Ensaio:Roberto Pompeu de Toledo A
face mais cruel do mensalão
Se a idéia não era senão construir uma maioria parlamentar,
a operação foi ingênua e perdulária
A que fim serviria, exatamente, o mensalão, é questão que
permanece em aberto, mesmo depois do preciso trabalho de dissecação
do caso pela acusação do procurador-geral Antonio Fernando Souza
e pelo relatório do ministro Joaquim Barbosa, peças que nortearam
uma decisão que dignificou o Supremo Tribunal Federal. Na verdade, não
cabia ao Supremo decifrar o enigma. Competia-lhe tão-somente verificar
se havia ou não indícios suficientes de crime para abrir um processo.
Para quem se interessa pelas entranhas da política, no entanto, e mesmo
pelo que se passa na alma humana, o mais intrigante é o móvel que
teria conduzido o quarteto que, na acusação do procurador-geral,
é descrito como "núcleo central" da operação
José Dirceu, José Genoíno, Delúbio Soares e Silvio
Pereira. A explicação convencional comprar apoios no Congresso
é insuficiente. Se teve só esse objetivo, o "núcleo
central" foi ingênuo e perdulário ingênuo porque deu
demasiado crédito à conversa de "governabilidade" que ronda a política
brasileira; perdulário porque se dispôs a pagar muito mais do que
poderia ter pago pela mesma mercadoria.
A palavra "governabilidade" saiu da ciência política para cair como
uma luva na prática da política ao estilo gangsterístico.
Passou em julgado de uns anos para cá que todo governo precisa ter no Congresso
maioria segura, e quanto mais ampla melhor, sob pena de condenar-se ao mal paralisador
da ingovernabilidade. Tal noção tem servido para multiplicar o cacife
dos que estão na política para negócios de compra e venda.
Bem pesadas as coisas, porém, leva jeito de mais um mito a atravancar a
vida nacional. Há toda uma gama de ações governamentais,
da política econômica à política externa, passando
pela administração da saúde e pelos investimentos em infra-estrutura,
que independem de aprovação do Congresso. Quando essa aprovação
é necessária, a experiência mostra que no Congresso fala mais
alto a subserviência que a resistência ao Executivo. O ímã
do poder é forte demais; acresce que o presidente, com seu tesouro de dezenas
de milhões de votos, ostenta uma legitimidade que só raramente o
Congresso ousa desafiar.
Vá lá.
Admitamos que, ao contrário dos Estados Unidos, pátria do presidencialismo,
onde os presidentes conseguem governar com minoria Bill Clinton é
o último exemplo disso , no Brasil seja impossível. E admitamos
mais: que, no Brasil, para construir maiorias, só franqueando o acesso
ao erário. O mensalão, mesmo assim, é um despropósito.
Práticas mais convencionais, como a distribuição de cargos
e a liberação de emendas ao Orçamento, dariam conta do recado.
O "núcleo central" houve por bem somar a elas um derrame de dinheiro em
espécie. É aqui que, se a intenção se limitava a comprar
apoios no Congresso, à ingenuidade se acrescentou a prodigalidade.
Se a intenção ia além, qual podia ser? Afaste-se desde logo,
por extrema, que fosse virar as instituições de cabeça para
baixo, pela via de uma grande maioria, de tal modo que ao presidente fosse facultado
governar por decreto e implantar, no limite até sem o empecilho das eleições,
determinado modelo de sociedade e de ordem econômica. Mais verossímil
é que o investimento fosse em partidos-satélite que, em acréscimo
aos serviços no Congresso, cumprissem o papel de forças eleitorais
auxiliares, de modo a garantir sucessivas vitórias nas urnas. Ambicionar
uma longa permanência no poder tem sido praga recorrente na política
brasileira. Foi, além do enriquecimento próprio, o objetivo da razia
Collor/PC Farias; e no governo Fernando Henrique teve pelo menos no ministro Sergio
Motta, segundo o qual o PSDB tinha um projeto "para vinte anos", um defensor.
No PT, mais estruturado como partido, mais dono da verdade e mais tentado à
utopia, é razoável supor que a praga alcançasse proporções
delirantes.
O mensalão revela-se
doença mais profunda quando se imagina que suas intenções
ultrapassavam a construção de uma maioria parlamentar. Dá
lugar a cenário em que um único grupo se considera detentor da compreensão
do presente e da chave do futuro. Ou, o que vem a ser seu corolário inevitável,
em que a alternância do poder é um incômodo a ser eliminado.
O mensalão, tal qual descrito no Supremo Tribunal Federal, está
morto. Não há possibilidade de rearticulação do grupo
que, com o "carequinha" Marcos Valério numa ponta e o Banco Rural na outra,
constituiu o que o procurador-geral chamou de "núcleo operacional e financeiro".
Nem há muita possibilidade de o "núcleo central" voltar a dar as
cartas. Mas continua a corrida de deputados em direção a partidos
agregados ao governo. Dá para desconfiar que um mensalão oculto,
ou quem sabe a expectativa de volta triunfal do mensalão, continua a animar
a vida parlamentar. Estamos tão no fundo do poço, em matéria
de práticas políticas, que, mesmo diante de uma decisão histórica
como a do Supremo Tribunal Federal, é duro acreditar que as coisas venham,
mesmo, a mudar.