Países do
Hemisfério Norte superam o Brasil
na produção de animais da fauna brasileira
Marcelo Bortoloti
Divulgação
Criatório de animais
silvestres na Espanha: já é mais fácil
achar alguns bichos típicos do Brasil em lojas
da Europa e dos Estados Unidos sem cair na mão
de traficantes
Qual é o
habitat de jibóias, papagaios e sagüis? As selvas
de clima tropical das Américas do Sul e Central seria
a resposta mais correta. Esses bichos, no entanto, estão
se tornando habitantes da Europa, sendo cada vez mais comum
encontrá-los na Inglaterra, na Holanda e na Alemanha.
Nas últimas décadas, os países do Hemisfério
Norte transformaram-se em grandes criadores legais de animais
de espécies originárias de locais como a Amazônia
e o Pantanal. A lista inclui também as araras, os iguanas
e os periquitos. O que impressiona é que a reprodução
em cativeiro dessas espécies naqueles países
já é maior do que no Brasil. A Inglaterra, com
temperatura média de 5 graus nos meses de inverno,
produz e exporta legalmente quase dez vezes mais sagüis
do que o Brasil. A Holanda tornou-se a terra dos papagaios,
e de lá saem legalmente vinte vezes mais desses bichos
do que do Brasil. Os animais da fauna brasileira engordam
o mercado mundial de pets, que movimenta 56 bilhões
de dólares por ano mas quem lucra com isso são
os criadores europeus e americanos.
O que está
por trás do desenvolvimento dessas criações
é um avanço tecnológico notável.
Foi possível produzir animais exóticos em larga
escala no Hemisfério Norte após anos de estudos
sobre como esses bichos se alimentam, se reproduzem e quais
a temperatura e o tamanho ideal de viveiro para cada espécie.
No caso de araras e papagaios, uma das principais revoluções
foi a produção em laboratório de um tipo
de secreção normalmente expelida pelas aves
adultas, que serve de alimento aos filhotes nos primeiros
quatro dias de vida. Com isso, além de se fazer a incubação
artificial, tornou-se possível alimentar os filhotes
artificialmente. Os cativeiros hoje são gerenciados
por computador e têm aparelhos como raio X e ultra-som
para acompanhar a gestação. Isso tudo permitiu
um ganho de escala que ajudou a reduzir os preços.
Nos últimos
dez anos, os criadores profissionais começaram a oferecer
espécies legalizadas a preços competitivos,
mais saudáveis e mais dóceis do que as que são
encontradas livres na natureza. Hoje, enquanto no Brasil uma
jibóia custa 900 reais no mercado legal, lá
fora o mesmo bicho é vendido pelo equivalente a 60
reais. Um iguana legalizado custa 1 200 reais no Brasil, enquanto
nos Estados Unidos o preço é de aproximadamente
80 reais. O mercado de aves de companhia cresceu muito na
Europa, hoje um grande produtor. Os grandes criatórios
estão na Holanda, na Alemanha e na Áustria.
"É mais fácil arrumar um papagaio ou uma arara
aqui na Europa do que mandá-los vir do Brasil", disse
a VEJA Pedro Oliveira, criador de aves tropicais na cidade
do Porto, em Portugal.
Não são
apenas os produtores que lucram com esse mercado. Há
uma indústria de acessórios que permite a qualquer
morador da Suécia, por exemplo, criar uma arara ou
um papagaio como se estivesse em plena Amazônia. No
caso das aves, existem gaiolas climatizadas e uma série
de vitaminas, substratos e rações compatíveis
com o padrão alimentar de cada espécie. Para
os répteis, é possível comprar ambientes
artificiais com pedras aquecidas e plataformas vibratórias
para dar a impressão de que a comida está andando.
Lojas especializadas vendem camundongos para alimentar cobras,
além de grilos, baratas e larvas de besouro para as
aves. A Fluker's Crickets Farm, nos Estados Unidos, comercializa
em média 20 milhões de grilos vivos por mês
e faz entregas até pelo correio. As lojas de animais
de estimação americanas, além de uma
enorme variedade de répteis, mamíferos e aves
do mundo inteiro, oferecem espécies trabalhadas geneticamente
para sofrer mutações que as tornam mais atraentes.
Um exemplo é o peixe-neon, originário do Brasil.
Lá fora, ele é produzido em cores diferentes
das encontradas na natureza ou com as nadadeiras bem maiores.
Essas variedades abastecem um mercado fabuloso. Nos EUA, 71
milhões de lares possuem animais de estimação.
No Brasil, a legislação
permite a criação de animais silvestres em cativeiro.
Faltam criadores bem preparados. "A cadeia de produção
nacional não tem logística nem produção
em série para abastecer o mercado. Faltam qualidade
e quantidade", diz Francisco Tavares, da diretoria de fauna
do Ibama. Não existe por aqui nada parecido com o que
há lá fora. Oitocentos e cinqüenta produtores
comerciais estão cadastrados no Ibama. E muitos usam
a criação como fachada para "esquentar" os animais.
Ou seja, retiram os bichos da fauna silvestre e os registram
como se tivessem nascido em cativeiro. Com isso, eles podem
ser comercializados legalmente. Também não existe
tecnologia nacional para esse tipo de produção.
"Mesmo para criarmos espécies nacionais, temos de importar
tecnologia da Europa", diz Paulo Machado, diretor da Aves
Vale Verde, que tem 800 pássaros para reprodução.
O Brasil ainda está engatinhando na criação
de animais silvestres para comercialização.
Animais capturados
nas matas brasileiras são levados para o Hemisfério
Norte desde a época do descobrimento. A prática
só virou crime em 1967, com a criação
da Lei de Proteção à Fauna. Mesmo assim,
traficantes de animais continuam enviando ilegalmente à
Europa e aos Estados Unidos milhares de araras, jibóias,
papagaios e sagüis. Hoje, o tráfico de animais
silvestres movimenta 20 bilhões de dólares por
ano no mundo todo. Por isso mesmo, a produção
em cativeiro é uma fonte alternativa, que ajuda a atender
à demanda. Desde 1975, a Convenção sobre
o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas
da Fauna e Flora Silvestres (Cites, da sigla em inglês)
controla a exportação de animais em 172 países.
Segundo a instituição, cerca de 270.000 bichos
vivos são comercializados legalmente todos os anos.
O dado não inclui o que é vendido internamente
em cada país. Nem as exportações entre
os países da União Européia. A produção
pode ser, portanto, muito maior. A continuar assim, não
está distante o dia em que a maior parte dos papagaios
do planeta vai falar mais inglês do que português.