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5 de setembro de 2007
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Comportamento
Adolescência espichada

Jeans surrados, nenhum compromisso sério e
muita farra aos 40 anos: assim são os adultescentes


Ronaldo Soares

Daniel Aratangy
ROMANCES DESCARTÁVEIS
Luís Maida: aos 43 anos, o publicitário paulista investe em conquistas amorosas de mulheres mais jovens e admite que seus relacionamentos nunca duram muito tempo

Sabe aquele amigo que já passou dos 40 anos mas parece ignorar o curso do tempo, ainda mora com os pais e não leva muito adiante nenhum namoro? Repare se ele abomina assuntos como extrato bancário mas sabe de cor aquelas letras de rock absolutamente arcanas para quem já passou dos 20. Note se ele vive pulando de um emprego para outro, acha que o bacana mesmo é ter uma banda e o guarda-roupa não tem nada além de tênis, camiseta e um jeans surrado. Se a maior parte dessas características se encaixar em quem você está pensando, são grandes as chances de você conhecer um típico "adultescente". O termo define aquelas pessoas cuja carteira de motorista foi tirada antes de 1985 mas ainda não se deram conta de nada disso. O termo surgiu na imprensa britânica e, nos Estados Unidos, se popularizou como grups (contração de grown ups, adultos em inglês). O neologismo foi criado pela revista New York para descrever o fenômeno presente em qualquer grande centro urbano do planeta. "Isso está ligado a uma percepção de que não existe sentido positivo na vida adulta. Para essas pessoas, envelhecer é uma experiência negativa", disse a VEJA o sociólogo britânico Frank Furedi, professor da Universidade de Kent, na Inglaterra, e estudioso de comportamentos da sociedade contemporânea.

Oscar Cabral
"PIN-UP DE BRECHÓ"
A carioca Gisele Freitas, de 42 anos, com franja colorida, noites ao som de rock e música eletrônica: na flor da "adultescência"

Numa prova de que a criatura pode ajudar o criador, alguns adultescentes assumem com tamanha perfeição o estilo de vida das gerações mais novas que acabam incorporando à fisionomia certo ar de adolescente. A carioca Gisele Freitas tem 42 anos, mas o cabelo preto adornado por uma franja rosa e o ritmo de vida noturna juvenil nem deixam perceber. "Sou meio moderninha, meio pin-up de brechó", define ela mesma, que passa a maior parte de suas noites se revezando entre barzinhos e pistas de dança embaladas por música eletrônica. Ao final dessa jornada, lá está ela de volta ao apartamento onde mora com o pai, em Ipanema, Zona Sul do Rio de Janeiro. Tudo isso, claro, quando não tem trabalho no dia seguinte. Gisele é cabeleireira num dos salões mais badalados pela tribo de moderninhos do Rio de Janeiro. "Ninguém diz que tenho 42 anos. Me dão, no máximo, 30", garante.

Oscar Cabral
ETERNA JUVENTUDE
Maurício, aos 37 anos e sem preocupações com o futuro: "Só o corpo envelhece"


Releve-se qualquer exagero. Ter 40 anos hoje é mesmo diferente do que era há três ou quatro décadas, quando a expectativa de vida não chegava aos 50 anos. O aumento do tempo de vida produziu uma mudança na forma de viver de todas as pessoas. Assim como alguém de 70 anos já não se comporta como quem está no fim da linha, o termo quarentão já não está necessariamente atrelado a uma sobriedade no jeito de se vestir e agir. O fenômeno dos adultescentes é parte dessa mudança, que não começou agora. No início dos anos 80, ela foi captada e descrita como a síndrome de Peter Pan. Um típico exemplar da espécie tem hábitos inconcebíveis há alguns anos, como uma deliberada despreocupação com coisas como ascensão profissional, casa própria e seguro de vida.

O lado preocupante da adultescência é quando, do ponto de vista psicológico, o que parece ser apenas uma forma despreocupada de levar a vida assume um caráter patológico. Se for apenas um comportamento ligado à aparência, não há grandes problemas. O publicitário paulista Luís Maida, de 43 anos, se vale desse artifício como trunfo em suas conquistas amorosas. De preferência, mulheres na faixa etária que se situa duas décadas abaixo da sua, dispostas a relacionamentos descartáveis. "Meus namoros duram no máximo dois anos, e sempre com mulheres mais jovens, de 20 e poucos anos. Prefiro as mais novas, gosto de crescer junto com elas", diz. Nada de mais. Afinal, trata-se apenas de um estilo de vida. Como diz o técnico de som Maurício Garcia, de 37 anos, "o que envelhece é o corpo". Do alto de sua sabedoria adultescente, Garcia parece saber o que diz.

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