecnológico, o mundo não pode
encontrar mais fontes de petróleo e manter a produção estável?
Campbell É fato que houve um brutal avanço
das técnicas de prospecção e perfuração, além
do conhecimento geológico. Mesmo assim, nos últimos quarenta anos,
caiu o número de descobertas de novas reservas de petróleo. A realidade
é que há poucos lugares no mundo com petróleo, e quase todos
já foram localizados. Veja
O senhor diz que, em alguns casos, o avanço tecnológico
pode até acelerar o fim do petróleo. Por quê? Campbell
O principal impacto da tecnologia tem sido, na verdade, manter altos
níveis de produção em reservas conhecidas. Mas essa produtividade
elevada, ironicamente, antecipa o fim do petróleo ao esgotar mais rapidamente
essas fontes. Ou seja, a tecnologia acelera a retirada e não aumenta o
número de descobertas realmente ponderáveis. É por isso que
digo que ela antecipa a crise. Veja
É possível controlar o pico de produção
do petróleo? Campbell Não. A taxa de produção
de um campo de petróleo é determinada por sua reserva física.
Claro, é sempre possível expandir um pouco, mas isso pode danificar
a reserva. Então, a produção é basicamente determinada
pela natureza. Não tem nada a ver com investimento nem com tecnologia.
É forçada pela pressão da reserva. Quando esta diminui, a
produção cai também. É muito simples.
Veja Existe relação entre a
atual onda de fusões no setor petrolífero e a crise do petróleo? Campbell
Sem dúvida. As fusões são conseqüência
da crise. Como hoje é mais difícil anunciar novas descobertas com
freqüência, as companhias resolveram juntar forças e o volume
de suas reservas. A Exxon comprou a Mobil. A Chevron comprou a Texaco. A BP comprou
a Amoco e a Arco. A Shell, que não realizou o mesmo movimento, foi forçada
a admitir que suas reservas eram 20% menores que as anunciadas aos investidores.
Foi um grande escândalo que culminou na saída de seu presidente.
Veja Por que as companhias
petrolíferas dizem que continuarão suprindo a demanda global pelo
menos pelos próximos quarenta anos? Campbell Isso
é matematicamente correto. Mas é absurdo supor que a produção
se manterá constante pelos próximos quarenta anos e, de repente,
acabará. Na verdade, ela vai declinar gradualmente. Assim, ainda que a
matemática esteja correta, é extremamente enganoso colocar as coisas
dessa forma, pois dá a impressão de que está tudo bem e que
só devemos nos preocupar com isso daqui a quarenta anos. Claramente, isso
é uma bobagem. Veja
O senhor também utiliza dados sobre as reservas mundiais
bastante diferentes das estatísticas publicadas pelas empresas produtoras
de petróleo. Qual a razão dessa divergência? Campbell
As companhias divulgam que o total de reservas de petróleo no
mundo soma 1,15 trilhão de barris. Eu calculo que não passam de
780 bilhões de barris. A diferença ocorre porque as empresas consideram
todo tipo de reserva, seja em águas profundas, seja nos pólos, onde
seria preciso perfurar quilômetros de calota gelada para extrair o produto.
Além disso, a indústria soma indiferenciadamente o petróleo,
do melhor ao imprestável. As empresas desconsideram também o fato
de que os países do Oriente Médio há anos superestimam suas
reservas. Meu cálculo é mais seletivo e, acredito, mais preciso.
Veja Por que um país
qualquer superestimaria suas reservas? Campbell O objetivo
imediato é poder aumentar a cota de produção anual de cada
um. Segundo as regras da Organização dos Países Exportadores
de Petróleo (Opep), o limite anual de produção de um país
é proporcional ao tamanho de sua reserva. Logo, quanto maior a reserva,
maior poderá ser a produção anual. Essa prática irregular
começou com o Kuwait, que, entre 1980 e 1984, anunciou ter reservas de
63 bilhões a 65 bilhões de barris. Em 1985, sem que novas descobertas
tivessem sido feitas, as estimativas oficiais saltaram para 90 bilhões
de barris. O disparate foi tamanho que abriu caminho para que outras nações
produtoras fizessem a mesma coisa. Os Emirados Árabes inchavam artificialmente
suas reservas de 31 bilhões para 92 bilhões. A Arábia Saudita
passou a divulgar reservas de 257 bilhões de barris, contra os 117 bilhões
que tinha antes. A Venezuela subiu seus números de 25 bilhões para
66 bilhões. Quando faço minhas estimativas, desconto do total essa
manobra que inflou artificialmente as reservas. Veja
Que papel a Opep pode ter na administração do preço
do petróleo? Campbell A entidade não tem mais
nenhuma atuação nem mecanismo de restrição que possam
ter alguma relevância. Sua finalidade primordial agora é cortar a
produção para manter o preço alto. Nunca se praticou efetivamente
a manobra contrária, ou seja, aumentar a produção para cortar
os preços. A partir de agora, os preços só podem subir até
que a demanda seja reduzida pela recessão ou por alguma forma de racionamento.
Não dá para dizer se os preços vão atingir seu mais
alto valor histórico, mas isso é possível. O mais certo é
que não estamos vivendo uma situação passageira, como nas
altas de preço do passado recente. Diria que estamos no início de
um ciclo cujo fim é o colapso da produção de petróleo.
