O velejador paulista
Roberto Pandiani só vê graça em ganhar
o mar quando se impõe desafios. Sempre a bordo de catamarãs,
pequenos veleiros com 7 metros de comprimento e sem cabine,
ele atravessou a Passagem de Drake, trecho traiçoeiro
de mar entre a América do Sul e a Península
Antártica. De outra feita, foi de Nova York à
Groenlândia. No início do mês que vem,
Pandiani embarca em sua maior aventura até hoje. Acompanhado
do francês Igor Bely, amigo e também velejador,
ele vai atravessar o Pacífico Sul entre o Chile e a
Austrália, percorrendo 17 400 quilômetros. Será
a sua primeira travessia de longa distância em mar aberto.
Em alguns trechos da viagem, a dupla velejará vários
dias e noites sem parar. Eles se revezarão à
frente do leme a cada duas horas. À noite, enquanto
um pilota, o outro dorme amarrado a um prolongamento do casco.
É preciso força de vontade para encarar tantos
dias no mar confinado num espaço de 16 metros quadrados,
muitas vezes sob sol inclemente. Ao contrário do que
ocorreu em suas viagens anteriores, desta vez Pandiani dispensou
a chamada equipe de apoio barco que costuma acompanhar
velejadores aventureiros como ele a curta distância
para o caso de uma eventual emergência. "Planejamos
tudo à perfeição para não ter
de enfrentar nenhum problema", diz Pandiani, de 50 anos.
Lailson Santos
Pandiani, Bely e o catamarã
com o qual vão cruzar o Pacífico Sul: quinze
dias sem paradas do litoral chileno à Ilha de Páscoa
Dispensar a equipe
de apoio numa viagem marítima desse porte só
é possível porque, hoje, as aventuras radicais
contam com um enorme aparato tecnológico. O catamarã
de Pandiani e Bely é dotado de um dispositivo rastreador
que a cada três horas informa a posição
do barco às bases navais situadas no Pacífico
Sul. Os velejadores terão acesso à internet
a qualquer momento, através de uma conexão por
satélite, usando um laptop à prova d'água
e resistente a choques. Também por meio da internet,
Pandiani e Bely receberão regularmente boletins meteorológicos.
Eventuais alertas sobre a proximidade de tempestades serão
fornecidos com quatro dias de antecedência, o que permitirá
aos velejadores traçar uma rota alternativa, mais segura.
O catamarã contará com painéis solares
que gerarão energia para manter o laptop, os rádios
e outros aparelhos eletrônicos funcionando. Para se
protegerem do sol, os velejadores utilizarão roupas
especiais que agem como filtros solares, bloqueando os raios
ultravioleta. "Não sou louco. Se posso usar a tecnologia
para aumentar minha segurança, por que não fazê-lo?",
indaga Pandiani.
AP
O alpinista Mark Inglis: próteses
no lugar das pernas não o impediram de escalar
o Everest
Tamanho aparato tecnológico sugere que, hoje, é
cada vez mais raro empreender grandes feitos com o mesmo espírito
de aventura de antigamente. Até há pouco tempo,
atravessar o Pacífico num barquinho a vela, subir o
Monte Everest ou explorar a Antártica eram missões
extremamente arriscadas, às vezes suicidas, com uma
aura romântica que desapareceu. O Everest se tornou
destino turístico de excursões. Até um
alpinista que usa próteses no lugar das pernas amputadas
já o escalou como forma de desafio pessoal. A conseqüência
disso é que aumentou de forma espetacular o número
de pessoas que se dedicam às grandes aventuras e aos
esportes radicais. Há também mais dinheiro por
trás dos aventureiros. Disse a VEJA o neozelandês
Douglas Booth, professor de história do esporte: "Em
meados dos anos 90, as atividades radicais passaram a receber
enormes injeções de dinheiro em forma de patrocínio
de grandes empresas. Elas perceberam que esses esportistas
despertam mais a curiosidade de uma grande fatia do público
do que as corriqueiras partidas de futebol".
Mesmo a maior das
aventuras até hoje empreendidas pelo homem, as viagens
ao espaço, está prestes a se banalizar. Quando
o cosmonauta Yuri Gagarin entrou em órbita e anunciou
que a Terra é azul, o mundo ficou maravilhado. Hoje,
um ricaço com 20 milhões de dólares sobrando
na conta bancária pode reservar um lugar numa nave
e passar férias na Estação Espacial Internacional.
Em conseqüência da banalização das
grandes aventuras, os esportistas hoje buscam agregar características
inéditas a seus feitos para se diferenciar. Isso propiciou
o surgimento, por exemplo, dos supermaratonistas, que correm
24 horas seguidas, sem parar nem para comer ou ir ao banheiro.
Nos esportes náuticos, o velejador Amir Klink tornou-se
o primeiro a cruzar o Atlântico Sul a remo. Ao escolher
sua aventura, Roberto Pandiani segue a trilha dos aventureiros
em busca de feitos únicos. Diz Amir Klink sobre o colega:
"Cruzar o Pacífico Sul num pequeno catamarã
sem cabine é como escalar o Everest calçando
apenas sandálias Havaianas. Não é qualquer
um que consegue essa proeza".