Em O Pequeno Italiano, uma
criança atravessa uma Rússia em total decadência material
e institucional
Isabela
Boscov
Vanya Solntsev tem 6 anos e mora num
orfanato que é, efetivamente, um depósito de crianças: as
menores limpam os banheiros e pedem esmolas; as maiores ocupam o vácuo
deixado pelo diretor alcoólatra tocando uma pequena rede de tráfico
e prostituição. As refeições são irregulares
e paupérrimas; ninguém se dá ao trabalho de ensinar as crianças
a ler e escrever. A sorte de Vanya, se é que a palavra pode ser usada num
contexto como esse, é que ele é muito bonito, o que acaba de qualificá-lo
para a adoção (na prática, venda) por um casal de italianos.
Mas, enquanto todas as outras crianças invejam Vanya e o chamam de "Italianinho",
ele próprio desejaria não ter sido escolhido. Seu medo é
que sua mãe verdadeira venha procurá-lo quando já for tarde
demais. E, por mais que os outros internos argumentem quanto é remota a
hipótese de que uma mulher que o abandonou se lembre dele repentinamente,
Vanya insiste em correr atrás de sua ilusão.
Em
nenhum momento de O Pequeno Italiano (Italianetz, Rússia,
2005), que estréia nesta sexta-feira no país, o diretor Andrei Kravchuk
especifica em que parte da Rússia essa história se passa. Seu propósito
é mostrar que o país vive hoje uma tal decadência material
e institucional que, em princípio, todo ele virou isso um potencial
exportador de órfãos. Vanya empreende uma jornada que, para um adulto,
não seria tão grande assim; para uma criança de seu tamanho,
é épica. Toma trens, é roubado, apanha de pivetes, em algumas
ocasiões recebe um pouco de ajuda. Todos os lugares que ele atravessa são
mais da mesma coisa: ruas esquálidas, casas malcuidadas, terrenos abandonados.
É uma visão nada inspiradora da Rússia, que o estreante Kravchuk
registra em tom quase de reportagem, sem inflexões sentimentais.
Interpretado
por Kolya Spiridonov, que, como a maioria dos outros atores, não é
profissional, Vanya não usa daqueles truques comuns às crianças
de filmes: não faz olhos de cachorrinho, não joga charme, não
tem tiradas que o caracterizem como precoce. Até porque, em sua experiência,
os adultos ou mesmo as outras crianças formam uma única e uniforme
legião de indiferentes. O que Vanya tem é uma tenacidade muito típica
da infância e muito autêntica. O diretor Kravchuk a retribui com um
desfecho que, em filmes de outras nacionalidades, poderia ser feliz. No mundo
desmantelado de Vanya, o final de O Pequeno Italiano acena apenas com uma
incógnita pode ser o início de algo melhor ou, como nos cenários
que ele atravessou até chegar ali, apenas mais da mesma desolação.