Jeans surrados, nenhum
compromisso sério e
muita farra aos 40 anos: assim são os adultescentes
Ronaldo Soares
Daniel Aratangy
ROMANCES
DESCARTÁVEIS Luís Maida: aos 43 anos, o publicitário
paulista investe em conquistas amorosas de mulheres mais
jovens e admite que seus relacionamentos nunca duram muito
tempo
Sabe aquele amigo
que já passou dos 40 anos mas parece ignorar o curso
do tempo, ainda mora com os pais e não leva muito adiante
nenhum namoro? Repare se ele abomina assuntos como extrato
bancário mas sabe de cor aquelas letras de rock absolutamente
arcanas para quem já passou dos 20. Note se ele vive
pulando de um emprego para outro, acha que o bacana mesmo
é ter uma banda e o guarda-roupa não tem nada
além de tênis, camiseta e um jeans surrado. Se
a maior parte dessas características se encaixar em
quem você está pensando, são grandes as
chances de você conhecer um típico "adultescente".
O termo define aquelas pessoas cuja carteira de motorista
foi tirada antes de 1985 mas ainda não se deram conta
de nada disso. O termo surgiu na imprensa britânica
e, nos Estados Unidos, se popularizou como grups (contração
de grown ups, adultos em inglês). O neologismo
foi criado pela revista New York para descrever o fenômeno
presente em qualquer grande centro urbano do planeta. "Isso
está ligado a uma percepção de que não
existe sentido positivo na vida adulta. Para essas pessoas,
envelhecer é uma experiência negativa", disse
a VEJA o sociólogo britânico Frank Furedi, professor
da Universidade de Kent, na Inglaterra, e estudioso de comportamentos
da sociedade contemporânea.
Oscar Cabral
"PIN-UP
DE BRECHÓ" A carioca Gisele Freitas, de 42 anos, com franja
colorida, noites ao som de rock e música eletrônica:
na flor da "adultescência"
Numa prova de que
a criatura pode ajudar o criador, alguns adultescentes assumem
com tamanha perfeição o estilo de vida das gerações
mais novas que acabam incorporando à fisionomia certo
ar de adolescente. A carioca Gisele Freitas tem 42 anos, mas
o cabelo preto adornado por uma franja rosa e o ritmo de vida
noturna juvenil nem deixam perceber. "Sou meio moderninha,
meio pin-up de brechó", define ela mesma, que
passa a maior parte de suas noites se revezando entre barzinhos
e pistas de dança embaladas por música eletrônica.
Ao final dessa jornada, lá está ela de volta
ao apartamento onde mora com o pai, em Ipanema, Zona Sul do
Rio de Janeiro. Tudo isso, claro, quando não tem trabalho
no dia seguinte. Gisele é cabeleireira num dos salões
mais badalados pela tribo de moderninhos do Rio de Janeiro.
"Ninguém diz que tenho 42 anos. Me dão, no máximo,
30", garante.
Oscar Cabral
ETERNA
JUVENTUDE
Maurício, aos 37 anos e sem preocupações com o futuro:
"Só o corpo envelhece"
Releve-se qualquer exagero. Ter 40 anos hoje é mesmo
diferente do que era há três ou quatro décadas,
quando a expectativa de vida não chegava aos 50 anos.
O aumento do tempo de vida produziu uma mudança na
forma de viver de todas as pessoas. Assim como alguém
de 70 anos já não se comporta como quem está
no fim da linha, o termo quarentão já não
está necessariamente atrelado a uma sobriedade no jeito
de se vestir e agir. O fenômeno dos adultescentes é
parte dessa mudança, que não começou
agora. No início dos anos 80, ela foi captada e descrita
como a síndrome de Peter Pan. Um típico exemplar
da espécie tem hábitos inconcebíveis
há alguns anos, como uma deliberada despreocupação
com coisas como ascensão profissional, casa própria
e seguro de vida.
O lado preocupante
da adultescência é quando, do ponto de vista
psicológico, o que parece ser apenas uma forma despreocupada
de levar a vida assume um caráter patológico.
Se for apenas um comportamento ligado à aparência,
não há grandes problemas. O publicitário
paulista Luís Maida, de 43 anos, se vale desse artifício
como trunfo em suas conquistas amorosas. De preferência,
mulheres na faixa etária que se situa duas décadas
abaixo da sua, dispostas a relacionamentos descartáveis.
"Meus namoros duram no máximo dois anos, e sempre com
mulheres mais jovens, de 20 e poucos anos. Prefiro as mais
novas, gosto de crescer junto com elas", diz. Nada de mais.
Afinal, trata-se apenas de um estilo de vida. Como diz o técnico
de som Maurício Garcia, de 37 anos, "o que envelhece
é o corpo". Do alto de sua sabedoria adultescente,
Garcia parece saber o que diz.