Quando não
houver mais nada no mundo, nenhum sentido em estar vivo, o
que restará ao homem? Seguir em frente, sempre em frente
eis a resposta do americano Cormac McCarthy, 74 anos,
em A Estrada (tradução de Adriana
Lisboa; Objetiva/Alfaguara; 240 páginas; 33,90 reais),
prêmio Pulitzer deste ano, que chega às livrarias
brasileiras na próxima semana. Autor de romances primorosos,
entre eles Todos os Belos Cavalos um dos títulos
de sua Trilogia da Fronteira e Meridiano
Sangrento, McCarthy atualizou a paisagem mítica
americana por excelência: o Oeste sem lei. O novo romance
se afasta um tanto dessa matriz. É uma história
futurista, com cores de ficção científica.
A obra também marcou uma inédita concessão
publicitária do escritor. Avesso a entrevistas e badalações,
à maneira de um J.D. Salinger, McCarthy topou, neste
ano, conceder uma entrevista a Oprah Winfrey, a primeira-dama
da TV americana. Essa poderosa divulgação levou
os editores a antecipar o lançamento da versão
em brochura de A Estrada, com uma impressionante tiragem
inicial de 900.000 cópias.
Divulgação
Cormac McCarthy: recluso, mas
topou falar com Oprah Winfrey
A Estrada se vale da lógica da narrativa on the
road, dando um novo sentido a essa tradição.
No lugar dos jovens transviados que recusam o sistema e o
questionam numa viagem cega pelo país, McCarthy apresenta
um pai e um filho que se movem numa terra devastada. O planeta
foi destruído por uma hecatombe qualquer, e não
restam animais, comida, plantas apenas cinzas. Projeção
de nossos medos mais profundos, esse tempo futuro parece reeditar
uma idade primitiva. Os poucos sobreviventes comem carne humana.
A cena mais chocante do livro é quando, faminto, o
pai arromba um porão onde julga haver comida estocada.
Mas o alimento agora são pessoas vivas (uma com as
pernas já removidas), que serviam de repasto a essa
nova horda de canibais. Fugindo, horrorizados, desta prática,
o pai e o filho lutam para sobreviver sem chegar a esse grau
de selvageria. Contam, como último recurso, com duas
balas no revólver, uma para cada um.
O filho já
nasceu nessa realidade terrível. Sua mãe preferiu
o suicídio, mas o pai desenvolveu nele uma crença
na humanidade, apesar dos exemplos contrários. Eles
são "os caras do bem", que buscam outros iguais, ainda
que sejam caçados durante a jornada. Mesmo sem nenhuma
perspectiva, esses heróis continuam praticando sua
crença na estrada. Diz o pai no final do romance: "Você
tem que continuar seguindo. Não sabe o que pode haver
adiante na estrada". E ele diz isso logo depois de ver frustrado
o desejo de mostrar o mar azul ao filho, pois o encontraram
tão cinzento quanto o céu. A trajetória
dos dois personagens é uma viagem ao inferno, descrita
com uma crueza que deixa o leitor sem fôlego. O mundo
pós-apocalíptico de McCarthy tem uma intensidade
terrivelmente plausível. A única forma de enfrentá-lo
seria pelo exercício da bondade, cultuado no romance
como uma espécie de fogo sagrado.
Lembranças
do apocalipse
Atravessaram
a cidade ao meio-dia. Estava quase toda queimada. Nenhum
sinal de vida. Carros na rua incrustada de cinzas, tudo
coberto de cinza e poeira. Rastros fósseis na
lama seca. Um cadáver na soleira de uma porta
seco feito couro. Arreganhando os dentes para o dia.
Ele puxou o menino mais para perto. Apenas se lembre
que as coisas que você põe na cabeça
ficam lá para sempre, falou.
Você
se esquece de algumas coisas, não se esquece?
Sim. Você
se esquece do que quer lembrar e se lembra do que quer
esquecer.