Dave Mustaine, do Megadeth,
compra briga ao revelar sua faceta conservadora
Sérgio
Martins
No
mundo americano do entretenimento, um muro ideológico separa os artistas
de música country dos astros do rock. Os primeiros, grosso modo, são
conservadores e têm um discurso nacionalista. Os roqueiros, por sua vez,
se alinham em peso com os políticos e as políticas liberais (caso
não sejam completos alienados, o que também é freqüente).
Por isso, cada vez que um artista se desgarra de sua respectiva fileira e pula
o muro, o acontecimento é motivo de discussões acaloradas ou mesmo
de animosidade explícita um estado de coisas que só fez se
acentuar desde o 11 de Setembro. Em 2003, por exemplo, o popularíssimo
trio feminino de country Dixie Chicks foi banido da programação
de 262 rádios americanas porque, num show, uma das vocalistas tentou levantar
uma vaia contra o presidente George W. Bush e a intervenção no Iraque.
Agora, a polêmica se repete mas no sentido inverso com a briga
entre o Megadeth, grupo que se notabilizou por tocar rock em velocidade acima
da permitida, e a Organização das Nações Unidas. United
Abominations (Abominações Unidas), novo disco da banda,
acusa o órgão de conluio com grupos terroristas e repisa uma suspeita
de corrupção envolvendo o filho de Kofi Annan, ex-secretário-geral
da ONU.
O outro protagonista da briga
é Mark Leon Goldberg, jornalista do blog UN Dispatch apoiado pela
Fundação ONU, mas sem vínculo editorial com a entidade. Goldberg
dissecou todas as canções de United Abominations e ironizou
com razão os ralos dotes intelectuais de Dave Mustaine, vocalista
e guitarrista do Megadeth. "O sujeito confunde Hamas com Hezbollah; que dirá
de outras questões que coloca no disco", ironizou o jornalista. Mustaine
revidou dias depois, dizendo que o álbum poderia até conter informações
erradas, mas refletia o que sentia como "um patriota que ama Deus, sua pátria
e sua família".
Mustaine
já foi um roqueiro que defendia causas liberais. Sua conversão em
conservador, porém, não é inédita no showbiz. No começo
de carreira, na década de 50, o cantor Elvis Presley era tido como uma
ameaça aos bons costumes. Em 1970, enquanto ainda corria a Guerra do Vietnã,
ele baixou na Casa Branca para saudar Richard Nixon ocasião em que
foi também alçado ao posto de "embaixador da juventude"
dos Estados Unidos e criticou os Beatles e os Rolling Stones, que, segundo ele,
incentivavam os jovens a consumir drogas. (Detalhe: quando fez tal declaração,
Elvis só funcionava à base de substâncias ilícitas.)
Outro caso curioso é o do cantor canadense Neil Young. Nos anos 70, ele
protestou contra o governo Nixon e, na canção Ohio, acusou
o presidente de ser cúmplice num massacre de estudantes universitários.
Na década seguinte, Young surpreendeu ao declarar seu apoio ao também
republicano Ronald Reagan. Na ocasião, ele se explicou dizendo que não
acreditava na divisão entre liberais e conservadores, mas sim entre bons
e maus governos. Young, pelo visto, não estava falando da boca para fora,
visto que recentemente advogou o impeachment de George W. Bush. Bem mais raros
são exemplos como o de Johnny Ramone, líder do grupo punk The Ramones,
que se orgulhava de ter votado em todos os candidatos do Partido Republicano e,
certa feita, terminou um discurso de agradecimento com a frase "Deus salve
George W. Bush e a América".
Vale
frisar que, nos Estados Unidos, mesmo os roqueiros mais à esquerda reservam
uma postura pública de solidariedade aos seus soldados por não
serem eles os artífices das guerras, mas suas vítimas potenciais,
e também em virtude de uma tradição consolidada na II Guerra,
quando todas as celebridades se dedicavam a apoiar ou animar as tropas. Não
é por essa linha mais razoável que segue o Megadeth. "Sou um
soldado hi-tech. / Tenho infravermelho, tenho GPS, / tenho o bom e velho chumbo....
/ Nossas tropas limpam o lixo para a velha e boa América", prega uma
das letras de Mustaine no novo álbum. E ele a canta com um fervor de deixar
qualquer conservador de carteirinha no chinelo.
CONSERVADOR COM MUITO ORGULHO
ELVIS
PRESLEY Quem apoiou: Richard Nixon Prova de admiração:
defendia a cruzada do ex-presidente republicano contra as drogas e chegou
a fretar um avião para visitá-lo na Casa Branca
NEIL
YOUNG Quem apoiou: Ronald Reagan Prova de admiração:
o roqueiro foi seu cabo eleitoral de primeira hora e até hoje enaltece
suas realizações
JOHNNY
RAMONE Quem apoiou: Ronald Reagan, George W. Bush Prova
de admiração: para horror de seus colegas esquerdóides
no Ramones, o guitarrista era um conservador. Na festa de entrada da banda para
o Hall da Fama, cobriu Bush de elogios
MEGADETH Quem
apoiou: George W. Bush Prova de admiração: o novo
CD dos metaleiros acusa a ONU de "terrorismo" e defende as intervenções
americanas no Oriente Médio