Ao lançar,
na semana passada, o livro Direito à Memória
e à Verdade, sobre os crimes praticados durante
a ditadura militar, o presidente Lula avançou sobre
um terreno de delicada estabilidade. Não pelo que a
obra traz. O livro, editado pela Comissão de Mortos
e Desaparecidos Políticos, do Ministério da
Justiça, relata em profundidade as investigações
sobre o desaparecimento e a morte de centenas de militantes
políticos naquele período. Dar às famílias
desses militantes uma satisfação sobre o que
ocorreu e, o que é ainda mais urgente, desvendar o
destino dos restos mortais de seus familiares atende a um
pleito justo. A abertura dos arquivos da ditadura muitos
ainda ocultos é um passo importante para que
a ferida imposta pelas atrocidades daquele período
possa cicatrizar. O desafio é seguir por esse caminho
sem produzir fissuras no terreno da democracia, que o Brasil
conseguiu pavimentar com sabedoria.
Guerrilheiros mortos próximo
a Xambioá, no Tocantins: registros escassos do período
Em 500 páginas,
o livro descreve em detalhes a selvageria que se instalou
nos porões da ditadura contra os militantes de esquerda
boa parte, nunca é demais repetir, disposta
a qualquer coisa para instalar uma ditadura comunista igualmente
sangrenta no país. Revela-se ali que teria sido rotineira
a prática de decapitar os guerrilheiros no Araguaia.
Há relatos de abusos sexuais contra presas e de como
sessões de tortura ajudaram a produzir a farsa dos
militantes arrependidos. O lançamento do livro durante
um ato oficial no Palácio do Planalto, na semana passada,
com a presença do presidente da República, de
ministros de estado e senadores, irritou os militares. Afinal,
era a chancela presidencial à narrativa. A reação
foi clara. Os comandantes das três forças militares
não compareceram. Mesmo os oficiais lotados no palácio
deram seu recado. Acostumados a trabalhar fardados, desta
vez foram vestidos em trajes civis, o que foi entendido por
todos como um sinal de descontentamento. O ministro da Defesa,
Nelson Jobim, com seu estilo contundente e o senso de autoridade
em permanente prontidão, avisou: "Que as Forças
Armadas brasileiras recebam este ato como absolutamente natural.
Não haverá indivíduo que possa a isso
reagir e, se houver, terá resposta". Os militares reagiram.
Classificaram a frase de Jobim como uma "afronta desnecessária".
De fato, foi. A Lei da Anistia, promulgada em 1979, teve o
mérito da eqüidade. Mas os ressentimentos por
tudo o que aconteceu ainda existem, o que é compreensível,
principalmente quando não se conhece o destino de familiares.
O Brasil, porém, já tão adiante no caminho
da democracia, não pode namorar com o precipício.