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5 de setembro de 2007
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Livros
Antiquado, incorreto
e divertido

O livro que se tornou best-seller ensinando pais
e filhos a praticar brincadeiras do tempo dos avós


Jerônimo Teixeira

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Trecho do livro

O pai preocupado e a mãe superprotetora não devem levar muito a sério o título O Livro Perigoso para Garotos (tradução de Maria Beatriz de Medina; 320 páginas; 69 reais), que chega às livrarias no fim desta semana, como carro-chefe do Galera, o recém-inaugurado selo jovem da editora Record. Sim, os autores – os irmãos Conn e Hal Iggulden, de 36 e 34 anos, ambos responsáveis pais de família – ensinam meninos a fabricar uma variedade de engenhocas bélicas: atiradeira, arco-e-flecha, catapulta. Será difícil encontrar, porém, uma leitura mais saudável. Seu objetivo declarado é arrancar a garotada da frente do videogame e devolvê-la às brincadeiras rústicas ao ar livre. Trata-se de um livro nostálgico, que remete a um tempo em que a rua ainda era segura para correrias infantis.

Organizado (assim como esta resenha) na forma assumidamente anacrônica de um almanaque, com capítulos de "faça você mesmo" alternando-se com uma miscelânea de temas – gramática, pirataria, dinossauros –, O Livro Perigoso para Garotos é o mais improvável dos best-sellers dos últimos tempos. Vendeu cerca de 1 milhão de exemplares na Inglaterra, país natal dos autores. A Disney já comprou os direitos de filmagem, apesar da total ausência de enredo. O livro não dá a mínima para cartilhas pedagogicamente corretas, e houve até quem o acusasse de machista. Suas sugestões galantes de como tratar as perigosas garotas (não arrotar diante delas, oferecer o lenço quando choram etc.) têm mesmo um toque antiquado – que é, afinal, o charme do livro. Desdenhoso de invenções modernas como o iPod e o feminismo, O Livro Perigoso para Garotos tem o potencial de divertir igualmente os meninos que redescobrem brincadeiras avoengas e seus pais saudosistas.

 

A cultura eclética do garoto perigoso

 
Ilustrações Natalia Forcat

O Livro Perigoso para Garotos não descuida do lustro cultural dos leitores. É uma espécie de contrabando: o menino abre o livro em busca da dobra perfeita para um aviãozinho de papel, mas no caminho vai aprendendo até algumas matérias escolares, como língua portuguesa.

Reprodução
Machado de Assis


As dicas de livros são ecléticas, trazendo de clássicos da literatura infantil como os contos de Andersen e dos irmãos Grimm à ficção barata de Ian Fleming (o criador de James Bond) e Stephen King.

A edição brasileira incluiu obras nacionais como Capitães da Areia, de Jorge Amado, e o obrigatório Monteiro Lobato. Outra adaptação curiosa: o capítulo de frases famosas de Shakespeare foi substituído por citações de Machado de Assis.

 

 

Brincadeiras arriscadas – e irresistíveis

 

O primeiro capítulo de O Livro Perigoso para Garotos apresenta o equipamento básico que todo menino deve ter sempre à mão.

A lista de onze itens inclui canivete, caixa de fósforos, anzol. Muitos pais não aprovam que seus filhos lidem com objetos cortantes, perfurantes ou potencialmente incendiários. É nesse sentido que se justifica o adjetivo do título: o livro dos irmãos Iggulden é "perigoso" porque propõe uma meninice menos cercada de proteção paranóica, menos higienizada pela correção política. Os capítulos fundamentais são aqueles que ensinam atividades que podem, sim, resultar em um galo na testa ou um joelho arranhado – mas que divertem. A construção de uma casa na árvore não é muito viável em áreas urbanas. Mas há brinquedos fáceis de fazer, como a pipa, o estilingue (os autores recomendam que as pedras nunca sejam arremessadas na direção do irmão mais novo) e o avião de papel. Bolas de gude seguem sendo fabricadas – só uma indústria com sede em São Paulo, a Tok Boll, produz 300 000 por mês (a produção, no entanto, caiu 20% nos últimos dez anos).

E o carrinho de rolimã ainda é popular – em São Paulo, há um campeonato que já dura vinte anos (mas só com marmanjos na direção). O livro também ensina jogos que podem ser praticados em casa, como o pôquer (só tem graça com apostas reais, mesmo que sejam moedinhas, dizem os autores). O capítulo mais "incorreto" do original ficou de fora da edição brasileira: como caçar e cozinhar um coelho.

 

Histórias de grandes homens para pequenos leitores

 



Jonne Roriz/AE
Amyr Klink


Antes do livro em parceria com o irmão Hal, Conn Iggulden era conhecido por O Imperador, uma série de romances sobre a Roma antiga. O Livro Perigoso para Garotos reforça a mesma visão de história: uma sucessão de feitos audazes e de grandes homens. Muitos historiadores torcem o nariz para esse tipo de narrativa. Mas, convenhamos, é o modo mais imediato de fascinar um garoto. O capítulo sobre o império britânico do original foi substituído, na edição brasileira, por uma breve história do Brasil que não se conjuga bem com esse espírito heróico (insiste na oposição entre povo oprimido e elite canalha). As demais adaptações foram mais felizes. As breves biografias de aventureiros incluem brasileiros como o navegador Amyr Klink.

A seção de grandes batalhas fala até da campanha contra Canudos. É uma bela ousadia: que outro livro convidaria a meninada a ler um trecho de Os Sertões, de Euclides da Cunha?

 

A infância é só para os fortes

 

A epígrafe de O Livro Perigoso para Garotos traz uma longa citação de um tal sir Frederick Treves no jornal para crianças The Boy's Own Paper. "Não se gabe" e "mantenha-se limpo de corpo e mente" são alguns dos conselhos que esse cavaleiro vitoriano dava aos pequenos leitores, em 1903. Os irmãos Iggulden tentam recuperar esse espírito edificante típico dos almanaques infantis do século XIX e início do XX. Parece estranho que um livro que se anuncia como perigoso tenha um fundo moralista, mas a idéia é que a educação do menino pode se beneficiar de certas práticas rudes, viris – mas não da violência virtual e sem conseqüências dos videogames. "Os meninos precisam aprender a correr riscos", disse Conn Iggulden em uma entrevista no site da livraria virtual Amazon.

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