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5 de setembro de 2007
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Esporte
0,003 segundo

O que acontece quando a cronometragem atinge
intervalos de tempo que não pertencem à ordem
de grandeza da percepção humana


Duda Teixeira

Os avanços no desempenho dos atletas estão colocando em questão o conceito de vitória nas provas curtas de atletismo e de natação, com distâncias de 50 e 100 metros. Os torcedores terão de se acostumar a ver grupos de atletas chegando juntos ao final de cada disputa, sem saber quem ganhou. Uma amostra disso ocorreu na semana passada, durante o Mundial de Atletismo realizado em Osaka, no Japão. Na prova feminina dos 100 metros, três competidoras cruzaram a linha de chegada ao mesmo tempo – ao menos do ponto de vista de milhares de espectadores. Os árbitros da prova tiveram de mudar duas vezes o nome da vencedora. Só se teve uma decisão definitiva após a análise de uma foto do instante final, em que o tronco da jamaicana Veronica Campbell cruza a linha apenas 3 milésimos de segundo antes da americana Lauryn Williams. A tecnologia resolveu a dúvida. Para que o show continue, é preciso apontar um vencedor. Mas ele é mesmo o melhor quando a diferença é de milésimos de segundo? Nem sempre. Detalhes aleatórios, como a postura do ombro do atleta na chegada, poderiam influenciar decisivamente no resultado.

Três milésimos de segundo, ou 3 milissegundos, é um intervalo de tempo que não pertence à ordem de grandeza da percepção humana. O cérebro demora em média 40 milésimos de segundo para interpretar e registrar cada nova imagem captada pelo olho. Isso é cinco vezes o tempo necessário para um beija-flor bater as asas uma única vez. Entre o momento em que o cérebro humano emite uma ordem para mexer uma mão e o instante em que o movimento de fato acontece, gastam-se 200 milésimos de segundo. Durante quase toda a sua história, a humanidade jamais precisou dividir o segundo em mil frações para compreender o mundo à sua volta. Foi apenas na década de 50, com a invenção dos relógios atômicos, que os milésimos passaram a ser medidos com precisão. Os primeiros cronômetros digitais, capazes de medir os milésimos de segundo, só começaram a ser usados no princípio da década de 80. "No início, não havia utilidade para isso. Tratava-se de um detalhe irrelevante para o esporte", diz o paranaense Ciro Baumann, que há trinta anos trabalha como cronometrista de corridas automobilísticas.

No atletismo e na natação, a explicação para os sucessivos empates está nos limites do desempenho físico do homem. Desde que, em 1922, o nadador americano Johnny Weissmuller, o ator de Tarzan, quebrou o recorde mundial dos 100 metros livres ao completar a piscina em menos de 1 minuto, o recorde mundial diminuiu 12 segundos. Nos próximos dez anos, ele dificilmente vai cair mais do que 1 segundo. A probabilidade de uma prova dar em empate, assim, será muito maior. "Estamos muito próximos do limite do corpo humano. A única dúvida é quando ele será atingido", diz Cláudio Carloni, médico fisiatra da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos, no Rio de Janeiro. Os dirigentes esportivos encaram o problema de diferentes maneiras. Na natação, em que o tempo é medido quando o atleta encosta na borda da piscina, os milésimos de segundo são ignorados. Quando dois nadadores chegam em primeiro lugar na mesma casa de centésimos de segundo, ambos levam a medalha de ouro. No atletismo, o tira-teima é feito com uma foto instantânea do momento da chegada – e os milésimos são considerados.

No automobilismo, em que o desempenho até a década de 70 era calculado com um cronômetro manual, sensores do tamanho de um maço de cigarros presos no carro emitem sinais constantes, que são captados por antenas instaladas no piso ao longo da pista. Três dias antes da corrida feminina em Osaka, por exemplo, o brasileiro Felipe Massa conquistou a pole position do Grande Prêmio da Turquia com uma volta apenas 44 milésimos de segundo mais rápida que a do inglês Lewis Hamilton. Entre o primeiro e o sexto melhor tempo, a diferença foi inferior a 1 segundo. A semelhança dos tempos se deve ao regulamento imposto pelas organizações. Desde as especificações dos aerofólios até a largura das rodas, tudo é controlado. Com isso, os engenheiros têm pouca liberdade para deixar suas máquinas muito mais rápidas do que as concorrentes. A semelhança dos carros é o que garante um espetáculo com ultrapassagens e disputas emocionantes. O papel que diferentes modalidades esportivas dão à tecnologia para separar com precisão campeões de derrotados contrasta com um aparente desleixo no futebol. A instalação de sensores na bola e a utilização de vídeos foram, até hoje, recusados pela Fifa. Para o suíço Joseph Blatter, presidente da federação, o erro faz parte do jogo. Não se pode negar que o imponderável dá mais emoção às partidas. A justiça, porém, nem sempre é feita. Esse é o dilema dos milissegundos.

 
Bob Elsdale/Getty Images

 

NA CASA DOS MILÉSIMOS

Max Ross/Reuters
1 FELIPE MASSA
(Brasil): 1min27s329

 

Osman Orsap/Reuters

2 LEWIS HAMILTON
(Inglaterra): 1min27s373

• Nos treinos para o Grande Prêmio de Fórmula 1 na Turquia, Felipe Massa ganhou a pole position ao completar a volta com uma diferença de 44 milésimos de segundo em relação a Lewis Hamilton

• Se eles tivessem largado juntos, a distância entre o bico do carro de cada um na chegada seria de 2,7 metros

• A diferença de Massa para o sexto colocado nos treinos foi de menos de 1 segundo

• A diferença entre eles é de tal ordem que uma variável tão banal como a temperatura da pista no momento da volta de um dos pilotos poderia inverter o resultado

 

OS LIMITES DA PERCEPÇÃO

Geoff Du Feu/Getty Images


O cérebro humano leva...

...300 milésimos de segundo para registrar uma imagem captada pela retina

...200 milésimos de segundo para perceber uma picada no pulso

...30 milésimos de segundo para registrar um som

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