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5 de setembro de 2007
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Livros
Futuro selvagem

Cormac McCarthy apresenta um mundo
devastado – mas que ainda guarda esperança


Miguel Sanches Neto

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Trecho do livro

Quando não houver mais nada no mundo, nenhum sentido em estar vivo, o que restará ao homem? Seguir em frente, sempre em frente – eis a resposta do americano Cormac McCarthy, 74 anos, em A Estrada (tradução de Adriana Lisboa; Objetiva/Alfaguara; 240 páginas; 33,90 reais), prêmio Pulitzer deste ano, que chega às livrarias brasileiras na próxima semana. Autor de romances primorosos, entre eles Todos os Belos Cavalos – um dos títulos de sua Trilogia da Fronteira – e Meridiano Sangrento, McCarthy atualizou a paisagem mítica americana por excelência: o Oeste sem lei. O novo romance se afasta um tanto dessa matriz. É uma história futurista, com cores de ficção científica. A obra também marcou uma inédita concessão publicitária do escritor. Avesso a entrevistas e badalações, à maneira de um J.D. Salinger, McCarthy topou, neste ano, conceder uma entrevista a Oprah Winfrey, a primeira-dama da TV americana. Essa poderosa divulgação levou os editores a antecipar o lançamento da versão em brochura de A Estrada, com uma impressionante tiragem inicial de 900.000 cópias.

Divulgação
Cormac McCarthy: recluso, mas topou falar com Oprah Winfrey


A Estrada
se vale da lógica da narrativa on the road, dando um novo sentido a essa tradição. No lugar dos jovens transviados que recusam o sistema e o questionam numa viagem cega pelo país, McCarthy apresenta um pai e um filho que se movem numa terra devastada. O planeta foi destruído por uma hecatombe qualquer, e não restam animais, comida, plantas – apenas cinzas. Projeção de nossos medos mais profundos, esse tempo futuro parece reeditar uma idade primitiva. Os poucos sobreviventes comem carne humana. A cena mais chocante do livro é quando, faminto, o pai arromba um porão onde julga haver comida estocada. Mas o alimento agora são pessoas vivas (uma com as pernas já removidas), que serviam de repasto a essa nova horda de canibais. Fugindo, horrorizados, desta prática, o pai e o filho lutam para sobreviver sem chegar a esse grau de selvageria. Contam, como último recurso, com duas balas no revólver, uma para cada um.

O filho já nasceu nessa realidade terrível. Sua mãe preferiu o suicídio, mas o pai desenvolveu nele uma crença na humanidade, apesar dos exemplos contrários. Eles são "os caras do bem", que buscam outros iguais, ainda que sejam caçados durante a jornada. Mesmo sem nenhuma perspectiva, esses heróis continuam praticando sua crença na estrada. Diz o pai no final do romance: "Você tem que continuar seguindo. Não sabe o que pode haver adiante na estrada". E ele diz isso logo depois de ver frustrado o desejo de mostrar o mar azul ao filho, pois o encontraram tão cinzento quanto o céu. A trajetória dos dois personagens é uma viagem ao inferno, descrita com uma crueza que deixa o leitor sem fôlego. O mundo pós-apocalíptico de McCarthy tem uma intensidade terrivelmente plausível. A única forma de enfrentá-lo seria pelo exercício da bondade, cultuado no romance como uma espécie de fogo sagrado.

 

Lembranças do apocalipse

Atravessaram a cidade ao meio-dia. Estava quase toda queimada. Nenhum sinal de vida. Carros na rua incrustada de cinzas, tudo coberto de cinza e poeira. Rastros fósseis na lama seca. Um cadáver na soleira de uma porta seco feito couro. Arreganhando os dentes para o dia. Ele puxou o menino mais para perto. Apenas se lembre que as coisas que você põe na cabeça ficam lá para sempre, falou.

Você se esquece de algumas coisas, não se esquece?

Sim. Você se esquece do que quer lembrar e se lembra do que quer esquecer.

Trecho de A Estrada

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