Realeza Os dois últimos corpos.
Mas o enigma continua
Descoberta dos ossos
de filhos do último czar
russo reforça nostalgia do passado imperial
Duda Teixeira
AFP
Ossos de Alexei e Maria: a família
foi canonizada após a queda do comunismo
Noventa
anos após a tomada de poder pelos bolcheviques, a Rússia
parece, enfim, ter se reconciliado com o seu passado imperial.
No mês passado, um grupo de arqueólogos anunciou
a descoberta dos restos mortais de Alexei e de Maria Romanov,
dois dos cinco filhos do último czar russo, Nicolau
II. Quarenta e quatro fragmentos de ossos, sete dentes, três
balas e um pedaço de roupa foram encontrados em escavações
em Ekaterinburgo, na Sibéria, onde a família,
um médico e três criados permaneceram em cativeiro
até ser assassinados a tiros e a golpes de baioneta
pelos comunistas, em 17 de julho de 1918. Os ossos passarão
por testes de DNA e, se comprovada a sua autenticidade, serão
sepultados na Catedral de São Pedro e São Paulo,
em São Petersburgo, onde estão os restos do
czar e dos demais membros da família. Os achados remetem
ao banho de sangue que ocorreu em 1917, durante a Revolução
Russa, e nos anos seguintes, quando os bolcheviques exterminaram
tudo e todos que simbolizassem o antigo regime, incluindo
donos de terras, nobres e membros do clero. A retórica
dos comunistas era a de que eles estavam do lado do bem, e
a nobreza representava o mal a ser extirpado. "Sete décadas
de regime soviético, que incluíram períodos
de grande atrocidade sob Lenin e Josef Stalin, fizeram com
que os russos invertessem a balança entre bem e mal
em sua história", disse a VEJA o historiador americano
Mark Steinberg, autor do livro A Queda dos Romanov.
O sofrimento da realeza russa em seus derradeiros dias é
interpretado por muitos russos, hoje, como um sinal de virtude.
De certa forma, a descoberta dos restos de Alexei e de Maria,
os últimos que faltavam, fecha um ciclo na saga da
família de mártires. Não resolve, contudo,
o enigma histórico representado pelo governo do último
czar e sua responsabilidade na criação do caos
político e social que culminou com a ditadura comunista.
A vala com os ossos
dos outros cinco membros da família do czar foi descoberta
em 1976, ainda durante a era soviética, e permaneceu
em segredo. O mistério sobre o destino dos corpos levou
oportunistas a se proclamarem membros da família real
que escaparam do massacre. O objetivo era pôr a mão
na fortuna dos Romanov guardada em bancos suíços
ou, simplesmente, ganhar notoriedade. Em 1991, ano em que
a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
se desintegrou, os corpos foram finalmente exumados. Com a
Rússia livre do ateísmo compulsório,
a Igreja Ortodoxa prontamente reabilitou os Romanov, que foram
canonizados em 2000 com o aval do presidente Vladimir Putin.
Para os ortodoxos, a família merece o título
pela piedade e religiosidade demonstradas nos últimos
dias de cativeiro. O culto da memória do czar e sua
família, hoje, também pode ser entendido no
contexto do cunho nacionalista do governo Putin, que acaba
por estimular a nostalgia por momentos gloriosos do passado.
De Ivan, o Terrível, aos Romanov, a moda na Rússia
é ressaltar os aspectos positivos de figuras históricas.
Nicolau II, o czar anti-semita e autoritário que se
considerava um representante de Deus na terra, agora é
visto como um exemplo das virtudes de um poder forte e centralizador
o que vem bem a calhar para o autoritário Putin.
São fortes
os indícios de que os ossos encontrados no mês
passado pertencem aos filhos de Nicolau II. Os estudos feitos
até agora confirmam que são de um rapaz de 10
a 13 anos e de uma mulher de 18 a 23 anos. Alexei, o príncipe
herdeiro, tinha 13 anos na época, e sua irmã
Maria, 19. Junto dos fragmentos também foram encontradas
peças de cerâmica japonesas, usadas para carregar
ácido sulfúrico. Segundo um antigo relato do
bolchevique que enterrou os corpos, a substância foi
utilizada para desfigurar os corpos e, assim, dificultar o
reconhecimento pelo Exército Branco. Isso porque, nos
cinco anos que se seguiram à revolução,
tropas apoiadas pela França, pela Inglaterra e pelos
Estados Unidos lutaram contra os comunistas. Em meio aos combates,
Lenin deixou claro que os Romanov não poderiam permanecer
como símbolos vivos do antigo regime. Em 1918, quando
os brancos estavam a apenas 40 quilômetros do local
de prisão da família real, Moscou deu ordem
para executar a todos. Na madrugada do dia 17 de julho, os
Romanov foram acordados e desceram para uma sala no porão.
Nicolau levava o filho Alexei, hemofílico, nos braços.
Doze homens armados entraram na sala e, durante quase três
minutos, atiraram nos cativos. Algumas balas ricochetearam,
porque as duquesas carregavam 8 quilos de diamantes e jóias
preciosas nos espartilhos. Os guardas, então, recorreram
às baionetas para acabar com os sobreviventes. Após
enterrarem Alexei e Maria, os bolcheviques foram obrigados
a escolher novo local para sepultar os outros corpos, pois
tinham sido vistos por alguns camponeses. A descoberta das
peças que faltavam na tragédia dos Romanov deve
dar ainda mais força à mitificação
de sua história.