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5 de setembro de 2007
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Cinema
Órfão de tudo

Em O Pequeno Italiano, uma criança atravessa uma
Rússia em total decadência material e institucional


Isabela Boscov

Vanya Solntsev tem 6 anos e mora num orfanato que é, efetivamente, um depósito de crianças: as menores limpam os banheiros e pedem esmolas; as maiores ocupam o vácuo deixado pelo diretor alcoólatra tocando uma pequena rede de tráfico e prostituição. As refeições são irregulares e paupérrimas; ninguém se dá ao trabalho de ensinar as crianças a ler e escrever. A sorte de Vanya, se é que a palavra pode ser usada num contexto como esse, é que ele é muito bonito, o que acaba de qualificá-lo para a adoção (na prática, venda) por um casal de italianos. Mas, enquanto todas as outras crianças invejam Vanya e o chamam de "Italianinho", ele próprio desejaria não ter sido escolhido. Seu medo é que sua mãe verdadeira venha procurá-lo quando já for tarde demais. E, por mais que os outros internos argumentem quanto é remota a hipótese de que uma mulher que o abandonou se lembre dele repentinamente, Vanya insiste em correr atrás de sua ilusão.

Em nenhum momento de O Pequeno Italiano (Italianetz, Rússia, 2005), que estréia nesta sexta-feira no país, o diretor Andrei Kravchuk especifica em que parte da Rússia essa história se passa. Seu propósito é mostrar que o país vive hoje uma tal decadência material e institucional que, em princípio, todo ele virou isso – um potencial exportador de órfãos. Vanya empreende uma jornada que, para um adulto, não seria tão grande assim; para uma criança de seu tamanho, é épica. Toma trens, é roubado, apanha de pivetes, em algumas ocasiões recebe um pouco de ajuda. Todos os lugares que ele atravessa são mais da mesma coisa: ruas esquálidas, casas malcuidadas, terrenos abandonados. É uma visão nada inspiradora da Rússia, que o estreante Kravchuk registra em tom quase de reportagem, sem inflexões sentimentais.

Interpretado por Kolya Spiridonov, que, como a maioria dos outros atores, não é profissional, Vanya não usa daqueles truques comuns às crianças de filmes: não faz olhos de cachorrinho, não joga charme, não tem tiradas que o caracterizem como precoce. Até porque, em sua experiência, os adultos ou mesmo as outras crianças formam uma única e uniforme legião de indiferentes. O que Vanya tem é uma tenacidade muito típica da infância e muito autêntica. O diretor Kravchuk a retribui com um desfecho que, em filmes de outras nacionalidades, poderia ser feliz. No mundo desmantelado de Vanya, o final de O Pequeno Italiano acena apenas com uma incógnita – pode ser o início de algo melhor ou, como nos cenários que ele atravessou até chegar ali, apenas mais da mesma desolação.

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