O que acontece quando
a cronometragem atinge intervalos de tempo que não pertencem à
ordem de grandeza da percepção humana
Duda
Teixeira
Os avanços no desempenho dos atletas estão colocando em questão
o conceito de vitória nas provas curtas de atletismo e de natação,
com distâncias de 50 e 100 metros. Os torcedores terão de se acostumar
a ver grupos de atletas chegando juntos ao final de cada disputa, sem saber quem
ganhou. Uma amostra disso ocorreu na semana passada, durante o Mundial de Atletismo
realizado em Osaka, no Japão. Na prova feminina dos 100 metros, três
competidoras cruzaram a linha de chegada ao mesmo tempo ao menos do ponto
de vista de milhares de espectadores. Os árbitros da prova tiveram de mudar
duas vezes o nome da vencedora. Só se teve uma decisão definitiva
após a análise de uma foto do instante final, em que o tronco da
jamaicana Veronica Campbell cruza a linha apenas 3 milésimos de segundo
antes da americana Lauryn Williams. A tecnologia resolveu a dúvida. Para
que o show continue, é preciso apontar um vencedor. Mas ele é mesmo
o melhor quando a diferença é de milésimos de segundo? Nem
sempre. Detalhes aleatórios, como a postura do ombro do atleta na chegada,
poderiam influenciar decisivamente no resultado.
Três milésimos de segundo, ou 3 milissegundos, é um intervalo
de tempo que não pertence à ordem de grandeza da percepção
humana. O cérebro demora em média 40 milésimos de segundo
para interpretar e registrar cada nova imagem captada pelo olho. Isso é
cinco vezes o tempo necessário para um beija-flor bater as asas uma única
vez. Entre o momento em que o cérebro humano emite uma ordem para mexer
uma mão e o instante em que o movimento de fato acontece, gastam-se 200
milésimos de segundo. Durante quase toda a sua história, a humanidade
jamais precisou dividir o segundo em mil frações para compreender
o mundo à sua volta. Foi apenas na década de 50, com a invenção
dos relógios atômicos, que os milésimos passaram a ser medidos
com precisão. Os primeiros cronômetros digitais, capazes de medir
os milésimos de segundo, só começaram a ser usados no princípio
da década de 80. "No início, não havia utilidade para isso.
Tratava-se de um detalhe irrelevante para o esporte", diz o paranaense Ciro Baumann,
que há trinta anos trabalha como cronometrista de corridas automobilísticas.
No atletismo e na natação, a explicação para os sucessivos
empates está nos limites do desempenho físico do homem. Desde que,
em 1922, o nadador americano Johnny Weissmuller, o ator de Tarzan, quebrou
o recorde mundial dos 100 metros livres ao completar a piscina em menos de 1 minuto,
o recorde mundial diminuiu 12 segundos. Nos próximos dez anos, ele dificilmente
vai cair mais do que 1 segundo. A probabilidade de uma prova dar em empate, assim,
será muito maior. "Estamos muito próximos do limite do corpo humano.
A única dúvida é quando ele será atingido", diz Cláudio
Carloni, médico fisiatra da Confederação Brasileira de Desportos
Aquáticos, no Rio de Janeiro. Os dirigentes esportivos encaram o problema
de diferentes maneiras. Na natação, em que o tempo é medido
quando o atleta encosta na borda da piscina, os milésimos de segundo são
ignorados. Quando dois nadadores chegam em primeiro lugar na mesma casa de centésimos
de segundo, ambos levam a medalha de ouro. No atletismo, o tira-teima é
feito com uma foto instantânea do momento da chegada e os milésimos
são considerados.
No automobilismo, em que o desempenho até a década de 70 era calculado
com um cronômetro manual, sensores do tamanho de um maço de cigarros
presos no carro emitem sinais constantes, que são captados por antenas
instaladas no piso ao longo da pista. Três dias antes da corrida feminina
em Osaka, por exemplo, o brasileiro Felipe Massa conquistou a pole position do
Grande Prêmio da Turquia com uma volta apenas 44 milésimos de segundo
mais rápida que a do inglês Lewis Hamilton. Entre o primeiro e o
sexto melhor tempo, a diferença foi inferior a 1 segundo. A semelhança
dos tempos se deve ao regulamento imposto pelas organizações. Desde
as especificações dos aerofólios até a largura das
rodas, tudo é controlado. Com isso, os engenheiros têm pouca liberdade
para deixar suas máquinas muito mais rápidas do que as concorrentes.
A semelhança dos carros é o que garante um espetáculo com
ultrapassagens e disputas emocionantes. O papel que diferentes modalidades esportivas
dão à tecnologia para separar com precisão campeões
de derrotados contrasta com um aparente desleixo no futebol. A instalação
de sensores na bola e a utilização de vídeos foram, até
hoje, recusados pela Fifa. Para o suíço Joseph Blatter, presidente
da federação, o erro faz parte do jogo. Não se pode negar
que o imponderável dá mais emoção às partidas.
A justiça, porém, nem sempre é feita. Esse é o dilema
dos milissegundos.
Bob
Elsdale/Getty Images
NA CASA DOS MILÉSIMOS
Max
Ross/Reuters
1
FELIPE MASSA (Brasil): 1min27s329
Osman Orsap/Reuters
2
LEWIS HAMILTON (Inglaterra):
1min27s373
Nos treinos para o Grande Prêmio de Fórmula 1 na Turquia, Felipe
Massa ganhou a pole position ao completar a volta com uma diferença de
44 milésimos de segundo em relação a Lewis Hamilton
Se eles tivessem largado juntos, a distância
entre o bico do carro de cada um na chegada seria de 2,7 metros
A diferença de Massa para o sexto colocado
nos treinos foi de menos de 1 segundo
A diferença entre eles é de tal ordem que uma variável tão
banal como a temperatura da pista no momento da volta de um dos pilotos poderia
inverter o resultado
OS LIMITES DA PERCEPÇÃO
Geoff Du Feu/Getty Images
O
cérebro humano leva...
...300 milésimos de segundo para registrar uma imagem captada pela retina
...200 milésimos de
segundo para perceber uma picada no pulso