Lula reconhece que
não é insubstituível, garante que não
tentará disputar um terceiro mandato e dá a
largada para as eleições presidenciais de 2010
Fábio Portela
Na cozinha: Lula diz que em
2011 quer
estar perto do fogão e longe do Planalto
O governo do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva combina estabilidade econômica
com programas sociais bem avaliados e altos índices
de popularidade. Por isso e por não dispor de
outros nomes com potencial de vitória numa eleição
presidencial , o PT sonha em convencer Lula a mudar
a Constituição para disputar um terceiro mandato
em 2010. Até agora, o principal obstáculo a
esse projeto é o próprio presidente. Neste ano,
ele já repetiu por três vezes que não
embarcará em uma aventura. Rechaçou a idéia
pela primeira vez em março, durante um café-da-manhã
com jornalistas. "Não tem hipótese. É
brincar com a democracia", declarou. Em maio, reafirmou o
compromisso: "Não serei candidato em 2010". Na semana
passada, foi categórico. "Não tem essa de o
povo pedir. Meu mandato termina no dia 31 de dezembro de 2010.
Agradeço ao povo brasileiro o carinho que teve comigo
e passo a faixa para outro presidente da República
em 1º de janeiro de 2011. E vou fazer meu coelhinho assado,
que faz uns cinco anos que eu não faço", disse
ao jornal O Estado de S. Paulo.
Na mesma entrevista, deu outra
mostra de respeito à Constituição, ao
comentar o projeto do presidente Hugo Chávez que acaba
com os limites para a reeleição na Venezuela.
Lula evitou condenar expressamente o colega, mas criticou
os governantes que cedem à vontade de se perpetuar
no poder. "Quando um dirigente político começa
a pensar que é imprescindível, que é
insubstituível, começa a nascer um ditadorzinho",
afirmou. Não há na biografia política
de Lula nada que avalize a tese de que ele está fazendo
essas declarações apenas para despistar os adversários
e, mais adiante, tentar um novo mandato. O recado de Lula
de que não aceitará ser candidato em 2010 mostra
para aliados e adversários que seu compromisso com
a democracia não é negociável. Em sua
maioria, a oposição não alimenta dúvidas
sérias de que o presidente prefira, de fato, a receita
do coelhinho assado à do chavismo. Mas não custa
repetir isso, em especial para os aliados. Ainda mais porque,
se quisesse, Lula teria respaldo popular para virar a mesa.
Uma pesquisa encomendada em maio pelo PSDB à MCI mostra
que 58% dos eleitores não recriminariam Lula se ele
tentasse mudar a Constituição para poder se
eleger de novo. Diz o cientista político Bolívar
Lamounier: "É indispensável exorcizar da base
governista a tentação de um terceiro mandato
de Lula. A alternância de poder é a garantia
de que o Brasil não vai transformar-se em uma Venezuela".
"O fato de Lula declarar, alto
e bom som, que não planeja disputar um terceiro mandato
é auspicioso. Sobretudo porque ele poderia tentar obter
o apoio popular para isso", diz o cientista político
Roberto Romano. Ao se colocar fora do páreo, Lula antecipou
o debate sobre sua sucessão. Até agora, o PT
não tem alternativas consistentes para a corrida presidencial
de 2010. Seus principais nomes são os dos ministros
Tarso Genro, da Justiça, e Dilma Rousseff, da Casa
Civil, e o do governador da Bahia, Jaques Wagner. Nenhum deles
tem grande aceitação dentro do partido. Como
só se filiou ao PT em 2001, Dilma ainda é considerada
uma cristã-nova na agremiação. É
o pretexto mais utilizado pela turma comandada por José
Dirceu, que é majoritária. Os aliados de Dirceu
também vetam o nome de Tarso, porque o ministro tentou
isolá-los quando ocupou a presidência do partido,
há dois anos. Já a candidatura de Jaques Wagner
dependeria de um êxito administrativo retumbante no
governo da Bahia.
Sem candidatos fortes no PT,
Lula joga com a hipótese de apoiar um candidato de
outro partido da base aliada. Hoje, o nome que surge com mais
força é o do deputado Ciro Gomes, do PSB. Como
já disputou duas campanhas presidenciais, Ciro é
conhecido dos eleitores, pontua bem nas pesquisas de intenção
de voto e almeja ganhar o apoio de Lula. O projeto de Ciro
pode ser encampado por outros partidos da base. O PCdoB acha
que andou por tempo demais a reboque do PT e sinaliza que
deve fazer parte de sua chapa. Ciro tenta convencer o PDT
a seguir o mesmo caminho. Com Lula afastado da disputa, o
PMDB também passou a sonhar em lançar um candidato
próprio. Os favoritos são o ministro da Defesa,
Nelson Jobim, que Lula quis ter como seu vice-presidente na
última eleição, e o governador do Rio
de Janeiro, Sérgio Cabral. Com o aval de Lula, o partido
ainda tenta convencer o governador de Minas Gerais, Aécio
Neves, a deixar o PSDB para ser o candidato a presidente do
PMDB.
Aécio rechaça
essa hipótese, cada vez mais remota. O governador pretende
disputar, sim, a Presidência. Mas pelo PSDB. Caso seja
preterido na disputa interna com José Serra, governador
de São Paulo, Aécio poderá compor a chapa
como vice-presidente ou concorrer ao Senado. Independentemente
de Lula, os tucanos tentam resolver a disputa entre os dois
governadores estabelecendo critérios formais para a
escolha do seu candidato. Até o momento, Aécio
e Serra chegaram a um acordo em, pelo menos, um ponto: adiarão
ao máximo a decisão de lançar seus nomes.
Enquanto isso, tentam criar um clima de união, para
não ameaçar o projeto de retomada do Planalto.
Mas ambos os tucanos não conseguem esconder que ficaram
com mais água na boca depois de ler a declaração
de Lula sobre o tal "coelhinho assado".