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Livros
Antiquado, incorreto
e divertido
O livro que se tornou
best-seller ensinando pais
e filhos a praticar brincadeiras do tempo dos avós

Jerônimo Teixeira
O pai preocupado
e a mãe superprotetora não devem levar muito
a sério o título O Livro Perigoso para
Garotos (tradução de Maria Beatriz de
Medina; 320 páginas; 69 reais), que chega às
livrarias no fim desta semana, como carro-chefe do Galera,
o recém-inaugurado selo jovem da editora Record. Sim,
os autores os irmãos Conn e Hal Iggulden, de
36 e 34 anos, ambos responsáveis pais de família
ensinam meninos a fabricar uma variedade de engenhocas
bélicas: atiradeira, arco-e-flecha, catapulta. Será
difícil encontrar, porém, uma leitura mais saudável.
Seu objetivo declarado é arrancar a garotada da frente
do videogame e devolvê-la às brincadeiras rústicas
ao ar livre. Trata-se de um livro nostálgico, que remete
a um tempo em que a rua ainda era segura para correrias infantis.
Organizado (assim
como esta resenha) na forma assumidamente anacrônica
de um almanaque, com capítulos de "faça você
mesmo" alternando-se com uma miscelânea de temas
gramática, pirataria, dinossauros , O Livro
Perigoso para Garotos é o mais improvável
dos best-sellers dos últimos tempos. Vendeu cerca de
1 milhão de exemplares na Inglaterra, país natal
dos autores. A Disney já comprou os direitos de filmagem,
apesar da total ausência de enredo. O livro não
dá a mínima para cartilhas pedagogicamente corretas,
e houve até quem o acusasse de machista. Suas sugestões
galantes de como tratar as perigosas garotas (não arrotar
diante delas, oferecer o lenço quando choram etc.)
têm mesmo um toque antiquado que é, afinal,
o charme do livro. Desdenhoso de invenções modernas
como o iPod e o feminismo, O Livro Perigoso para Garotos
tem o potencial de divertir igualmente os meninos que redescobrem
brincadeiras avoengas e seus pais saudosistas.
A cultura
eclética do
garoto perigoso
Ilustrações
Natalia Forcat
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O Livro Perigoso
para Garotos não
descuida do lustro cultural dos leitores. É uma espécie
de contrabando: o menino abre o livro em busca da dobra perfeita
para um aviãozinho de papel, mas no caminho vai aprendendo
até algumas matérias escolares, como língua
portuguesa.
Reprodução
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| Machado
de Assis |
As dicas de livros são ecléticas, trazendo de
clássicos da literatura infantil como os contos de
Andersen e dos irmãos Grimm à ficção
barata de Ian Fleming (o criador de James Bond) e Stephen
King.
A edição
brasileira incluiu obras nacionais como Capitães
da Areia, de Jorge Amado, e o obrigatório Monteiro
Lobato. Outra adaptação curiosa: o capítulo
de frases famosas de Shakespeare foi substituído por
citações de Machado de Assis.
Brincadeiras arriscadas
e irresistíveis
O primeiro capítulo
de O Livro Perigoso para Garotos apresenta o equipamento
básico que todo menino deve ter sempre à mão.
A lista de onze itens
inclui canivete, caixa de fósforos, anzol. Muitos pais
não aprovam que seus filhos lidem com objetos cortantes,
perfurantes ou potencialmente incendiários. É
nesse sentido que se justifica o adjetivo do título:
o livro dos irmãos Iggulden é "perigoso" porque
propõe uma meninice menos cercada de proteção
paranóica, menos higienizada pela correção
política. Os capítulos fundamentais são
aqueles que ensinam atividades que podem, sim, resultar em
um galo na testa ou um joelho arranhado mas que divertem.
A construção de uma casa na árvore não
é muito viável em áreas urbanas. Mas
há brinquedos fáceis de fazer, como a pipa,
o estilingue (os autores recomendam que as pedras nunca sejam
arremessadas na direção do irmão mais
novo) e o avião de papel. Bolas de gude seguem sendo
fabricadas só uma indústria com sede
em São Paulo, a Tok Boll, produz 300 000 por mês
(a produção, no entanto, caiu 20% nos últimos
dez anos).
E o carrinho de rolimã
ainda é popular em São Paulo, há
um campeonato que já dura vinte anos (mas só
com marmanjos na direção). O livro também
ensina jogos que podem ser praticados em casa, como o pôquer
(só tem graça com apostas reais, mesmo que sejam
moedinhas, dizem os autores). O capítulo mais "incorreto"
do original ficou de fora da edição brasileira:
como caçar e cozinhar um coelho.
Histórias
de grandes homens para
pequenos leitores
Jonne
Roriz/AE
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| Amyr Klink |
Antes do livro em parceria com o irmão Hal, Conn Iggulden
era conhecido por O Imperador, uma série de
romances sobre a Roma antiga. O Livro Perigoso para Garotos
reforça a mesma visão de história: uma
sucessão de feitos audazes e de grandes homens. Muitos
historiadores torcem o nariz para esse tipo de narrativa.
Mas, convenhamos, é o modo mais imediato de fascinar
um garoto. O capítulo sobre o império britânico
do original foi substituído, na edição
brasileira, por uma breve história do Brasil que não
se conjuga bem com esse espírito heróico (insiste
na oposição entre povo oprimido e elite canalha).
As demais adaptações foram mais felizes. As
breves biografias de aventureiros incluem brasileiros como
o navegador Amyr Klink.
A seção
de grandes batalhas fala até da campanha contra Canudos.
É uma bela ousadia: que outro livro convidaria a meninada
a ler um trecho de Os Sertões, de Euclides
da Cunha?
A infância
é só para os fortes
A epígrafe de
O Livro Perigoso para Garotos traz uma longa citação
de um tal sir Frederick Treves no jornal para crianças
The Boy's Own Paper. "Não se gabe" e "mantenha-se
limpo de corpo e mente" são alguns dos conselhos que
esse cavaleiro vitoriano dava aos pequenos leitores, em 1903.
Os irmãos Iggulden tentam recuperar esse espírito
edificante típico dos almanaques infantis do século
XIX e início do XX. Parece estranho que um livro que
se anuncia como perigoso tenha um fundo moralista, mas a idéia
é que a educação do menino pode se beneficiar
de certas práticas rudes, viris mas não
da violência virtual e sem conseqüências
dos videogames. "Os meninos precisam aprender a correr riscos",
disse Conn Iggulden em uma entrevista no site da livraria
virtual Amazon.
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