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5 de setembro de 2007
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Fúteis e úteis

As patricinhas de Simple Life dão ibope. E ainda
fazem qualquer um se sentir um ser superior


Marcelo Marthe

Antonio Chahestian/divulgação/Record
"Tici" e "Ka", morrendo de nojo do esterco: mostrar o "eu verdadeiro"


Desde que viraram protagonistas de Simple Life – Mudando de Vida, reality show da Record em que duas patricinhas têm de trocar celulares e compras com cartão de crédito pela ordenha de vacas e limpeza de estábulos, as loiras Karina Bacchi e Ticiane Pinheiro colhem a mesma reação nas ruas. "Estão rindo da minha cara", diz Karina, que no ar é tratada como "Ka". Ticiane – ou "Tici" – virou alvo de chacota no posto de gasolina. "Outro dia parei para abastecer e perguntaram se eu não sabia mesmo tirar leite de vaca", diz. Loiras e assumidamente fúteis, as atrizes e modelos passaram quarenta dias numa fazenda no interior paulista, onde tiveram de dar banho em porco, guiar carroça e vestir-se de abelhinhas para vender mel. Elas gritam ao ver uma galinha sendo estrangulada, mooooorrem de nojo quando têm de varrer esterco e confundem capim com cana. Graças a todo esse conteúdo, o ibope sorriu para Ka e Tici – que aceitou o "desafio" de participar da atração para mostrar seu "eu verdadeiro" e desfazer a imagem de "mulher metida de empresário" (o publicitário e apresentador Roberto Justus). Em exibição há dois meses, Simple Life converteu-se numa das maiores audiências da Record. Repete, assim, a trilha de sucesso da matriz americana estrelada por Paris Hilton, herdeira da cadeia de hotéis (e que recentemente conheceu o outro lado da palavra "cadeia" ao ser condenada à prisão por dirigir embriagada), e Nicole Richie, filha do cantor Lionel Richie.

A inversão de papéis já foi explorada por vários ângulos nos reality shows. No inglês Tudo É Possível (exibido tempos atrás na TV paga) mostrava-se como, com algum esforço, qualquer um pode se fingir de especialista num ramo que não domina. Simple Life segue numa direção oposta: propicia ao espectador a experiência de se sentir um ser superior diante da inépcia das patricinhas. No original americano, Paris e Nicole abraçam esse papel com o ar blasé de quem não está nem aí com nada. A postura das brasileiras está mais para a de duas crianças crescidas. Elas aprontam travessuras pré-escolares como jogar talco numa jaguatirica empalhada e fazer guerra de farinha. "Assumo o meu lado infantilóide", diz Ka. "Artistas que se levam a sério acabam com depressão."

Muito da "realidade" de Mudando de Vida é pura ficção. Se as experiências vividas por elas transcorressem naturalmente, seria complicado produzir episódios tão idênticos aos americanos. As atividades da dupla eram definidas antes das gravações. E, se faltasse dramaticidade ou um toque de humor à cena, não era incomum solicitar ao povo da roça que desse um pito nelas. O isolamento e a privação também tiveram exceções. Roberto Justus volta e meia ligava para matar a saudade de Tici.

As patricinhas têm diferenças de estilo. Tici se acha imbatível em frescura, e tira o chapéu para o arrojo da colega. "A Ka usa até piercing", diz (a localização de um deles, por sinal, causou furor num ensaio dela para a revista Playboy). De fato, Ka é irrequieta. Antes do programa, participou do piloto de uma série com o mesmo espírito que teve alguma repercussão no YouTube (veja quadro). Na Record, onde atua também como atriz, já deixou claro que gostaria mesmo é de ser apresentadora. No momento, negocia um aumento para participar da segunda temporada de Simple Life. Na primeira, ganhou 60 000 reais – agora, quer em torno de 100 000 reais. Ela não se presta ao ridículo por pouco.

 

O EFEITO MANADA

 
O quadro do SBT: o processo vem aí

Simple Life está no centro de uma disputa entre a Record e o SBT. A rede de Edir Macedo pretende entrar em breve com uma ação contra a concorrente pelo suposto plágio de seu programa no Domingo Legal, de Gugu Liberato. No quadro Trocando as Bolas, David Brazil – "promoter" e figurinha carimbada no meio gay carioca – protagonizou o mesmo tipo de patacoada rural das patricinhas. De galochas cor-de-rosa e tiara, ele ataca em cena sempre com uma companhia não menos espalhafatosa (há duas semanas, tirou carrapatos de ovelhas ao lado da socialite Narcisa Tamborindeguy). Coincidência ou não, antes de Simple Life sair do papel Brazil tinha atuado com Karina Bacchi numa produção independente inspirada no programa americano. Como informa Karina, a série Querido Diário chegou a ser mostrada à Fox, detentora dos direitos sobre o reality show. Além disso, conquistou alguma popularidade no YouTube. A emissora de Silvio Santos nega qualquer imitação – diz que o Trocando as Bolas é um quadro antigo que foi reformulado (em tempo: a Fox não vê razão para processar o SBT). Disputas à parte, o episódio põe em evidência o que se pode chamar de "efeito manada": a tendência de as redes investirem em idéias já testadas, em vez de programas originais. Tempos atrás, ironicamente, o próprio Silvio foi à Justiça para proibir um humorista da Record, Tom Cavalcante, de imitar seus quadros famosos. Agora, é a Globo que não descarta processar o mesmo Tom por suas paródias dos programas de Ana Maria Braga e Faustão.

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