Os
valores nunca foram revelados, mas um acordo milionário
deu à AT&T o direito de ser a operadora exclusiva
nos Estados Unidos do iPhone, lançado no fim de junho.
O aparelho, que revolucionou o conceito de celular, sai de
fábrica programado para funcionar apenas na rede da
empresa americana. Impressiona como um adolescente de 17 anos,
com a ajuda de colaboradores encontrados na internet, precisou
de apenas dois meses de trabalho para pôr abaixo a barreira
tecnológica erguida por duas empresas poderosas. Na
semana passada, o estudante George Hotz, que vive nos arredores
de Nova York, colocou instruções on-line do
método desenvolvido por ele para desbloquear o iPhone
e permitir que seja conectado a qualquer operadora. Não
foi o único a destravar o aparelho da Apple. Um grupo
de jovens desenvolveu um programa que, combinado a um dispositivo
fabricado na República Checa, engana o sistema de bloqueio
do iPhone e permite que seja usado como telefone em qualquer
país.
Duas batalhas simultâneas
estão sendo travadas em torno do bloqueio do iPhone.
Na comunidade global criada pela internet existe pouca tolerância
em relação a travas adotadas pelos fabricantes
para proteger seus produtos da pirataria. A segunda batalha
é mais antiga. Tem origem no fascínio despertado
pelos códigos secretos e pelo desejo natural de desvendá-los.
Na verdade, há um elo comum entre o computador e a
decifração de documentos criptografados. Na
II Guerra, o matemático inglês Alan Turing, um
dos pais da computação, chefiou a equipe que
quebrou o código Enigma, usado pelos alemães
para a sua comunicação por rádio. O trabalho
de Turing manteve os aliados abastecidos de informações
secretas nazistas durante o conflito. Agora, com a rede mundial
de computadores, o processo da destruição de
códigos criptografados tornou-se uma tarefa popular
e, muitas vezes, rendosa. Nenhum sistema pode ser considerado
a salvo do esforço coletivo na internet.
Para resolver o
enigma do iPhone, Hotz organizou uma comunidade na internet
que chegou a reunir 250 pessoas de várias nacionalidades.
O adolescente, que usou seu quarto como laboratório
e estava em férias no verão americano, disse
ter dedicado 500 horas ao projeto. Concluído o processo,
ele assinou um dos iPhones liberados e o colocou à
venda no eBay como uma "peça da história da
telefonia celular". Em lugar de vender o aparelho, aceitou
uma oferta feita pela CertiCell, empresa que faz reparos de
celulares. Hotz trocou o telefone "histórico" por um
carro esportivo Nissan 350Z, que custa 235 000 reais no Brasil,
e outros três iPhones. Ainda conseguiu um emprego na
CertiCell. "Foram férias proveitosas", resumiu Hotz,
que quer estudar neurociência.
Os dois sistemas
já anunciados são um tanto rudimentares e de
difícil aplicação mas coisa melhor
não deve demorar a aparecer. Um grupo formado por israelenses
e uma empresa com sede em Belfast, na Irlanda do Norte, dizem
ter desenvolvido softwares para o desbloqueio do iPhone, o
que seria um método mais simples e eficiente. É
contra esse tipo de adversários, com contornos de indústria,
que a Apple e a AT&T terão de lutar. O sucesso
na batalha é duvidoso, mesmo sob o ponto de vista legal.
Isso porque os americanos que conseguiram abrir as travas
do iPhone valeram-se de uma brecha na legislação
de direitos autorais, o Digital Millennium Copyright Act (DMCA),
que permite aos consumidores o desbloqueio de celulares. A
discussão legal agora é se eles podem expor
seus métodos na internet ou aferir qualquer vantagem
com isso. Seja qual for o desfecho da pendência, a guerra
contra os decifradores de códigos dificilmente será
vencida.
Dois métodos
para mudar de operadora
COM SOLDA
ELÉTRICA
Desenvolvido
pelo adolescente americano George Hotz, exige que o
iPhone seja aberto. Não é tarefa simples,
pois o aparelho não tem parafusos externos. Hotz
usou solda elétrica para provocar curtos-circuitos
e apagar as informações gravadas em dois
chips, um deles responsável pelo reconhecimento
do cartão original da AT&T. Num segundo passo,
que exige o emprego de nove softwares e trinta aplicativos,
os dados da nova operadora são transferidos para
o iPhone.
O TRUQUE
DO CARTÃO
Um software
transfere os dados do cartão original da AT&T
para um pequeno dispositivo, com aparência de
um envelope, chamado Turbo Sim, fabricado pela empresa
checa Bladox. O cartão da nova operadora é
colocado dentro do Turbo Sim. As informações
originais da AT&T iludem o sistema de proteção
do iPhone e fazem com que o aparelho funcione. Mas as
ligações são feitas por meio do
cartão da nova operadora, colocado dentro do
Turbo Sim.