Por que tantos ricaços
estão comprando
clubes da primeira divisão do futebol inglês
Denise Dweck
Clive
Brunskill/Getty Images
Elano, com a camisa do City:
Shinawatra pagou 16 milhões de dólares por
seu passe
Alguns estrangeiros com problemas com a Justiça em
seu país de origem descobriram um porto seguro no futebol
inglês. Nove dos vinte clubes da primeira divisão
são propriedade de cartolas de fora do país
ou imigrantes recentes. Muitos deles são investidores
respeitáveis. O time daqueles com riqueza suspeita,
contudo, não pára de crescer. Desde que comprou
o Manchester City por 162 milhões de dólares,
dois meses atrás, o tailandês Thaksin Shinawatra
já gastou 80 milhões de dólares em reforços.
Um deles é o meia brasileiro Elano, que jogava no Shakhtar
Donetsk, na Ucrânia. Magnata das telecomunicações
e primeiro-ministro, Shinawatra foi derrubado por um golpe
militar no ano passado e se exilou na Inglaterra. A junta
militar tailandesa, que o acusa de corrupção
e de abuso de poder, congelou suas contas no país
um total de quase 2 bilhões de dólares. Na Inglaterra,
ninguém pergunta de onde vem o dinheiro que fez a alegria
da torcida do City. "A liga inglesa não é rígida
nesse quesito. Até pouco tempo atrás, permitia-se
que empresas criadas em paraísos fiscais fossem donas
de equipes", diz Antonio Roque Citadini, presidente do Tribunal
de Contas do Estado de São Paulo e dirigente do Corinthians.
A compra de um
time do campeonato inglês traz pelo menos três
vantagens para os ricaços exilados. A primeira é
o acesso ao mercado milionário e nem sempre
transparente de compra e venda de jogadores. A venda
do atacante argentino Carlos Tevez para o Manchester United
ficou embargada na Justiça durante todo o mês
de julho enquanto se discutia se o dono do passe era seu time,
o West Ham, ou seu empresário, Kia Joorabchian, da
MSI, até recentemente parceira do Corinthians. Kia
e seu chefe, o milionário russo Boris Berezovsky, exilado
em Londres, tiveram a prisão preventiva decretada no
Brasil por lavagem de dinheiro. A segunda vantagem de investir
no futebol inglês é o prestígio político.
"Os exilados sentem-se protegidos pela popularidade que o
esporte dá", disse a VEJA o inglês Wyn Grant,
da Universidade de Warwick, autor de um estudo sobre a economia
e o futebol. Roman Abramovich, dono do Chelsea, mudou-se para
Londres para sair do caminho do presidente Vladimir Putin,
cujo serviço secreto é suspeito de já
ter assassinado desafetos do governo russo exilados na Inglaterra.
Por fim, comprar um clube pode ser uma boa fachada de legalidade
para negócios obscuros. No ano passado, o francês
Alexandre Gaydamak comprou o Portsmouth e, poucos meses depois,
descobriu-se que ele tinha uma conta conjunta num paraíso
fiscal com o pai, Arcadi, investigado na França por
contrabando de armas, lavagem de dinheiro e fraude fiscal.
Fotos Adrian Dennis/AFP, Julian
Finney/Getty Images e Alex Livesey/Getty Images