Ponto
de vista: Stephen Kanitz A
origem da crise mundial
"No ano passado
os bancos americanos realizaram a loucura de 157 trilhões de dólares
em derivativos, contra 500 bilhões em 1988"
Por que os grandes emprestadores de hoje são os fundos de pensão,
hedge fund, e as empresas de private equity, e não os bancos
comerciais, com seus mais de 500 anos de tradição nessa área?
A origem da crise atual remonta a 1933 e 1935, quando o governo americano instituiu
uma série de regulamentos visando a impedir que os bancos emprestassem
além de sua capacidade financeira. Esses regulamentos foram sendo modificados
ao longo dos anos, e sua última versão são os acordos de
Basiléia I e II.
Neles encontramos
a regra básica comum a todos: "Os bancos poderão emprestar no máximo
doze vezes seu capital e reservas, corroídos pela inflação
do ano, ano após ano". Deve ser a regra mais estapafúrdia e incoerente
da história econômica do mundo, porque enfraquece a capacidade de
emprestar dos bancos ano após ano, justamente o contrário do que
queriam fazer. Imagine o estrago que acarretaram ao setor bancário vinte
anos de inflação multiplicados pela alavancagem de doze vezes o
patrimônio líquido. Devido à inflação média
somente deste ano, os bancos do mundo deixarão de emprestar 2 trilhões
de dólares em 2008, só para poder se enquadrar nos ditames de Basiléia
I e II. Um tiro no pé dos bancos e na economia do planeta.
Ilustração
Atomica Studio
Os
bancos comerciais, para sobreviver, mergulharam de cabeça em outras atividades,
como serviços, derivativos, securitização de recebíveis.
No ano passado, somente os bancos americanos realizaram a loucura de 157 trilhões
de dólares em derivativos, contra 500 bilhões em 1988. Hoje, os
empréstimos não passam dos 6 trilhões; o negócio dos
bancos comerciais agora é outro.
No Brasil, sentimos o efeito dessa regra bancária insana em 1982 e 1983,
quando a inflação americana atingiu 20%, obrigando os bancos a recolher
20% de seus empréstimos, por simples regulamentação governamental,
criando a famosa crise da dívida externa, que nos causou uma década
e tanto perdida. Acusaram-nos na época de ser um país superendividado,
de ter tomado empréstimos demais, quando na realidade eram eles que estavam
sendo forçados a dar empréstimos de menos. Os bancos também
foram acusados injustamente de ter emprestado sem rigor, o que resultou nesses
acordos ainda mais rígidos de Basiléia I e II, que mantiveram o
absurdo original de usar como cálculo um capital corroído anualmente
pela inflação. Um enorme retrocesso.
Compare isso com a regra utilizada pelo Banco Central brasileiro até 1995:
"Os bancos poderão emprestar até doze vezes seu capital, corrigido
anualmente pela inflação".
Se em vez de pedirem moratória, implorarem por mais prazo, nossos negociadores
tivessem exigido a troca do "corroído pela inflação" por
um "corrigido pela inflação", os bancos americanos teriam tido o
necessário espaço para respirar e teríamos resolvido a não-crise
numa boa. Tínhamos até a obrigação de alertar o mundo,
pois só os economistas brasileiros enxergam essas frases em itálico,
calejados que fomos pela inflação. Mas, em 1995, nosso Banco Central
introduziu, inexplicavelmente, a regra "corroído pela inflação",
enfraquecendo nosso sistema bancário, forçando-o a ganhar dinheiro
com serviços, e não com empréstimos, comprometendo o crescimento
do Brasil mais um erro do governo FHC.
Há males que vêm para o bem. Por termos enfraquecido o setor bancário
mundial, hoje existem novos personagens dando crédito, crédito mais
bem distribuído, menos conservador, mais agressivo. Agora, em vez de o
risco ser concentrado nos 100 maiores bancos do mundo, como em 1983, o risco está
pulverizado entre 45.000 fundos e no mínimo 200 milhões de investidores
de classe média para cima.
Muitos
desses fundos estão de fato com problemas. Investidores que escolheram
erradamente fundos muito alavancados e concentrados amargarão prejuízos,
mas não teremos o risco de quebra em massa nem o contágio de bancos
em liquidação, como antigamente.
Stephen
Kanitz é formado pela Harvard Business School (www.kanitz.com.br)