As patricinhas
de Simple Life dão ibope. E ainda fazem qualquer um se sentir
um ser superior
Marcelo
Marthe
Antonio
Chahestian/divulgação/Record
"Tici"
e "Ka", morrendo de nojo do esterco: mostrar o "eu verdadeiro"
Desde que viraram protagonistas de Simple Life Mudando de Vida,
reality show da Record em que duas patricinhas têm de trocar celulares
e compras com cartão de crédito pela ordenha de vacas e limpeza
de estábulos, as loiras Karina Bacchi e Ticiane Pinheiro colhem a mesma
reação nas ruas. "Estão rindo da minha cara", diz Karina,
que no ar é tratada como "Ka". Ticiane ou "Tici" virou alvo
de chacota no posto de gasolina. "Outro dia parei para abastecer e perguntaram
se eu não sabia mesmo tirar leite de vaca", diz. Loiras e assumidamente
fúteis, as atrizes e modelos passaram quarenta dias numa fazenda no interior
paulista, onde tiveram de dar banho em porco, guiar carroça e vestir-se
de abelhinhas para vender mel. Elas gritam ao ver uma galinha sendo estrangulada,
mooooorrem de nojo quando têm de varrer esterco e confundem capim com cana.
Graças a todo esse conteúdo, o ibope sorriu para Ka e Tici
que aceitou o "desafio" de participar da atração para mostrar seu
"eu verdadeiro" e desfazer a imagem de "mulher metida de empresário" (o
publicitário e apresentador Roberto Justus). Em exibição
há dois meses, Simple Life converteu-se numa das maiores audiências
da Record. Repete, assim, a trilha de sucesso da matriz americana estrelada por
Paris Hilton, herdeira da cadeia de hotéis (e que recentemente conheceu
o outro lado da palavra "cadeia" ao ser condenada à prisão por dirigir
embriagada), e Nicole Richie, filha do cantor Lionel Richie.
A inversão de papéis já foi explorada por vários ângulos
nos reality shows. No inglês Tudo É Possível (exibido
tempos atrás na TV paga) mostrava-se como, com algum esforço, qualquer
um pode se fingir de especialista num ramo que não domina. Simple Life
segue numa direção oposta: propicia ao espectador a experiência
de se sentir um ser superior diante da inépcia das patricinhas. No original
americano, Paris e Nicole abraçam esse papel com o ar blasé de quem
não está nem aí com nada. A postura das brasileiras está
mais para a de duas crianças crescidas. Elas aprontam travessuras pré-escolares
como jogar talco numa jaguatirica empalhada e fazer guerra de farinha. "Assumo
o meu lado infantilóide", diz Ka. "Artistas que se levam a sério
acabam com depressão."
Muito da "realidade" de Mudando de Vida é pura ficção.
Se as experiências vividas por elas transcorressem naturalmente, seria complicado
produzir episódios tão idênticos aos americanos. As atividades
da dupla eram definidas antes das gravações. E, se faltasse dramaticidade
ou um toque de humor à cena, não era incomum solicitar ao povo da
roça que desse um pito nelas. O isolamento e a privação também
tiveram exceções. Roberto Justus volta e meia ligava para matar
a saudade de Tici.
As patricinhas
têm diferenças de estilo. Tici se acha imbatível em frescura,
e tira o chapéu para o arrojo da colega. "A Ka usa até piercing",
diz (a localização de um deles, por sinal, causou furor num ensaio
dela para a revista Playboy). De fato, Ka é irrequieta. Antes do
programa, participou do piloto de uma série com o mesmo espírito
que teve alguma repercussão no YouTube (veja quadro). Na Record,
onde atua também como atriz, já deixou claro que gostaria mesmo
é de ser apresentadora. No momento, negocia um aumento para participar
da segunda temporada de Simple Life. Na primeira, ganhou 60 000 reais
agora, quer em torno de 100 000 reais. Ela não se presta ao ridículo
por pouco.
O EFEITO MANADA
O
quadro do SBT: o processo vem aí
Simple
Life está no centro de uma disputa entre a Record e o SBT. A rede de
Edir Macedo pretende entrar em breve com uma ação contra a concorrente
pelo suposto plágio de seu programa no Domingo Legal, de Gugu Liberato.
No quadro Trocando as Bolas, David Brazil "promoter" e figurinha carimbada
no meio gay carioca protagonizou o mesmo tipo de patacoada rural das patricinhas.
De galochas cor-de-rosa e tiara, ele ataca em cena sempre com uma companhia não
menos espalhafatosa (há duas semanas, tirou carrapatos de ovelhas ao lado
da socialite Narcisa Tamborindeguy). Coincidência ou não, antes de
Simple Life sair do papel Brazil tinha atuado com Karina Bacchi numa produção
independente inspirada no programa americano. Como informa Karina, a série
Querido Diário chegou a ser mostrada à Fox, detentora dos direitos
sobre o reality show. Além disso, conquistou alguma popularidade no YouTube.
A emissora de Silvio Santos nega qualquer imitação diz que
o Trocando as Bolas é um quadro antigo que foi reformulado (em tempo: a
Fox não vê razão para processar o SBT). Disputas à
parte, o episódio põe em evidência o que se pode chamar de
"efeito manada": a tendência de as redes investirem em idéias já
testadas, em vez de programas originais. Tempos atrás, ironicamente, o
próprio Silvio foi à Justiça para proibir um humorista da
Record, Tom Cavalcante, de imitar seus quadros famosos. Agora, é a Globo
que não descarta processar o mesmo Tom por suas paródias dos programas
de Ana Maria Braga e Faustão.