Veja Qual será
o impacto desse colapso para a economia? Campbell Estamos
vivendo o fim da primeira metade da era do petróleo. Ela durou 150 anos
e permitiu uma rápida expansão da indústria, dos transportes,
do comércio e da agricultura. A população mundial aumentou
seis vezes, enquanto a produção do petróleo também
crescia. Agora, ela está chegando ao pico e declinará de maneira
irreversível. Começa, então, a segunda metade da era do petróleo,
que acarretará o declínio de tudo o que depende do ouro negro. Isso
quer dizer que o crescimento econômico como conhecemos hoje não será
mais possível. O fim da primeira era do petróleo promete ser uma
reviravolta de magnitude nunca vista. O mundo nunca deparou com algo semelhante.
Na escala evolutiva das técnicas humanas, a pedra deu lugar ao bronze,
o bronze ao ferro, o ferro ao aço. A cada fim de ciclo, surgiu um substituto
melhor que seu antecessor. O problema específico do nosso tempo é
que ainda não há nenhum substituto à altura para o petróleo.
Veja Nem mesmo
o álcool combustível, o etanol, pode ser um dia substituto para
o petróleo? Campbell Não inteiramente. A capacidade
do etanol de gerar energia é menor que a do petróleo. Além
disso, o etanol exige extensas áreas de cultivo. Esses fatores tornam inviável
que ele substitua plenamente o petróleo. A humanidade certamente encontrará
uma saída para essa crise energética, mas, até o momento,
não apareceu nenhuma solução inteiramente satisfatória.
Veja Em 1956, o geofísico
americano Marion King Hubbert declarou que os Estados Unidos atingiriam o pico
da produção de petróleo na década de 70. Ele estava
certo? Campbell Hubbert estudou somente o petróleo
nos Estados Unidos. Como ele trabalhava para uma companhia, sabia quanto de petróleo
havia sido encontrado até então e que a descoberta de novas reservas
vinha diminuindo desde 1930. Então, pegou lápis e papel e desenhou
a curva de produção. Nada muito complexo. Analisando essa curva,
Hubbert afirmou, em 1956, que a queda na produção americana de petróleo
ocorreria por volta de 1970. Ele acertou em cheio. Veja
O que diferencia a teoria do pico de Hubbert das demais análises
atuais a respeito do petróleo? Campbell Na verdade,
não se tratava de uma teoria. Era uma observação dos fatos.
É preciso encontrar o petróleo antes de produzi-lo. Se observamos
que as descobertas vêm rareando nos últimos quarenta anos, então
a queda da produção não pode ser nenhuma surpresa. Foi isso
que Hubbert fez. Ele viu que a taxa de descoberta de novas reservas nos Estados
Unidos vinha caindo. Extrapolando seu raciocínio para o planeta todo, chegamos
à conclusão de que o pico mundial está bem próximo.
Veja O senhor se
arriscaria a precisar melhor quando esse pico será atingido? Campbell
Esse é um tema que provoca grande debate. Alguns dizem que o
pico ocorreu no ano passado. Outros afirmam que chegaremos lá neste ano
ou nos próximos cinco. Mas isso não é tão relevante.
Esse momento não me inquieta. O que realmente preocupa é como atravessaremos
o longo período de declínio que se seguirá. Calculo que a
produção de petróleo vá sofrer uma queda anual de
2% a 3% a partir do pico. A isso se soma o fato de que as fontes alternativas
como a energia solar, a eólica e a hidrelétrica e a biomassa não
são tão baratas e ao mesmo tempo tão convenientes como o
petróleo. A principal e mais imediata conseqüência disso é
que o preço do barril vai subir cada vez mais.
Veja Quanto? Campbell
Não sei. Posso garantir apenas que o vetor do preço aponta para
cima. Pelo menos até que a demanda possa ser reduzida. O problema é
que ninguém quer consumir menos. Ao contrário, os chineses e os
indianos, que são bilhões de pessoas, estão usando cada vez
mais combustíveis fósseis. Veja
Qual é a situação do Brasil nesse cenário? Campbell
O Brasil é um caso especial, porque encontrou uma maneira de
extrair petróleo em águas profundas. Não fossem essas reservas,
o país não teria mais de 7 bilhões de barris. O auge da produção
brasileira em poços tradicionais ocorreu em 1986. Incluindo as reservas
em águas profundas, o Brasil atingirá o pico em 2011. A partir daí,
ela cairá. Portanto, o país tem uma posição relativamente
boa, mas não está livre da crise mundial de energia. Se aceitam
uma sugestão, eu diria que o Brasil não deveria descuidar de seu
futuro energético apenas porque a situação atual é
confortável. É preciso ser rápido para evitar o pior.
Veja Qual seria a melhor estratégia
para o Brasil ? Campbell O consumo brasileiro aumentou muito.
Saltou de 300.000 barris por dia em 1966 para 1,2 milhão de barris em 1990.
Chegou a 1,8 milhão de barris diários em 2000. Desde então
está estabilizado. O Brasil pode atingir a auto-suficiência neste
ano e ainda terá uma sobra para exportar até por volta de 2020.
Depois, voltará ao mercado mundial como comprador. Se eu fosse o governo
brasileiro, estudaria a possibilidade de estocar a maior parte da produção
nacional atual em vez de exportar o excedente. |